A escrita salvou-a quando teve de lidar com a morte do pai. Tânia Ganho vive a vida a lidar com a palavra. É escritora, além de tradutora de importantes nomes da literatura internacional. Lançou recentemente um novo romance. Lobos (Ed. D.Quixote) é uma obra na qual regressa a temas que diz serem seus. A violência continua a interessar-lhe como tema literário e quis explorá-la, desta vez, noutra perspetiva. Depois do sucesso de Apneia (Ed. D.Quixote), em que fala das vítimas da violência, agora, em Lobos, mergulha na vida de quem tem de conviver com a violência de forma profissional. Isso levou-a mesmo a tirar um curso de Ciências Forenses e Investigação Criminal.
A autora, que gosta de momentos de silêncio, lamenta como se "grita" hoje nas redes sociais e nos meios de comunicação. "Prefiro guardar as minhas opiniões e preocupações para os meus livros", diz a autora, que opta pelo silêncio e a pesquisa para criar personagens através das quais aborda os temas que a "inquietam".
Lobos é o seu mais recente romance. É um livro no qual regressa a alguns dos seus temas. O que quis dizer através do livro?
Quando fiz pesquisa para Apneia, andei às voltas com temas duros e difíceis, como a violência doméstica e o abuso sexual de menores. Abri aí uma porta que depois não consegui fechar. Em Lobos, volto ao tema da violência, mas sobretudo do ponto de vista das pessoas que lidam com o mal e com o trauma no seu dia a dia profissional. Pessoas como a Fedra, antropóloga forense, e o Stefan, ex-fotógrafo de guerra. Quis perceber quais são as estratégias que essas pessoas usam para lidarem diariamente com atrocidades sem soçobrarem.
Como foram surgindo as histórias e estas personagens?
A antropóloga forense surgiu quando vi uma reportagem na televisão sobre o trabalho do laboratório de polícia científica na área da pedocriminalidade. Fiquei tão fascinada com os avanços científicos que fiz um curso de Ciências Forenses e Investigação Criminal. Quanto ao fotógrafo de guerra, sempre me interessei por fotojornalismo, tenho uma série de livros de nomes famosos, como Marie Colvin, Don McCullin, Lynsey Addario, e foi neles que me baseei para criar a personagem do Stefan.
Os lobos são predadores. Quem são estes lobos do livro?
No livro, os lobos são na realidade os "predadores honrados", como lhes chama Arturo Pérez Reverte, porque matam para sobreviver, ao contrário do homem, que o faz com requintes de malvadez. Tem sido muito interessante ouvir os leitores dizerem que as passagens sobre o santuário de lobos são balsâmicas e reconfortantes. Esse espaço que deveria ser dos predadores por excelência acaba por ser aquele onde as pessoas, quando estão a ler o livro, respiram e se sentem em paz.
Foi pesquisar a vida destes animais?
Eu não tinha planeado escrever sobre lobos, mas, quando andava à procura de cenários para o livro, visitei o Centro de Recuperação do Lobo Ibérico, em Mafra, e fiquei tão deslumbrada com o Centro que me tornei voluntária. Aprendi tanto sobre os lobos que eles acabaram por se imiscuir no próprio enredo do romance.
O último livro, O Meu Pai Voava, era mais pessoal. Precisou de o escrever para lidar com a morte do seu pai?
Foi a minha forma de lidar com o luto, sobretudo na fase inicial, de total desmoronamento. Perdi as minhas referências, inclusive as minhas referências como pessoa. O meu pai tinha Alzheimer há muitos anos, portanto, há muito tempo que eu não podia contar com ele como pilar e conselheiro e, no entanto, quando ele morreu, senti-me órfã, uma criança desamparada, sem capacidade de lidar com o dia a dia. Sem conseguir sequer formular o que estava a sentir, sentei-me e fiz aquilo que faço sempre quando me sinto perdida: escrever. Foi através da escrita que consegui sair de uma espécie de gruta onde me sentia fechada, alheada de tudo, sem vontade sequer de lidar com pessoas, trabalho ou responder a emails. Não me apetecia usar a palavra para nada a não ser para escrever.
A escrita salvou-a?
Tirou-me do espaço escuro onde estava e ajudou-me a reconstruir-me e a voltar devagar para junto das pessoas, para a vida real que me estava a custar muito enfrentar. Continuo a ter este livro na minha secretária, é uma companhia quotidiana, e recebo muitas mensagens de leitores a partilharem as suas histórias e a sua relação com as minhas palavras. O Meu Pai Voava é uma homenagem ao meu pai, uma maneira de o manter vivo e de falar do luto.
Que papel tem a literatura no conhecimento do outro? Pode ajudar na comunicação e valorizá-la?
A literatura é cada vez mais importante nos dias que correm, porque assistimos a uma onda assustadora de censura e intolerância vinda de vários quadrantes, uma total incapacidade e vontade de ouvir os outros. Algo está a falhar quando vejo cada vez mais pessoas a apregoarem na comunicação social e nas redes sociais que não estão abertas ao diálogo. Tem de haver espaço e disponibilidade para ouvirmos opiniões diferentes das nossas. Não é calando-as ou fechando-lhes as portas que resolvemos os problemas. A literatura confronta-nos com outros pontos de vista. Saber comunicar é uma competência muito importante num mundo que está a fechar a porta ao diálogo e a impor discursos enviesados e unilaterais.
O bom senso perdeu terreno?
Falta bom senso, sim. As pessoas sentem uma urgência em pronunciarem-se de imediato sobre tudo, e muitas vezes não param para refletir, ponderar. Eu sinto necessidade, cada vez mais, de me recolher e remeter ao silêncio, enquanto todos falam e gritam nas redes sociais. E o silêncio não é forçosamente um sinal de cobardia, indiferença ou de falta de opinião; é no silêncio que melhor conseguimos pensar e escutar os outros. Se houvesse menos pressa em falar, talvez se evitassem muitas discussões acesas, muitas trocas de insultos e injúrias no espaço público.
"A literatura é cada vez mais importante nos dias que correm, porque assistimos a uma onda assustadora de censura e intolerância vinda de vários quadrantes, uma total incapacidade e vontade de ouvir os outros."
A leitura deveria assumir esse lugar de reflexão?
O hábito da leitura ajuda as pessoas a parar, refletir e interpretar, o que é crucial nos tempos em que vivemos. Estamos a ser bombardeados com informações, muitas vezes contraditórias. É fácil ir atrás de uma opinião, seguir a maré, a carneirada. Se não o contrariarmos, o algoritmo vai afunilando a nossa visão do mundo, e temos de resistir a essa tendência, quer reunindo pessoas de diferentes quadrantes nos nossos feeds de informação e redes sociais, quer variando as nossas leituras, incluindo as fontes aonde vamos buscar as notícias. Eu prefiro guardar as minhas opiniões e preocupações para os meus livros. Prefiro estar em silêncio e, depois, na escrita, depois de muita reflexão e leitura, criar personagens através das quais vou abordar os temas que me inquietam. Creio que muitos dos livros que traduzo também me ajudam a refletir sobre questões complexas e a contrariar os perigos da "narrativa única", como lhe chama a Chimamanda Adichie.
Traduziu nomes grandes da literatura: David Lodge, Ali Smith, Chimamanda Ngozi Adichie, a Nobel Annie Ernaux ou Dan Brown. Que exigência tem a tradução?
Quando traduzo, sinto uma responsabilidade redobrada, por estar a dar voz a um autor e precisar de pesar ainda mais cada palavra que uso. Quanto mais traduzo, mais sou exigente em relação ao meu trabalho. Noto que, devido à pressa, à urgência em publicar, há pouco brio na maneira como as pessoas escrevem, incluindo nos jornais. Todos os dias encontro gralhas no meu feed de notícias, traduções literais do inglês, artigos que se percebe que foram escritos pelo recurso à Inteligência Artificial (IA).
Com vê o uso da inteligência artificial na tradução?
Gostava de ser otimista, mas creio que a triste tendência será as editoras recorrerem cada vez mais à IA em detrimento da figura do tradutor, por uma questão de rapidez e lucro. Mais cedo ou mais tarde, o tradutor literário passará a ser apenas um revisor de traduções feitas na sua totalidade por IA e, num futuro talvez pouco distante, as editoras poderão até abdicar de tradutores e revisores. Espero que não cheguemos a esse ponto e que os leitores exijam traduções e textos cuidados, com um vocabulário rico. Se olharmos para as capas dos livros, muitas já são feitas por IA, e a verdade é que são todas iguais, não primam pela originalidade. Acontecerá o mesmo com a tradução e a escrita, se abdicarmos da criatividade humana. A IA é uma excelente ferramenta, desde que não nos esqueçamos da mão humana; é útil para fazer pesquisa e até para desbloquear quando estamos encalhados numa frase, mas não deve substituir as pessoas.
