Autor de Na terra dos animais falantes e mais de duas dezenas de livros para crianças e adultos, Richard Zimler acaba de publicar uma nova aventura para os mais novos. A propósito de Ernesto - O robô que pintou o Sono e a Doçura, o Ponto de Interrogação convidou o escritor, professor e jornalista para uma conversa sobre a fronteira que separa os humanos dos robôs, a experiência pessoal do autor como migrante e a importância da leitura na construção de um mundo mais empático e inclusivo.
Nasceu nos EUA e mudou-se para Portugal há mais de 30 anos. Foi difícil adaptar-se a um novo país e aprender uma nova língua?
Sim, foi extremamente difícil. Em parte, porque o meu irmão tinha morrido no ano anterior, de SIDA. Por isso, na altura, eu estava muito frágil e traumatizado. Também não compreendia que as pessoas de diferentes países pensam de forma diferente sobre todas as coisas importantes e não tão importantes – por exemplo, como começar uma amizade ou as responsabilidades de um professor e de um aluno. Por isso, para além de aprender uma nova língua – português – tive de tentar perceber como pensam os portugueses. Foi muito complicado.
A leitura teve um papel importante nessa aprendizagem? Que livros começou por ler em português e quais marcaram a sua infância nos EUA?
Acho que Miguel Torga foi o mais útil, porque as suas histórias ajudaram-me a compreender melhor a pobreza e o isolamento em Portugal antes da Revolução. Em miúdo, lia autores muito conhecidos na América, como o Dr. Seuss e Maurice Sendak. Um livro muito importante para mim foi o D’Aulaires’ Book of Greek Myths. É um livro para crianças que conta muitos dos mitos gregos. Foi aí que começou o meu interesse pelas histórias mais antigas da Humanidade e também pela forma como os autores utilizam o simbolismo para exprimir sentimentos e ideias.
Em 2009, escreveu o seu primeiro livro para crianças e, desde então, já publicou quase uma dezena de livros infantis. O que é que muda no seu processo criativo quando escreve para este público?
Quando escrevemos para crianças, temos de recuar no tempo até aos nossos seis, oito ou dez anos de idade e usar essa perspetiva para contar uma história que seja comovente e cativante. Obviamente, é preciso limitar o vocabulário. E evitar cenas de violência ou temas que possam ser demasiado perturbadores. O humor é muito importante. As crianças adoram rir. E eu também! A linguagem poética também é essencial – porque as crianças ficam encantadas com rimas e a sonoridade das palavras. Acho que são poetas natos.
“Acho que (as crianças) são poetas natos.”
Os animais parecem estar presentes em praticamente todas as suas histórias para crianças. Tem animais de estimação? De onde surge essa inspiração?
Gosto de incluir animais porque os miúdos criam uma ligação profunda e afetiva com os bichinhos. Essa parte do processo de escrita é natural para mim, porque também adoro animais. Quando era miúdo, costumava ir observar pássaros quase todos os dias. E tínhamos uma cadela maravilhosa – afetiva, bonita, inteligente e leal. Chamava-se Dena. Infelizmente, morreu jovem de uma doença congénita. Essa profunda rutura na minha vida afetiva deu-me a inspiração para o meu livro Na terra dos animais falantes.
Embora o seu novo livro, Ernesto - O robô que pintou o Sono e a Doçura, tenha como personagens um cão e uma gata, chamados Sono e Doçura, o grande protagonista é um robô. O que o levou a interessar-se por este tópico?
O meu interesse por robôs começou há 50 anos, quando vi o maravilhoso filme, O Dia em que a Terra Parou. Hoje em dia, as crianças crescem com todo o tipo de tecnologia, desde telemóveis a jogos de vídeo. Um dia, em breve, os robôs farão parte da nossa vida quotidiana. E isso levanta questões fascinantes. Por exemplo, quando a sua tecnologia se tornar mais avançada, será que passaremos a considerá-los como seres vivos? E se os considerarmos vivos, terão os mesmos direitos que nós?
O robô Ernesto foi programado para ser artista, mas apesar de a sua técnica ser perfeita, falta-lhe a capacidade de expressar as suas emoções. O que espera que os seus pequenos leitores aprendam com a história de Ernesto?
Espero que aprendam a valorizar os seus próprios sentimentos e ideias – e que façam o seu melhor para os utilizar para serem criativos. Afinal de contas, cada um de nós é único. Por isso, tal como Ernesto na minha história, cada ser pode criar obras de arte únicas e surpreendentes. Pode pintar quadros ou escrever poemas – ou compor músicas – que reflitam as suas dificuldades e alegrias, e que mostrem ao resto de nós quem são. Também quero que aprendam uma coisa importantíssima: a valorizar os seus sonhos.
Todos nós queremos as mesmas coisas: ser amados e respeitados, viver numa casa confortável, ter bons amigos e a oportunidade de viver os nossos sonhos.
Para além de escritor, tem sido um defensor ativo dos direitos das crianças migrantes. Acredita que os livros podem ajudar a construir um futuro mais inclusivo e tolerante para as gerações futuras?
Sim, creio que ler autores de todo o mundo nos ajuda a compreender que as pessoas de países longínquos podem parecer diferentes de nós – até mesmo estranhas – mas que quase todos nós queremos as mesmas coisas: ser amados e respeitados, viver numa casa confortável, ter bons amigos e a oportunidade de viver os nossos sonhos. A leitura ajuda- nos a valorizar todos aqueles que partilham este belo planeta em que vivemos, independentemente da cor da pele, da religião ou da orientação sexual.
No livro Dança quando chegares ao fim – Bons conselhos de amigos animais, um dos conselhos dados por um dos animais é: «questiona, questiona e sempre questiona». Poderia servir de mote para um escritor? Ou será mais importante o conselho da toupeira que diz: «quando vires uma flor, cheira»?
Ambos os lemas são importantes para mim, especialmente nos dias de hoje. Somos bombardeados com tanta informação falsa, que devemos aprender a questionar sempre as notícias que lemos e o que vemos na televisão. Devemos aprender a denunciar sempre as histórias falsas, pois o seu objetivo é manipular-nos para votar em pessoas perigosas. Ao mesmo tempo, é essencial apreciar a beleza que nos rodeia – desde magníficas montanhas e rios até à comida deliciosa que podemos preparar para nós próprios. Sim, devemos tirar tempo para cheirar as flores...
Richard Zimler para “miúdos”: