Enfrentar o medo com elegância poética

Por: Marisa Sousa a 2020-08-04

Lawrence Ferlinghetti

Lawrence Ferlinghetti

Lawrence Ferlinghetti (1919-2021), patrono anarquista dos poetas norte-americanos, tornou-se pacifista depois de testemunhar a destruição de Nagasáqui – um ativismo que cultivaria toda a vida. Em 1953, fundou a Livraria City Lights, em São Francisco, palco da contracultura beat e de leituras acompanhadas de jazz e álcool noite dentro, onde Kerouac e Burroughs marcaram presença. É autor de mais de quarenta obras, nas quais se destacam Uma Coney Island da Mente (1958) e Pictures of the Gone World (1955). Quis libertar a poesia do mofo da academia, dar voz a autores necessários e afirmava: «Não me dei conta de que era poeta, dei-me conta de que tinha algo a dizer.»

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José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça é poeta, sacerdote e professor. Nasceu na ilha da Madeira. Estudou Ciências Bíblicas em Roma e vive no Vaticano desde 2018, onde foi responsável pela Biblioteca Apostólica e pelo Arquivo Secreto do Vaticano e é atualmente Prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação. Em 2019, foi elevado a Cardeal pelo Papa Francisco. Para José Tolentino Mendonça, «a poesia é a arte de resistir ao seu tempo». Os seus livros têm sido distinguidos com vários prémios, entre eles o Prémio Cidade de Lisboa de Poesia (1998), o Prémio PEN Clube de Ensaio (2005), o italiano Res Magnae, para obras ensaísticas (2015), o Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes APE (2015), o Grande Prémio APE de Crónica (2016), prestigiado Prémio Capri-San Michele (2017), o Prémio D. Diniz (2022), Francisco de Sá de Miranda (2022), Prémio Pessoa (2023) e o Prémio Eduardo Lourenço (2025).

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José Jorge Letria

José Jorge Letria

José Jorge Letria é ficcionista, jornalista, poeta, dramaturgo. Nasceu em Cascais, em 1951, onde foi vereador da Cultura de 1994 a 2002. Traduzido em mais de dez idiomas, foi premiado em Portugal e no estrangeiro: destacam-se dois Grandes Prémios da APE, o Prémio Aula de Poesia de Barcelona, o Prémio Internacional UNESCO, o Prémio Eça de Queiroz – Município de Lisboa, o Prémio da Associação Paulista de Críticos de Arte e o Prémio de Poesia Guerra Junqueiro. As antologias "O Fantasma da Obra", "O Livro Branco da Melancolia" e "Poesia Escolhida" condensam o essencial da sua poesia. Foi, ao lado de José Afonso e Adriano Correia de Oliveira, um destacado cantor político, tendo sido agraciado, em 1997, com a Ordem da Liberdade. É mestre em Estudos da Paz e da Guerra nas Novas Relações Internacionais pela Universidade Autónoma de Lisboa e pós-graduado em Jornalismo Internacional. Doutorou-se com distinção em Ciências da Comunicação no ISCTE. É presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, presidiu ao Grupo Europeu de Sociedades de Autores e Compositores (GESAC), com sede em Bruxelas, e ao Comité Europeu de Sociedades de Autores da Confederação Internacional de Sociedades de Autores e Compositores, com sede em Paris.

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Jorge de Sena

Jorge de Sena

Jorge de Sena nasceu em Lisboa a 2 de novembro de 1919 e morreu em Santa Bárbara, na Califórnia, a 4 de junho de 1978. Licenciado em Engenharia Civil pela Faculdade de Engenharia do Porto, parte para o exílio no Brasil em 1959 e aí doutora-se em Letras e torna-se regente das cadeiras de Teoria da Literatura e de Literatura Portuguesa. Muda-se para os Estados Unidos da América em 1965, lecionando na Universidade de Wisconsin e, anos depois, na Universidade da Califórnia. Poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta e tradutor, é considerado um dos mais relevantes escritores de língua portuguesa do século XX, autor de títulos como Metamorfoses (1963), Os Grão-Capitães (1976), O Físico Prodigioso (1977) e Sinais de Fogo (1979), este último considerado a sua obra-prima.

