Domingos Abrantes - Quem está hoje no poder? Os do Verão Quente de 1975

Por: Anabela Mota Ribeiro a 2025-07-11

Anabela Mota Ribeiro

Anabela Mota Ribeiro

Anabela Mota Ribeiro nasceu em 1971 em Trás-os-Montes. Vive e trabalha em Lisboa. Fez a licenciatura e o mestrado em Filosofia na Universidade Nova de Lisboa. No doutoramento, que frequenta, prossegue o estudo do escritor brasileiro Machado de Assis. Foi visiting research fellow da Brown University em 2019. Publicou os livros O Sonho de Um Curioso (2003), Este Ser e não Ser. Cinco Conversas com Maria de Sousa (2016), Paula Rego por Paula Rego (2016), A Flor Amarela. Ímpeto e Melancolia em Machado de Assis (2017), Por Saramago (2018) e Os Filhos da Madrugada (2021 e 2022). Jornalista freelance, colaborou com diversos jornais e revistas, e trabalhou na rádio. É autora e apresentadora de programas de televisão, sendo os mais recentes Os Filhos da Madrugada (2021 e 2022, RTP3) e Calendário do Advento (2022, RTP3). Enquanto programadora cultural, colabora com instituições de referência. Entre outros projetos, assinou, com José Eduardo Agualusa, a curadoria da Feira do Livro do Porto em 2017, 2018 e 2020. É membro do Conselho Geral da Universidade de Coimbra. O Quarto do Bebé é o seu primeiro romance.

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Domingos Abrantes nasceu em 1936. É funcionário do Partido Comunista desde 1954. Foi resistente antifascista, esteve, no total, 11 anos preso, viveu na clandestinidade. Regressou a Portugal no 25 de Abril, com Conceição Matos, sua mulher, no mesmo avião que trouxe Álvaro Cunhal. Nesta entrevista, fala-se de revolução e contrarrevolução, datas marcantes, protagonistas da história. Viveu-a de perto e participou nela.


Quando é que começou o Verão Quente?

O 25 de Abril esteve quase a morrer no 25 de Abril. O MFA cometeu o erro monumental de entregar o poder aos generais. Alguns eram fascistas — a começar por Spínola, que não queria o Portugal de Abril. O Verão Quente começou quando Spínola [presidente da Junta de Salvação Nacional] sonhou que conseguia manter as colónias, as estruturas do Estado fascista e a marginalização do PCP. É um termo que se pode prestar a confusões. Um jornalista usou outro mais exato: Portugal a arder. O grande problema é a rede bombista, o aparecimento da contrarrevolução de forma organizada, assente em partidos políticos, organizações secretas, com o apoio da CIA. Não é um improviso.


As imagens dos primeiros tempos são de euforia, alegria, celebração. Mas fala de uma força contrária, que existe desde o começo, ou seja, Portugal começou a arder a 25 de Abril de 74?

Exatamente. Isto não são suposições, há documentos. O inverno de hoje começou no 25 de Abril. Quem está no poder? Os do Verão Quente de 1975. Pacheco de Amorim, vice-presidente da Assembleia, foi um dos mentores do MDLP [Movimento Democrático de Libertação de Portugal, movimento armado suspeito de ter provocado centenas de ataques bombistas]. Portanto, [a vitória da direita nas últimas eleições] não caiu do céu aos trambolhões. Os spinolistas sofreram derrotas atrás de derrotas. A primeira: o MFA não aceitar autodissolver-se. Tinham perdido a PIDE, os presos políticos foram libertados. Spínola não queria o 1.º de Maio. E tinha razão em não querer: é o 1.º de Maio que marca a mudança. Porque estão milhões de pessoas na rua. O povo foi fazendo, na rua, a revolução.


O espaço de ação e de vida deixou de ser a casa, o silêncio. Passou a ser a rua, o encontro, a voz.