Mas assusta-a a possibilidade de a IA poder substituir um escritor
É assustador perceber que já há vários autores, especialmente na ficção jovem adulta, a escreverem livros à base de conteúdos criados por IA. Se os jovens só lerem textos feitos ou traduzidos por IA, textos que são mais pobres do ponto de vista linguístico, corremos o risco de criar toda uma geração de leitores que não se vai importar se uma tradução ou um texto forem pobres, com um vocabulário simplista e reduzido. É um esforço que todos nós, no meio editorial e em sentido mais lato, enquanto sociedade, devemos fazer: não ceder ao facilitismo.
Há um fenómeno de promoção da leitura nas redes sociais por jovens leitores. Que opinião tem sobre isso?
Não tenho TikTok, mas, de vez em quando, vejo vídeos para saber o que os jovens andam a partilhar quanto a leituras. Dá gosto constatar que a leitura perdeu o estigma que tinha há anos e que se tornou uma moda entre a juventude. Tenho pena é que nestes vídeos os jovens usem tantas palavras e expressões em inglês (cosy, relatable, smut, etc.). Por vezes, sente-se que lhes falta vocabulário em português, algo de que muitos professores se queixam: até nos testes os alunos escrevem meio em português, meio em inglês, ou seja, uma salgalhada.
"Se os jovens só lerem textos feitos ou traduzidos por IA, textos que são mais pobres do ponto de vista linguístico, corremos o risco de criar toda uma geração de leitores que não se vai importar se uma tradução ou um texto forem pobres, com um vocabulário simplista e reduzido."
Há um empobrecimento da língua?
O Marco Neves ainda há pouco tempo disse numa entrevista que a produção escrita dos jovens atuais é muito pobre, porque é feita por IA ou com base na IA. Os textos são todos iguais, não há rasgos de originalidade, não há melodia nas frases. Ultimamente, faço questão de introduzir uma ou outra palavra mais erudita ou invulgar nos meus romances e traduções, para contrariar o empobrecimento da língua portuguesa. Aprecio muito o esforço que a Joana Bértholo também faz nesse sentido, os romances dela levam-me sempre a pesquisar palavras no dicionário.
As estatísticas mostram que há mais jovens a ler.
Há mais jovens a ler, mas é importante termos noção do que andam a ler. Está na moda o género dark romance (mais uma expressão em inglês!), que explora temas como a violência nas relações de intimidade e a própria sexualidade juvenil de uma forma que me parece leviana e irresponsável. São romances que se destinam a um público adulto, já com a sua personalidade formada. Uma autora como a Penelope Douglas assume que se diverte a desconstruir tabus, o que não tem mal nenhum, quando os leitores são adultos. O problema é que livros como Crença estão a ser lidos por adolescentes. Estamos a falar de raparigas de 13, 14 anos que ainda não têm a sua personalidade formada, e muito menos experiência de vida que lhes permita discernir que o mundo real não é como o descrito na ficção e há comportamentos que são de risco. Como são histórias sobre adolescentes ou jovens, há um perigo acrescido de identificação com as personagens, algo que não acontece se uma adolescente ler as obras de Henry Miller, por exemplo, que não são para a sua idade, mas não vão desencadear processos de identificação com o protagonista. Há no dark romance uma normalização de comportamentos violentos que nunca devem ser normalizados. Quando vemos as estatísticas sobre a violência no namoro, não podemos deixar de nos inquietar. Existe certamente uma relação entre essa violência crescente e aquilo que os adolescentes andam a consumir nas redes sociais e a pornografia que lhes bate à porta cada vez mais cedo, por vezes, aos dez, onze anos. Se acrescentarmos a este cocktail pernicioso uma literatura que glamoriza a violência nas relações íntimas e banaliza a sexualidade, o resultado não pode ser bom.
"Há no dark romance uma normalização de comportamentos violentos que nunca devem ser normalizados. Quando vemos as estatísticas sobre a violência no namoro, não podemos deixar de nos inquietar."
O que é que gosta de fazer quando não está a ler, escrever ou traduzir?
Gosto de fazer desporto, seguindo a velha máxima de mente sã em corpo são. Para mim, o ginásio é o espaço onde somos obrigados a prestar atenção redobrada ao corpo e a desligarmos da torrente de informação e das tecnologias. Eu nado, faço musculação, aulas de ioga, depende um pouco do que me apetece. Precisamos mesmo de desligar os ecrãs. As pessoas já não sabem lidar com o tédio e o tédio, em especial para as crianças, é uma lição de vida. Portanto, entediem-se, façam desporto e desliguem os telemóveis umas horas por dia.