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Filipa Leal

Filipa Leal

Filipa Leal nasceu no Porto, Portugal, em 1979.
Tem 15 livros publicados (desde 2004), entre os quais A Cidade Líquida e O Problema de Ser Norte, ou Vem à Quinta-feira (já na 5.ª edição) e Fósforos e Metal sobre Imitação de Ser Humano, ambos finalistas do Prémio Correntes d’Escritas e semifinalistas do Prémio Oceanos. Está editada em Espanha e no Brasil (com o livro A Cidade Líquida); na Colômbia (com a antologia En los días tristes no se habla de aves); em França (com a plaquete La Ville Oubliée); na Polónia (com o livro Zapalki i metal na imitacji materii ludzkiej) e no Luxemburgo (Vale Formoso, edição bilingue francês-português).
Formada em Jornalismo pela Universidade de Westminter (Londres), é Mestre em Estudos Portugueses e Brasileiros pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Está representada em várias antologias em Portugal e no estrangeiro (Venezuela, México, Bulgária, Grécia, Países Baixos ou Eslovénia). Em 2010, teve um dos seus poemas exposto no Metro de Varsóvia, na iniciativa «Poems on the Underground». Em 2012 e 2014, representou Portugal em encontros literários na Alemanha – no Festival de Poesia de Berlim 2012, e na Conferência dos Escritores Europeus 2014/Long Night of European Literature, no âmbito da qual fez uma leitura dos seus poemas no Deutsches Theater. Em 2016, o seu poema «Hoje, também os carros dançam» integrou uma instalação sonora europeia na British Library, em Londres; e, em 2023, o poema «Quanto tempo para o intervalo» esteve exposto na Polónia na iniciativa «Poems in the City». Tem integrado alguns júris internacionais: fez parte do Júri do Prémio de Literatura Oceanos (2018) e do Júri do Prémio de Jornalismo Gabriel García Márquez (Colômbia, 2019). Poeta, jornalista e argumentista (destaque para o guião do filme Jogo de Damas, com a realizadora Patrícia Sequeira – Prémio de Melhor Guião nos Festivais de Cinema do Chipre e de Copenhaga; e para a série Mulheres Assim, na RTP1). Acaba de publicar o livro de poemas Adrenalina, assinalando os seus 20 anos de poesia.

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Manuel Alegre

Manuel Alegre

Manuel Alegre nasceu a 12 de maio de 1936, em Águeda. Estudou em Lisboa, no Porto e na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Foi campeão de natação e ator do Teatro Universitário de Coimbra (TEUC).
Em 1961 é mobilizado para Angola. Preso pela PIDE, passa seis meses na Fortaleza de S. Paulo, em Luanda, onde escreve grande parte dos poemas do seu primeiro livro, Praça da Canção. Em outubro de 1964 é eleito membro do comité nacional da Frente Patriótica de Libertação Nacional e passa a trabalhar em Argel, na emissora Voz da Liberdade. Regressa a Portugal após o 25 de Abril de 1974.
Dirigente histórico do Partido Socialista desde 1974, foi vice-presidente da Assembleia da República, de 1995 a 2009, e membro do Conselho de Estado.
A sua vasta obra literária, que inclui o romance, o conto, o ensaio, mas sobretudo a poesia, tem sido amplamente difundida e aclamada. Foram-lhe atribuídos os mais distintos prémios literários: Grande Prémio de Poesia da APE-CTT, Prémio da Crítica Literária da AICL, Prémio Fernando Namora e Prémio Pessoa, em 1999. Ao seu livro de poemas Doze Naus foi atribuído o Prémio D. Dinis. Em 2014, recebeu o Prémio Amália da Fundação Amália Rodrigues e, em 2016, o Prémio Vida Literária da APE e o Prémio de Consagração de Carreira da SPA. No mesmo ano, foi atribuído o Grande Prémio de Literatura dst ao seu livro de poemas Bairro Ocidental. Em 2017, foi distinguido com o Prémio Camões e, em 2019, com o Prémio Vida e Obra da SPA. Em 2021, quando recebeu o Prémio Nacional de Poesia António Ramos Rosa. Memórias Minhas recebeu o Grande Prémio de Literatura Biográfica Miguel Torga APE/CM de Coimbra.