O papel das massas foi decisivo. A lei das manifestações só surge meses depois de centenas de manifestações. Vivemos um momento de revisão histórica. Há um ditado que adapta uma fábula do Esopo: enquanto os animais não tiverem historiadores, as crónicas da caça exaltarão os caçadores. A história está a ser refeita pelos vencedores da contrarrevolução. Não é por acaso que o 25 de Novembro é apresentado como o triunfo da democracia. A grande vitória da democracia foi o 11 de Março, que derrotou uma tentativa de golpe de Estado fascista. Se o 11 de Março tivesse triunfado, não seria preciso o Verão Quente.


Também houve ataques bombistas perpetrados por forças de esquerda, nomeadamente pelas Brigadas Revolucionárias.

Não tiveram a mesma natureza nem dimensão, embora tivessem contribuído para causar confusão e dado pasto à reação.


Então, a revolução é um processo.

Sim, no qual se vão fazendo diferenciações. Vamos por partes. A 30 de abril de 1974, uma delegação do PC teve uma reunião com Spínola. Não era claro se ia haver ou não lei da greve. E partidos. O programa do MFA falava de associações políticas. Mas havia um partido e uma central sindical em funcionamento. Spínola não queria que o Avante saísse com a foice e o martelo. Álvaro Cunhal respondeu: "Isso nem o fascismo conseguiu".


Qual foi o grande erro de Spínola?

Não avaliou bem onde estava o poder e subestimou o poder gigantesco das massas. O 25 de Abril, como projeto emancipador e libertador, começa no 1.º de Maio.


Quem são os protagonistas?

O povo e os militares de Abril.


Os protagonistas políticos, Soares e Cunhal?

No dia em que os animais tiverem os seus historiadores, Soares não será o pai da democracia. Soares teve uma reunião com Spínola dois dias antes do 1.º Maio. Penso que a contrarrevolução começou nesse encontro.
Outra derrota: o 28 Setembro de 1974.


Iniciativa conhecida como Maioria Silenciosa, levada a cabo por setores conservadores, civis e militares, que procurava o reforço do poder de Spínola e travar a descolonização. Em 1975, dá-se o 11 de Março. Como vê o 25 de Abril de 1975, dia das primeiras eleições livres, com uma afluência histórica?

As primeiras eleições livres, apesar dos condicionalismos em muitas regiões, manifestam uma enorme adesão ao 25 de Abril. Há uma mudança qualitativa: os resultados eleitorais deram ao PS força para a sua estratégia de alianças com a direita.


Que direita?

O PSD, e também o CDS. Numa viagem que Soares faz ao exterior, diz que na CGTP é tudo comunista e que a sua intenção é ajudar à criação de um movimento sindical livre. Já tinha havido a crise da unicidade sindical. Soares não esteve no 1.º Maio de 1975, que é a consagração da unidade Povo-MFA. O conflito com o PS começou antes das eleições de 25 de Abril de 75 e agravou-se depois das eleições. O PS tinha posto sobre a mesa a exigência de incluir o PPD nas comemorações do 1.º de Maio. Inadmissível. Disse também que não nos acompanhava na estratégia de isolar o PSD. Com a tese de que era um erro estratégico isolar a direita. A experiência do Chile pesa muito, para o bem e para o mal, na nossa revolução. Pesa na experiência da CIA, pesa no PS e em setores democráticos [a convição] de que não pode haver um novo Chile. Se a direita tivesse triunfado, se não tivesse sido eleito Allende, mas o candidato conservador, não teria sido preciso Pinochet.


Não era inevitável que os partidos, com diferentes projetos políticos, colidissem e tentassem marcar o seu território e alianças? Ter o poder, em suma.

Hoje, podemos dizer que o PCP tinha razão. Não é jactância. É olhar para a situação política. Qual era a diferença entre nós e o resto da oposição? Nem republicanos nem socialistas compreendiam a natureza do fascismo. Alertámos para os perigos. A supressão das liberdades e o sacrifício dos trabalhadores e do nosso povo. A estratégia do fascismo sempre foi distanciar setores da oposição do Partido Comunista. Setores da oposição que não queriam mexer nas estruturas económicas (monopólios e latifúndios) e para quem o essencial eram as liberdades políticas.


