Nascido em Lisboa, em 1951, José Fanha já viveu muitas vidas. Além de escritor de literatura infantojuvenil, poeta e dramaturgo, foi também arquiteto, professor, jornalista, compositor e declamador, ao lado de figuras como José Afonso. Hoje, com 74 anos, ainda espera ter tempo para fazer muita coisa, mas, acima de tudo, para ver o mundo tornar-se num lugar melhor. Falámos com o contador de histórias sobre livros, memórias, a revolução que viveu durante a sua juventude e a que ainda espera viver.
Tinha apenas 18 anos quando começou a declamar poesia e 19 quando publicou o seu primeiro livro, Cantigas da dúvida e do perguntar (1970). Como é que a poesia, as histórias e as palavras se tornaram num amor para a vida?
Através da minha avó. Eu ainda não sabia ler e ela pegava nos livros com muita ternura para me contar histórias.
E também falava com muita saudade e doçura do meu avô, falecido antes de eu nascer. Era oficial do exército, cantava canto lírico, escrevia sonetos e fazia teatro amador. E era tão bela a forma como ela o recordava que eu só queria vir a ser como esse meu avô.
Que livros fazem parte das suas primeiras memórias enquanto leitor?
As aventuras de Tom Sawyer, As aventuras de João Sem Medo, Emílio e os detetives, Os Três Mosqueteiros.
Além de escritor, foi também professor e chegou até a ser repreendido por ler poesia aos alunos durante as aulas de Educação Visual. O que é que a poesia pode ensinar que nenhum manual pode?
A poesia pode ensinar a navegar no mar das emoções e do que há de mais belo na nossa humana condição.
Mais do que ensinar a interpretar textos, defende a importância de ensinar às crianças e aos jovens a gostar de ler. Pode o prazer da leitura ser ensinado?
Não se pode ensinar a gostar. Pode partilhar-se o prazer da leitura e a capacidade de, através da leitura, abrir as portas desta maravilhosa aventura que é a vida.
Uma das histórias que contou aos mais jovens e que eternizou em livro foi a daquele que descreve como o dia mais bonito da sua vida, o 25 de abril de 1974. Neste ano, 11 anos após a publicação original de Era uma vez o 25 de Abril (2014), este livro foi o escolhido pelos nossos leitores como o Melhor Livro Infantil para o Prémio Livro do Ano Bertrand. Como é que recebeu esta notícia?
Recebi a notícia com muito orgulho, até porque este prémio foi votado pelos leitores.
Qual é a memória mais especial que guarda do dia 25 de Abril de 1974?
Em abril, cada abraço com as pessoas com quem me cruzava era uma porta aberta para uma promessa de felicidade.
No fim do livro, refere-se ao período a seguir ao 25 de Abril como uma “outra história que podemos contar numa outra vez”. Ainda pensa contar essa história aos mais jovens? Ou é uma História que ainda está a ser escrita?
Disse a Rosa Montero que “Deus criou o homem porque tinha necessidade de ouvir contar histórias”. Talvez seja por isso que as histórias nunca chegam ao fim. É por isso que é preciso contar a história muito para trás do 25 de Abril, dando a conhecer a todos o que foi o passado, pois só conhecendo o passado é possível construir um futuro luminoso.
Afirmou numa entrevista que “a próxima revolução que houver tem de ser uma revolução pela amabilidade”. Poderão ser as crianças a encabeçar esta revolução? Ou os poetas?...
A próxima revolução, a revolução da amabilidade, do espantoso orgulho de se ser humano, talvez seja conduzida por artistas, pintores, músicos, atores, poetas, etc.
No ano passado, com 73 anos, confessou que ainda não sabia muito bem o que queria ser quando fosse grande. Já descobriu, entretanto, ou mantém apenas a vontade inabalável de continuar a fazer coisas?
Há tantas coisas que gostava de fazer e creio que já não tenho tempo para todas… Pintura, teatro, música, cinema… Por certo, já não terei tempo para todas, mas posso tentar…
No livro Diário inventado de um menino já crescido (2004), que define como um livro de memórias de infância, umas verdadeiras e outras inventadas, escreve: “Tenho a certeza de que um dia o futuro vai chegar. E, nesse dia, eu vou estar cá para ver.” Como imagina o futuro que ainda espera ver?
O futuro, para mim, será, por certo, conviver com a minha companheira, os meus amigos, filhos e netos, e dar-lhes a beber a alegria de construir um mundo mais bonito e fraterno do que este em que vivemos.
Para conheceres José Fanha:
Era uma vez o 25 de Abril
A Máquina de Apanhar Poetas
A Rua do Poeta Voador
Histórias na ponta de um sorriso