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Escrever o desejo: vozes LGBT na literatura portuguesa

Em diferentes momentos históricos, a literatura serviu de lugar para desafiar os limites do dizível, através de autores que trouxeram para a escrita experiências afetivas e identitárias que durante muito tempo foram marginalizadas ou reprimidas. Para assinalar o Mês do Orgulho LGBT, destacamos cinco figuras pioneiras da literatura portuguesa.

Dia Internacional da Saúde Feminina: Lisa Vicente desmistifica o vaginismo

O dia 28 de maio marca anualmente uma data muito importante: o Dia Internacional da Saúde Feminina. Instituído em 1987, visa relevar esta área da saúde historicamente negligenciada e suprimida, combater a discriminação no acesso a cuidados e sensibilizar para os direitos sexuais e reprodutivos. Para celebrar este dia, convidámos Lisa Vicente, ginecologista, especialista em medicina sexual, e autora de A Revolução da Menopausa e do recentemente reeditado O Atlas da V, para nos explicar tudo sobre o vaginismo — uma das condições mais incompreendidas e envoltas em obscurantismo, apesar do seu enorme impacto nas vidas de quem a experienciam. 

De Baker Street a Sintra: O roteiro literário de Sherlock Holmes

Há endereços que só existem no papel e, mesmo assim, toda a gente sabe onde ficam. É o caso de 221B em Baker Street: durante mais de um século, leitores de todo o mundo enviaram cartas para esse endereço, dirigidas a um detetive fictício, para que os ajudasse a resolver casos bem reais. Poucos foram os personagens da literatura que conseguiram este feito.

Numa entrevista ao Correio Braziliense, em abril, Mia Couto, biólogo e poeta moçambicano, quando questionado sobre o espaço da poesia em tempos de incerteza e sobre se o medo poderia ser enfrentado com 'elegância poética', afirmou que a poesia poderia ser boa aliada em tempos de pandemia, acrescentando que, se esta ”constituir uma visão alternativa do mundo, e não apenas uma forma de arte, então ela terá poderes para enfrentar este mundo”. “Às vezes, tudo o que resta é a palavra”, concluiu. E foi com palavras e poesia que muitos quiseram vestir os dias em que, confinados, assistiam ao medo e à morte a fazerem manchetes nas televisões — a fazer lembrar os seres descritos por Platão, na sua alegoria da caverna, que vislumbravam apenas uma ténue sombra da realidade projetada nas suas paredes. Foi a alimentar os sonhos a poesia (“Ó subalimentados do sonho! A poesia é para comer.”, Natália Correia) que muitas esperas se tornaram suportáveis porque, acreditamos, tal como Juan Ramón Jimenez, que “A poesia, como deus, como o amor, é só fé.”


“LISBOA DE PESSOA ALEGRE E TRISTE / E EM CASA RUA DESERTA / AINDA RESISTE”

 

A 18 de março de 2020 foi declarado, em Portugal, o estado de emergência. Três dias depois, a 21 de março, o Dia Mundial da Poesia era celebrado de forma bem diferente do que aconteceu em anos anteriores. Para assinalar a data, o poeta Manuel Alegre partilhou, na sua página no facebook, um poema dedicado a Lisboa “com praças cheias de ninguém”, que a cidade “ainda é Lisboa de Pessoa alegre e triste” e, que apesar de tudo, “ainda resiste”. O poeta José Jorge Letria também assinalou a data, divulgando um poema inédito que conta que: “Esta ausência não foi por nós pedida / este silêncio não é da nossa lavra / já nem Pessoa conversa com Pessoa / com o feitiço sempre imenso da palavra.”

