Nada Será como Dante | A literatura em voz alta

Por: Marisa Sousa a 2020-08-10

Filipa Leal

Filipa Leal

Filipa Leal nasceu no Porto, Portugal, em 1979.
Tem 15 livros publicados (desde 2004), entre os quais A Cidade Líquida e O Problema de Ser Norte, ou Vem à Quinta-feira (já na 5.ª edição) e Fósforos e Metal sobre Imitação de Ser Humano, ambos finalistas do Prémio Correntes d’Escritas e semifinalistas do Prémio Oceanos. Está editada em Espanha e no Brasil (com o livro A Cidade Líquida); na Colômbia (com a antologia En los días tristes no se habla de aves); em França (com a plaquete La Ville Oubliée); na Polónia (com o livro Zapalki i metal na imitacji materii ludzkiej) e no Luxemburgo (Vale Formoso, edição bilingue francês-português).
Formada em Jornalismo pela Universidade de Westminter (Londres), é Mestre em Estudos Portugueses e Brasileiros pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Está representada em várias antologias em Portugal e no estrangeiro (Venezuela, México, Bulgária, Grécia, Países Baixos ou Eslovénia). Em 2010, teve um dos seus poemas exposto no Metro de Varsóvia, na iniciativa «Poems on the Underground». Em 2012 e 2014, representou Portugal em encontros literários na Alemanha – no Festival de Poesia de Berlim 2012, e na Conferência dos Escritores Europeus 2014/Long Night of European Literature, no âmbito da qual fez uma leitura dos seus poemas no Deutsches Theater. Em 2016, o seu poema «Hoje, também os carros dançam» integrou uma instalação sonora europeia na British Library, em Londres; e, em 2023, o poema «Quanto tempo para o intervalo» esteve exposto na Polónia na iniciativa «Poems in the City». Tem integrado alguns júris internacionais: fez parte do Júri do Prémio de Literatura Oceanos (2018) e do Júri do Prémio de Jornalismo Gabriel García Márquez (Colômbia, 2019). Poeta, jornalista e argumentista (destaque para o guião do filme Jogo de Damas, com a realizadora Patrícia Sequeira – Prémio de Melhor Guião nos Festivais de Cinema do Chipre e de Copenhaga; e para a série Mulheres Assim, na RTP1). Acaba de publicar o livro de poemas Adrenalina, assinalando os seus 20 anos de poesia.

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“Isto podia ser um talk show, mas tinha muito menos imaginação.” Teresa Paixão, diretora da RTP2, não queria um programa sobre livros; queria um programa de leitura, de texto, queria que se lesse na televisão: “Era a única coisa que eu queria — era que se ouvisse ler, que se visse gente a ler.” O título, sugestão da Filipa Leal (que conduz o programa, juntamente com Pedro Lamares), veio marcar a diferença em relação ao seu antecessor, o Literatura Aqui (vencedor do Prémio para Melhor Programa de Entretenimento, atribuído pela SPA, em 2017). Às terças-feiras à noite, a literatura anda à solta na RTP2, nas bocas de quem a sabe de cor. Porque Nada Será Como Dante


“A ideia não é, necessariamente, informar, nem estarmos colados à atualidade e às novidades — para isso, há outros programas. A ideia é divulgar a literatura, partindo do interior do livro, da obra. Ou seja: lendo-o em voz alta”, explica Filipa Leal. O objetivo último é despertar o interesse dos espetadores e levá-los a querer saber mais. O programa, que está no ar desde setembro de 2019, está dividido em três partes, como na Divina Comédia, de Dante: Inferno, Purgatório e Paraíso (não necessariamente por esta ordem). A partir daqui, foram criadas diversas rubricas inéditas: Livros Não Editados em Portugal (com seleção e tradução do poeta Vasco Gato); Literatura em Viagem; As Palavras que Mudaram o Mundo, entre outras. No Purgatório, há sempre um frente a frente entre dois criadores e pensadores, num diálogo sem interferência dos jornalistas. “Pretende-se um programa dinâmico e aberto a todos, não apenas a alguns já amantes de literatura. Estamos conscientes de que nada será, efetivamente, como Dante, Camões, Shakespeare ou Cervantes. Mas de que devemos continuar”, assegura Filipa. E nem a pandemia parou a literatura. Filipa esclarece que a equipa continuou a gravar o programa, com todos os cuidados, apesar das dificuldades: “Remetendo para o grande José Mário Branco, homenageado num dos episódios: a literatura não meteu 'o barco ao mar para ficar pelo caminho'”.

 

 

Apesar de ser de palavras que falamos, é inevitável falar em números. Teresa Paixão, que em 2018 confessava que tinham "esta coisa maravilhosa no ar e pouca gente quer ver.” (Público), referindo-se à RTP2, assume que as audiências ainda a “frustram imenso", mas ainda assim, o balanço tem sido positivo. Na RTP há trinta e quatro anos, e já com muitos programas no currículo, confessa: “Vi muitas equipas facilitarem, fartarem-se e começarem a fazer as coisas com indiferença, (…) aqui ocorre o inverso, de cada vez que me sento a ver em casa, vejo coisas mais bem feitas, mais interessantes, mais suaves, mais assertivas.”

 

"Estamos conscientes de que nada será, efetivamente, como Dante, Camões, Shakespeare ou Cervantes. Mas que devemos continuar.”  – Filipa Leal

 

“No mundo da televisão, fazer este programa é andar pelo paraíso (ainda para mais com a vantagem de poder incluir nele o Inferno e o Purgatório).” É desta forma que a coordenadora editorial do programa, Marisa Feio (da produtora Até ao Fim do Mundo), descreve o projeto. Destaca aquela que considera ser uma das maiores novidades do formato, quando comparado com o seu antecessor (Literatura Aqui), e que demonstra a inexistência de fronteiras na literatura: a rubrica Livros Não Editados em Portugal, que dá a conhecer textos de autores estrangeiros, escolhidos e traduzidos pelo poeta Vasco Gato, exclusivamente para o programa. Confessa que, graças ao programa, tem conhecido um “largo mundo de textos, de novos sentidos e entendimentos” e que, por diversas vezes, adormeceu com as palavras a desarrumarem-na por dentro.

 

 

O programa Nada Será Como Dante é emitido à terça-feira, às 23:00h, na RTP2. Depois da pausa durante os meses de julho e agosto, a terceira série começará a ser emitida a partir do dia 15 de setembro. Todos os episódios do programa estão disponíveis para visualização na RTP PLAY.

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