Domingo, dia 26 de julho, celebra-se em Portugal o Dia dos Avós, uma data para homenagear e reconhecer o papel daqueles que, muitas vezes em silêncio, sustentam a memória e a identidade de famílias inteiras. A escolha deste dia coincide propositadamente com o dia de Santa Ana e de São Joaquim, tradicionalmente apontados como os pais de Maria e avós de Jesus. Um dia simples mas carrega um significado enorme.
Os avós são, para muitas crianças, o primeiro contato com um tempo que não viveram. São eles que contam como era a escola antigamente, que crise assolou o país, que música tocava no rádio da sala. Antes de existirem fotografias em cada dispositivo e arquivos digitais para tudo e mais alguma coisa, era a palavra dos mais velhos que preservava as genealogias, as tradições e os acontecimentos importantes das populações. Essa transmissão oral moldou culturas inteiras e continua, hoje, a dar sentido às raízes e à identidade de cada família.
Essa centralidade dos avós na vida das famílias despertou também a curiosidade da ciência, que há décadas tenta perceber porque é que a natureza reservou às mulheres um período tão longo de vida, após o fim da idade reprodutora. Do ponto de vista puramente biológico, a menopausa é um fenómeno raro entre os mamíferos: a espécie humana é uma das poucas onde as fêmeas vivem largas décadas depois de perderem a capacidade reprodutiva. Durante muito tempo, era um facto que intrigava os investigadores da evolução: se a seleção natural privilegia quem consegue passar os seus genes à geração seguinte, porque continuaria a sobreviver, durante tantos anos, quem já não tem ‘capacidade’ de os transmitir por via direta?
Os avós são, para muitas crianças, o primeiro contato com um tempo que não viveram. (...) Essa transmissão oral moldou culturas inteiras e continua, hoje, a dar sentido às raízes e à identidade de cada família.
A resposta que ganhou mais força entre os antropólogos evolutivos é a chamada hipótese da avó, proposta nos anos 90 pela antropóloga norte-americana Kristen Hawkes a partir do seu trabalho de campo junto da comunidade Hadza, na Tanzânia. Segundo esta ideia, a longevidade feminina pós-reprodutiva não é um acaso, mas antes uma vantagem evolutiva: ao dedicarem-se à proteção, alimentação e educação dos netos, as avós libertavam as mães para terem mais filhos e aumentavam as hipóteses de sobrevivência de toda a linhagem, o que, ao longo de milhares de gerações, terá contribuído para selecionar essa longevidade feminina. Curiosamente, o mesmo padrão foi identificado noutras poucas espécies onde existe também um período de vida pós-reprodutivo prolongado, como as orcas, em que as fêmeas mais velhas lideram os grupos e guiam as crias até às fontes de alimento em anos difíceis.
Quem quiser aprofundar o tema pode encontrar um bom ponto de partida em Mothers and Others: The Evolutionary Origins of Mutual Understanding, da primatóloga Sarah Blaffer Hrdy, que explora o papel de outros cuidadores para além da mãe (avós incluídas) na evolução da cooperação humana, ou em A História do Corpo Humano: Evolução, Saúde e Doença, de Daniel E. Lieberman, professor de Biologia Evolutiva Humana em Harvard, que dedica parte da obra à forma como a longevidade pós-reprodutiva e o papel dos avós na criação dos netos ajudaram a moldar a nossa espécie.
Somos, desta forma e em parte, uma espécie moldada pela presença das avós, não só na cultura e no afeto, mas também na própria biologia, que nos trouxe até aqui.
No entanto, muito além da biologia e da história, os avós são sobretudo afeto, são colo sem pressa, a paciência que os pais nem sempre têm tempo de oferecer, a história repetida pela décima vez e contada com o mesmo entusiasmo da primeira. É por isso que, no fundo, celebrar os avós é celebrar a própria continuidade de quem somos e de onde viemos.
Deixamos-lhe algumas sugestões de leituras que celebram e homenageiam os nossos avós:
Há histórias que nunca nos cansamos de ouvir, sobretudo quando são contadas por quem mais gostamos. Avô, Conta Outra Vez celebra esses momentos únicos entre avós e netos, em que as memórias ganham vida através das palavras.
Com texto de José Jorge Letria e ilustrações de André Letria, este livro é uma homenagem à tradição de contar histórias, ao afeto entre gerações e à importância de preservar as recordações que fazem parte da história de cada família.
Como se explica um dos momentos mais importantes da História de Portugal às gerações mais novas? Ana Markl responde a essa pergunta através de uma conversa entre avô e neto, onde as memórias da Revolução dos Cravos se cruzam com a curiosidade infantil.
Este livro mostra como os avós são também transmissores da memória coletiva, ajudando os mais novos a compreender o passado através de histórias vividas na primeira pessoa.
Pensado para criar momentos especiais entre avós e netos, este livro reúne histórias curtas, ternurentas e cheias de imaginação, perfeitas para ler antes de dormir ou durante uma tarde em família. Escrito por Isabel Stilwell e ilustrado por Marta Torrão, inclui ainda um audiolivro gratuito, permitindo que as histórias acompanhem os mais pequenos de diferentes formas.
Uma obra que reforça o poder da leitura partilhada e das memórias construídas à volta de um livro.
Neste livro cheio de sensibilidade e humor, Alice Vieira presta homenagem à figura da avó através de histórias, memórias e reflexões inspiradas na sua própria experiência. Com a simplicidade e a ternura que caracterizam a autora, O Livro da Avó Alice recorda-nos que os avós são muitas vezes guardiões de afetos, tradições e ensinamentos que permanecem para toda a vida.
Uma leitura que aquece o coração de leitores de todas as idades.