 

 

UM VÍRUS “ENTRE NÓS E AS PALAVRAS”

 

Depois de encerradas as portas do Pinguim Café, a mais famosa e antiga tertúlia de poesia do Porto foi transmitida em live streaming. Os responsáveis pelas tertúlias afirmaram não permitir que o vírus se interpusesse entre eles e as palavras e desafiaram as pessoas a encherem a cave virtual com a partilha de poemas e canções. “As noites nunca têm uma temática, correm livres e ao sabor da inspiração e das vontades dos participantes. Assim será também esta noite”, garantiu Rui Spranger antes da realização da primeira sessão virtual. Entre os poemas e excertos que se afiguravam como pertinentes, Spranger destacou, entre outros, um d’Carta a Meus Filhos Sobre os Fuzilamentos de Goya, de Jorge de Sena, que diz a certa altura “Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém / vale mais que uma vida ou a alegria tê-la. / É isto o que mais importa — essa alegria.” e a última frase de A Invenção do Dia Claro, de Almada Negreiros: “Só faltava uma coisa, salvar a humanidade”. (Visão)

 

Sessão Pinguim - Poesia em casa

“HAVEMOS DE IR AO FUTURO”

A 12 de abril, as ruas desertas do Bonfim, no Porto, erguiam a esperança e as promessas de futuro, usando a poesia da Filipa Leal.

“(…) Havemos de ir juntos ao futuro / ou se não houver boleia para todos ao mesmo tempo / havemos de nos encontrar lá./ Havemos de ir juntos ao futuro e no futuro estará finalmente tudo como dantes” (in Vem à Quinta-Feira, Assírio & Alvim).

 

“O PORTO EMBALADO PELO CANTO DAS SUAS JANELAS”

 

20 de abril. Um poema escrito à janela cresceu e fez-se ponte entre duas desconhecidas (Público). Rossana Ribeiro, num “acto de desespero”, colou na janela do seu 3.ª andar, no centro do Porto, a mensagem: “Olá, como estás?”. Uma das respostas que recebeu foi a de Ana Neiva, que na janela do seu 1.º andar afixou a mensagem: “Olá, vai ficar tudo bem. Vizinhos top.” Rapidamente o diálogo tomou forma e o desafio nasceu: “Fazemos um poema?”. Nascia assim, a quatro mãos, um poema escrito por duas desconhecidas. “O Porto adormeceu / Embalado pelo canto das suas janelas” foram os primeiros versos e muitos se seguiram daí para a frente. A métrica e o ritmo pouca importância têm quando a poesia, tal como disse Ferlinghetti, é “a distância mais curta entre duas pessoas”.

 

Bonfim. Porto, Abril 2020.

 

E É TAMBÉM À JANELA QUE SE COMEMORA A LIBERDADE

 

Sem possibilidade de realizar as tradicionais comemorações do 25 de abril nas ruas, como é hábito, e em pleno estado de emergência e com algumas das liberdades restringidas, a celebração da liberdade ganhou uma pertinência relevada. Um pouco por todo o país, as vozes saíram às janelas e varandas para entoar Grândola, Vila Morena. Em Vila Franca de Xira, um grupo de moradores juntou-se para ler os poemas da liberdade aos portugueses confi nados em casa. Na Covilhã, a Câmara Municipal lançou a iniciativa “Poetas da Liberdade”, partilhando diariamente poemas alusivos à Revolução dos Cravos e à liberdade, da autoria de Manuel Alegre, Sophia de Mello Breyner Andresen, José Jorge Letria, Zeca Afonso e José Carlos Ary dos Santos.

 

© Sic Notícias

 

PARA ESPANTAR A MORTE…

 

Clube dos Poetas Vivos
No início do confinamento, rapidamente nos começámos a aperceber de que tudo passava a acontecer online. O difícil começou a ser, a partir de determinado momento, escolher entre a torrente de acontecimentos que, à falta de ruas e palcos, de esplanadas e teatros, de restaurante e cinemas, passaram a estar ali tão perto, na palma da nossa mão. O ser humano, entre outras coisas, tem a incrível capacidade de rapidamente se adaptar às circunstâncias. O Clube dos Poetas Vivos, iniciativa realizada em parceria pelo Teatro Nacional D. Maria II e pela Casa Fernando Pessoa desde 2016, não parou. Os encontros, em torno dos poetas e das suas palavras, passaram a acontecer semanalmente online. “Bem queríamos que este fosse um clube secreto, uma sociedade clandestina em que a poesia fosse a única lei e a sua partilha a grande liberdade. Mas não foi assim que aconteceu. O segredo passou de boca em boca e os sócios já ultrapassam a centena. Uma fantástica fuga de informação que nos fez repensar as coisas: fim ao secretismo. Multipliquemo-nos, sejamos muitos em redor do poeta que se juntar a nós. Passe a palavra.”, pode ler-se no site. As sessões realizadas durante o confi namento estão disponíveis no canal do Youtube do Teatro D. Maria II.

