“(…) A Filipa gosta muito dos intelectuais mas não tem paciência para os aturar. Sabe muitas coisas e leu muitos livros, mas está mortinha por se esquecer dos livros todos, beber um fino e celebrar que sabe tantas coisas porque olhou para os lírios, amou ao lado e errou em frente. Acha sempre que vai enlouquecer. E provavelmente vai. Se a Filipa não fosse poeta, não seria controladora aérea para não se imiscuir na liberdade das andorinhas. A Filipa gosta pouco de se meter na vida dos outros mas tem a mania de reparar no que as pessoas não dizem. A poesia da Filipa sabe mais do que a Filipa.
A poesia da Filipa é um bocadinho perigosa.
A poesia da Filipa não sabe se devemos rir ou chorar com ela. A poesia da Filipa tem a mania de falar da nossa vida a fazer de conta que está a falar do sujeito poético. A Filipa sabe que essa coisa do sujeito poético é uma tanga, mas a poesia dela faz de conta que ainda não percebeu. A poesia da Filipa é um palhaço que sofre de violência doméstica.
A Filipa foi educada na foz e em Inglaterra, mas a poesia da Filipa foi educada na vida real. A Filipa não gosta de escrever “caralho” nos poemas, mas a poesia da Filipa tem a mania de nos obrigar a a respirar fundo e dizer: “caralho!”
O sujeito poético é uma grande tanga.
A prosa da Filipa.
Não há grande coisa a dizer sobre a prosa da Filipa. A Filipa não escreve romances. Gosta mais de pieguices. A Filipa só escreve poesia, teatro, cinema e manifestos. A Filipa acha que a poesia também é literatura. A poesia da Filipa, felizmente, sabe o que toda a gente sabe: que os poetas não servem para nada.”
Pedro Lamares, outubro 2015