Outremos um pouco — Revista Somos Livros — Mês do Livro 2025

Por: Elísio Borges Maia a 2025-04-15

Ser digna na partida, na despedida,
dizer adeus com jeito,
não chorar para não enfraquecer
o emigrante,
mesmo que o emigrante seja
o nosso irmão mais novo, dobrar-lhe as camisas,
limpar-lhe as sapatilhas
com um pano húmido,
ajudá-lo a pesar a mala
que não pode levar mais de vinte quilos
(quanto pesará o coração dele?
E o meu?), (…)

FILIPA LEAL, Manual de Despedida para Mulheres Sensíveis, in Vem à Quinta-Feira, 2016


“Para muitos portugueses, Abril começou muito antes de 1974. Homens de rija têmpera, como o Maiato de Gueifães, deixaram para trás uma terra onde a miséria era o único futuro que vislumbravam para si e para os seus filhos. Acharam nos caminhos da emigração, a realização dos sonhos impossíveis no seu próprio país”. O autor destas linhas é António Borges. O “Maiato de Gueifães” é o seu irmão, Valdemar Borges. António escolheu ficar, mas viu partir cinco dos seus irmãos – Anselmo, Renato, Roberto, Valdemar e Manuel. Por esta ordem, emigraram para França, na década de 1960. Todos são meus tios, irmãos de minha mãe, Albertina.

No mês em que comemoramos os 51 anos da nossa democracia (e mais um Dia Mundial do Livro), dedicamos esta edição a todos aqueles que tomaram a decisão difícil de abandonar o seu país e escolheram o nosso como destino. Procuramos dar voz a esse sentimento de habitar uma pátria estrangeira e aos efeitos desse relacionamento continuado: na forma como falamos ou vemos o mundo; nos nossos filhos; na arte que criamos. Nesta edição, o músico e compositor argentino Pablo Lapidusas e o escritor e jornalista brasileiro Álvaro Filho salientam como as respetivas obras foram fortemente influenciadas pela decisão de viver em Portugal. Essa influência é recíproca. O forte crescimento da imigração nos últimos anos, a diversidade que esta nos trouxe, os novos debates que suscita estão a modificar o nosso país. Pedro Góis, baseando-se em dados da AIMA, estima o número de estrangeiros com residência legal em Portugal ou em condições de a obter entre 1,3 e 1,5 milhões de pessoas, tendo, assim, triplicado na última década. A população estrangeira é hoje mais diversa e está mais dispersa territorialmente. Há portugueses que veem este crescimento e diversidade com desagrado ou desconfiança e forças partidárias que se aproveitam politicamente destes sentimentos, estimulando-os. A falta de resposta atempada aos pedidos de autorização de residência agravou a situação de fragilidade de centenas de milhares de pessoas e foi combustível para todo o tipo de oportunistas.

Robert Sapolsky – que entrevistamos nesta edição – recorda, na sua obra monumental Comportamento, que o mundo se divide em dois tipos de pessoas: aquelas que dividem o mundo em dois tipos de pessoas e aquelas que não fazem isso. E acrescenta: “Há mais das primeiras. É imensamente relevante quando as pessoas são divididas entre Nós e Eles, entre membros do grupo e forasteiros, entre ‘os cidadãos’ (ou seja, o nosso tipo) e os Outros.” O cérebro humano faz estas distinções e, “automaticamente, pensamos que ‘Nós’ somos muitos melhores e mais merecedores que ‘Eles’”1 . Ao mesmo tempo, quem são Eles, os Outros, pode mudar num instante.

Com a preciosa ajuda do irmão António, Valdemar (que deixou a escola aos 11 anos) conseguiu concluir uma pequena autobiografia. O relato da aventura da emigração clandestina baseia-se num diário que iniciou pouco depois da chegada a Estrasburgo, às três da manhã do dia 15 de fevereiro de 1969. Com o seu amigo Teixeira, partiu de Campanhã ao encontro de Anselmo, que já vivia em França e os aguardava em Cidade Rodrigo, para ajudar a superar os riscos da viagem. O primeiro comboio levou-os até à Pampilhosa da Serra e um segundo perto de Vilar Formoso. Um taxista previamente contratado, que não escondia o medo, deixou-os, perdidos, na Aldeia da Ponte onde deveriam atravessar a fronteira. Do lado espanhol (creio que em Almedilha) teriam de encontrar um padeiro que garantiria o transporte de carro até Cidade Rodrigo. Este, invocando riscos acrescidos e imprevistos que não soube explicitar, extorquiu-lhes duas mil pesetas. A experiência de Anselmo evitou que fossem detidos pela polícia espanhola, a bordo do comboio que partira de Cidade Rodrigo, e também permitiu que, pela manhã, permeassem com sucesso a fronteira francesa. Mas a falta das duas mil pesetas tornou a viagem de mais de 2 mil quilómetros um verdadeiro inferno. Não tinham dinheiro para comer ou beber e tiveram de pedir dinheiro na estação de Paris, para conseguirem comprar os bilhetes para Estrasburgo. Aí chegados, perceberam que as dificuldades não tinham acabado, pois a empresa que lhes havia prometido um contrato de trabalho deu o dito pelo não dito. Mais uma vez, Anselmo salvou a situação, intercedendo junto do seu patrão que acabou por contratar Valdemar e Teixeira, ambos estucadores, por três francos e oitenta cêntimos à hora.

Durante os últimos dois séculos, centenas de milhares de portugueses procuraram melhores condições de vida em vários países europeus e também no Brasil, Venezuela, Canadá ou Estados Unidos da América. O poema de Filipa Leal em epígrafe, evocando os muitos milhares de jovens que emigraram durante a última crise económica, recorda-nos que esta senda não é uma página dos livros de história. Nesses países de destino, fomos (e ainda somos) “Eles, os Outros”. Isso deveria ajudar-nos a compreender e aceitar melhor os imigrantes que tomaram essa corajosa (e quase sempre dolorosa) decisão. Afinal, as suas razões coincidem, no essencial, com as que motivaram os meus tios, como Valdemar bem explica nestes versos:

 

Quando uma terra é madrasta
E não cuida dos seus filhos,
É ela que os afasta
À procura de outros trilhos.

VALDEMAR BORGES, Ao encontro do meu destino, in O Maiato de Gueifães e a Rapariga do Xaile, 2008.

 

1. A primeira frase é geralmente atribuída a Robert Benchley. ROBERT SAPOLSKY, Comportamento, Temas e Debates, 2018, pág. 476.

 

Lê aqui a Revista Somos Livros Mês do Livro 2025 

X
O QUE É O CHECKOUT EXPRESSO?

O ‘Checkout Expresso’ utiliza os seus dados habituais (morada e/ou forma de envio, meio de pagamento e dados de faturação) para que a sua compra seja muito mais rápida. Assim, não tem de os indicar de cada vez que fizer uma compra. Em qualquer altura, pode atualizar estes dados na sua ‘Área de Cliente’.

Para que lhe sobre mais tempo para as suas leituras.