 

 

"SEM DIAS DE SOLIDÃO"

Há já quase dezanove anos que o Teatro do Campo Alegre, no Porto, vê a sua lotação esgotada, mensalmente: a culpa é das Quintas de Leitura. O ciclo literário acabou também por ser suspenso, tendo regressado dia 21 de maio, para uma sessão especial online, realizada através da página de Facebook do Teatro Municipal do Porto. A emissão “Sem dias de Solidão” foi especialmente dedicada ”à poesia, à liberdade, ao amor e ao futuro”, conforme esclareceu o TMP em comunicado de imprensa. Estes valores, que ganham especial relevância em momentos de medo e incerteza, foram celebrados sob a forma de poemas de Mário Cesariny, Manuel António Pina, Afonso Cruz, José Luís Peixoto, Pablo Neruda, Tristan Tzara e Rolf Jacobsen.

 

 

“CAMÕES DESCONFINOU PORTUGAL”

 

E porque é de poesia que falamos, não podíamos deixar passar em claro o brilhante discurso proferido dia 10 de junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, pelo Cardeal (e poeta) D. José Tolentino de Mendonça. Sem considerações adicionais, porque as suas palavras bastam, recordemos um excerto:

“Pensemos no contributo de Camões. Camões não nos deu só o poema. Se quisermos ser precisos, Camões deixou-nos em herança a poesia. Se, à distância destes quase quinhentos anos, continuamos a evocar coletivamente o seu nome, não é apenas porque nos ofereceu, em concreto, o mais extraordinário mapa mental do Portugal do seu tempo, mas também porque iniciou um inteiro povo nessa inultrapassável ciência de navegação interior que é a poesia. A poesia é um guia náutico perpétuo; é um tratado de marinhagem para a experiência oceânica que fazemos da vida; é uma cosmografia da alma. Isso explica, por exemplo, que Os Lusíadas sejam, ao mesmo tempo, um livro que nos leva por mar até à Índia, mas que nos conduz por terra ainda mais longe: conduz-nos a nós próprios; conduz-nos, com uma lucidez veemente, a representações que nos definem como indivíduos e como nação; faz-nos aportar — e esse é o prodígio da grande literatura — àquela consciência última de nós mesmos, ao quinhão daquelas perguntas fundamentais de cujo confronto um ser humano sobre a terra não se pode isentar.

 

O cardeal José Tolentino Mendonça durante o discurso na cerimónia do 10 de Junho de 2020. © Presidência da República

 

Se é verdade, como escreveu Wittgenstein, que «os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo», Camões desconfinou Portugal. A quem tivesse dúvidas sobre o papel central da cultura, das artes ou do pensamento na construção de um país bastaria recordar isso. Camões desconfinou Portugal no século XVI e continua a ser para a nossa época um preclaro mestre da arte do desconfinamento. Porque desconfinar não é simplesmente voltar a ocupar o espaço comunitário, mas é poder, sim, habitá-lo plenamente; poder modelá-lo de forma criativa, com forças e intensidades novas, como um exercício deliberado e comprometido de cidadania. Desconfinar é sentir-se protagonista e participante de um projeto mais amplo e em construção, que a todos diz respeito. É não se conformar com os limites da linguagem, das ideias, dos modelos e do próprio tempo. Numa estação de tetos baixos, Camões é uma inspiração para ousar sonhos grandes. E isso é tanto mais decisivo numa época que não apenas nos confronta com múltiplas mudanças, mas sobretudo nos coloca no interior turbulento de umamudança de época.”

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