Nasceu em Lisboa a 20 de Julho de 1939. Licenciou-se em Filologia Germânica, foi tradutora, consultora literária e jornalista. O Ponto de Interrogação conversou com Luísa Ducla Soares, que escreve há 50 anos, quase sempre a pensar nos mais novos.
Quando era criança, quais eram as suas brincadeiras preferidas?
No meu tempo não havia supermercados de brinquedos. Quem não tinha dinheiro não deixava de se divertir: bastava puxar pela imaginação! Faziam-se carros com caixotes, aviões de papel, espadas de pau, bailarinas de saias vermelhas com papoilas! Brincava com os gatinhos que nasciam, entretinha-me a construir barquitos com cascas de nozes… mas, para mim, o máximo era construir um papagaio de papel e pô-lo a voar. Mais do que brinquedos; eram um sonho de liberdade que ganhava asas.
O que queria ser quando fosse crescida?
Adorava ir ao circo e queria ser domadora de leões! Achava que tinha um dom especial para lidar com todos os bichos (e ainda hoje mantenho essa convicção). Um dia, cheguei ao pé do meu pai e pedi: «Preciso de um leão para trabalhar no circo. Mas quero um pequenino, para poder ensiná-lo sem que ele me coma…». O meu pai soltou uma gargalhada. Uns dias depois acabou por me oferecer três ratinhos brancos.
Quando começou a escrever?
Foi a minha professora de português que me deu aquele empurrãozinho que me fez pegar num lápis e num papel para me exprimir. Era uma professora mágica que fazia das aulas uma festa, que transformava textos secos em teatro, que nos fazia viver dentro de uma poesia, que tornava as suas aulas um espaço feliz de descoberta.
Qual foi a inspiração para as primeiras histórias?
O meu irmão mais novo era um autêntico mafarrico. Para o entreter, comecei a inventar historietas tão loucas como ele, com personagens estapafúrdias e piadéticas. Foi nessa altura que aprendi a fazer contos infantis. E o meu irmão Zé foi o ouvinte mais atento que encontrei.
É verdade que os livros, em sua casa, estavam fechados à chave?
Sim, é verdade. Eu lia e relia por gosto os textos da seleta de português, embrenhava-me nos artigos (sobre todos os assuntos) da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Em minha casa, deixaram-me conviver com as obras do Herculano, com velhos calhamaços amarelados de história universal, mas os meus olhos viravam-se para uma fileira inteira de Eça de Queirós, que parecia mesmo estar a chamar por mim, mas que estavam fechados à chave. Descobri o esconderijo da chave e, um a um, fui lendo os seus livros à noite, com uma lanterna, debaixo dos lençóis. Devorei-os todos, ao longo dos meses, e melhoraram as minhas notas a português. Comecei a amar profundamente a nossa língua portuguesa.
Depois de entrar na universidade chegou a ser presa. Como foi essa experiência?
Quando ingressei na Faculdade estava certa de que tudo ia mudar na minha vida. E mudou muito! Conheci muitas pessoas que tinham mil e um interesses. Fundamos uma revista literária, a Grafia, organizámos um grupo de teatro, inscrevi-me em cursos de línguas e passei a frequentar, assiduamente, a biblioteca do Instituto Britânico. Tinha aí à minha disposição milhares de livros que podia requisitar para ler em casa. Deslumbrei-me e, a partir de então, fiquei viciada em livros e bibliotecas.
Nessa altura, eramos todos controlados pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) e nós começamos a levar a cabo algumas lutas estudantis. Acreditei que a nova geração tinha de mudar o mundo. Em 1962, houve uma greve académica, que levou à detenção e expulsão de diversos alunos e eu fui presa enquanto participava numa manifestação de solidariedade com esses colegas. Com os poucos meios ao nosso alcance, a Noémia Delgado e eu começamos a dar aulas de alfabetização e ginástica às outras prisioneiras. Saí de lá ainda mais convicta de que estava na hora de mudarmos Portugal.
Como foi trabalhar na Biblioteca Nacional, rodeada de três milhões de livros?
Foi uma experiência inesquecível. Trabalhei lá 30 anos, li desalmadamente, organizei exposições, lidei com pesquisadores de todo o mundo, fiz muitos amigos e conheci realidades muito diversas.
Enquanto escritora, costuma visitar muitas escolas. Como descreve esse contacto com os alunos?
Há quem pense que a ida de um escritor às escolas só beneficia os alunos. Mas engana-se redondamente! Nesses encontros, avaliamos a forma como os nossos textos foram recebidos e temos oportunidade de partilhar experiências, ideias e sonhos das crianças. Ouvimos conversas e assistimos a cenas que nos servem de inspiração para futuras obras. Alguns dos meus livros nasceram dessas visitas, como é o caso do Abecedário Maluco, O Rapaz e o Robô, Meninos de Todas as Cores, O Rapaz Que Tinha Zero a Matemática, Quero Crescer! e O Livro das Datas.
Quantos livros escreveu para os mais novos?
Entre contos, lengalengas, poesia, trava-línguas, são mais de 180 livros. Sinto-me bem comigo própria a escrever para crianças.
Entrevista ficcionada, inspirada no livro Luísa – As Histórias da Minha Vida (Porto Editora).