Há endereços que só existem no papel e, mesmo assim, toda a gente sabe onde ficam. É o caso de 221B em Baker Street: durante mais de um século, leitores de todo o mundo enviaram cartas para esse endereço, dirigidas a um detetive fictício, para que os ajudasse a resolver casos bem reais. Poucos foram os personagens da literatura que conseguiram este feito.
Sherlock Holmes nasceu da pena de Arthur Conan Doyle, em 1887, nas páginas daquela que seria a sua primeira aventura, Um Estudo de Vermelho. O autor admitiu ter baseado a sua personagem em Joseph Bell, um professor de medicina na Universidade de Edimburgo, conhecido pela sua capacidade de observação e dedução. Nasce, assim, o detetive mais famoso do mundo e, consigo, uma nova Londres que, embora muito reconstruída através do seu imaginário, perfeitamente possível de descobrir.
A propósito do 167.º aniversário do nascimento de Arthur Conan Doyle, embarcamos numa viagem pelos locais reais que inspiraram o detetive mais famoso do mundo. Entre connosco nesta aventura!
Ponto de partida | 221B Baker Street - Londres
O ponto de partida obrigatório é, naturalmente, Baker Street. O endereço fictício foi inscrito num edifício real: o Sherlock Holmes Museum, no número 221 da rua. O museu recria fielmente o apartamento que Holmes dividia com o Dr. Watson, com tudo a que os leitores estão habituados: o violino, os instrumentos de laboratório, o casaco pendurado junto à lareira…. É uma visita que tem algo de surreal e belo; é o momento em que o leitor entra, finalmente, na história.
Sherlock Holmes Pub | Northumberland Street, n.º 10 - Londres
A poucos metros de Trafalgar Square, em Northumberland street, encontramos o Sherlock Holmes Pub, uma paragem quase obrigatória no final de um dia de passeio. O interior revela uma réplica ao detalhe da sala de estar de Holmes e Watson, conservada atrás de um vídeo, tal e qual uma obra num museu. O menu é temático, a decoração é cheia de referências e a clássica atmosfera de um pub inglês clássico: o local perfeito para uma cerveja e uma conversa sobre o caso do dia.
St. Bartholomew’s Hospital | West Smithfield - Londres
No hospital de São Bartolomeu, o mais antigo de Londres ainda em funcionamento, há um lugar especial na mitologia de Holmes: foi num dos seus laboratórios de química que Sherlock Holmes e o Dr. Watson se encontraram pela primeira vez, segundo descrito nas páginas de Um Estudo de Vemelho. Uma placa, real, na parede do edifício marca o encontro, fictício, tratando-a como uma efeméride histórica o que, de certa forma, até é.
Royal Opera House | Bow Street, Convent Garden – Londres
Conan Doyle escreveu Holmes como um homem de contradições fascinantes: ora capaz de passar dias sem comer, para resolver um caso, como interromperia tudo o que estava a fazer para ir à ópera. E, um dos seus locais de eleição era a Royal Opera House, em Convent Garden. Embora não seja necessário entrar para sentir o espírito do local (basta passar pela fachada ao final do dia), se puder entrar, faça-o.
Conan Doyle e Portugal: uma ligação improvável
Artur Conan Doyle, autor de um dos mais racionais detetives, foi também um dos grandes defensores do espiritismo no início do século XX. E foi precisamente por isso, que chegou a Portugal.
Nos seus últimos anos de vida, Doyle manteve a correspondência com a Revista de Espiritismo portuguesa, publicando uma carta traduzida na edição de maio/junho de 1928, em que refletia sobre o valor do movimento espiritualista. Mas os laços com Portugal eram anteriores: três das suas irmãs, vieram trabalhar como governantes, em Lisboa, e o próprio passou pela Madeira em 1881, como médico, a bordo de um navio, numa viagem à costa ocidental de África.
Em 1909, já como escritor célebre, visita Lisboa, Sintra e Cascais, a bordo do RMS Dunottar Castle, reportada pel’ O Século. Em 1929, nas suas memórias de viagem Our African Winter, descreve a Madeira como uma das paisagens mais impressionantes que havia conhecido.
A ligação mais surpreendente ao nosso país ficou, porém, para a geração seguinte: o seu filho, Adrian Conan Doyle, viveu em Sintra entre 1955 e 1965, na Quinta da Bellavista, local onde armazenava o espólio do seu pai.
Foi ainda em Portugal que, em 1959, no centenário do nascimento de Artur Conan Doyle, a Bertrand publicou Sir Arthur Conan Doyle – Centenary 1859 – 1959, editado pelo seu próprio filho, Adrian, contando com apenas 100 exemplares. Um livro muito raro, possivelmente todo ele editado na quinta de Sintra, para celebrar aquele que inventou o detetive mais famoso do mundo.