Nas narrativas sobre a revolução e o pós-revolução, parece que subitamente todos eram de esquerda. Ora, no seu discurso, sobressai uma direita e uma extra direita viva, que se agita para retomar o lugar, nem de longe nem de perto adormecida ou liquidada.

Em Portugal, houve um milagre maior do que o de Fátima: a seguir ao 25 de Abril, desapareceram os fascistas. Eram todos democratas. Um dado concreto: Spínola reuniu com várias pessoas para reagrupar rapidamente as forças políticas do fascismo. Freitas do Amaral foi encarregado de criar um partido que integrasse estas forças que tinham ficado sem poder. Quando da aliança de Governo PS—CDS, Freitas proferiu uma frase lapidar: ao entrar na esfera do poder, a credibilidade do CDS sobe exponencialmente. A direita vai-se reagrupando e reciclando. Ventura diz, nos cartazes, que o 25 de Abril são 50 anos de corrupção. E ninguém se indigna com isto? E a liberdade, as profundas transformações, o ensino, os direitos das mulheres?


Quando é que compreendeu que iríamos desembocar na realidade política que temos, mesmo que fossem precisos muitos anos?

A seguir ao 25 de Novembro. O 11 de Março era apresentado como um golpe comunista. Carlucci [embaixador dos EUA em Portugal entre 74 e 78] compreendeu que era um golpe da extrema-direita. E compreendeu que a contrarrevolução tinha de se fazer pela esquerda. A direita não tinha força, nem militar nem política. Portugal tinha o problema dos retornados, das finanças, precisava de um empréstimo. Que nunca veio. Havia uma desestabilização política e social, bombas, incêndios em centros de trabalho (todos de esquerda) e sindicatos.


Levados a cabo pela extrema-direita, não por toda a direita.

A extrema-direita atuou com enorme impunidade e até conivência de pessoas do aparelho político e das polícias. Toda a pressão era contra a esquerda. O mérito de Carlucci é perceber que a linha central era a divisão do MFA, o governo de Vasco Gonçalves e o papel do Partido Comunista na revolução.


O diálogo de Carlucci é sobretudo com Soares.

E com o Grupo dos Nove [oficiais moderados, liderados por Melo Antunes, parte do MFA]. Depois da ida da delegação portuguesa aos EUA (Soares, Melo Antunes, Costa Gomes), vinham todos acagaçados (expressão do Otelo). Era necessário conter a revolução. Num encontro, já depois do 11 de Março, o PS disse-nos que não nos acompanhava no ritmo da revolução, que os americanos não iam permitir que Portugal se tornasse numa nova Cuba. As coisas começaram a ficar claras. Carlucci entendeu que era preciso ter um braço político que separasse as forças de esquerda — só podia ser o PS —, arrumar a esquerda militar, separar comunistas de socialistas e permitir que a direita se aproximasse do poder. Quando se forma o I Governo Constitucional, que é a segunda fase do Verão Quente, dá-se a grande ofensiva contra a revolução. Nós tínhamos maioria com o PS na Assembleia da República. Mas o PS vai aliar-se com a direita. Nunca mais parou.


A cara do 25 de Novembro, que põe ponto final ao PREC, é Jaime Neves. Antecipou o 25 de Novembro de 1975 no 28 de Setembro de 1974?

O 28 de Setembro é o primeiro ensaio de um golpe de Estado. As duas datas não são separáveis, mesmo que os nomes sejam diferentes. Há vários tabuleiros. As eleições para a Constituinte alteraram a regulação de forças. O PS aparece como força política com autoridade eleitoral para fazer a contrarrevolução, na minha opinião.


Lutou contra o fascismo, esteve preso 11 anos. Com o 25 de Abril, veio a ilusão. A seguir, o revés.

Sou muito marcado pelo meu percurso e vejo o passado e o futuro marcado por esse percurso. Vivi um período em que não sabia se ia ver o 25 de Abril. Depois, vivi os momentos exaltantes em que um povo oprimido 48 anos constrói uma nova vida. A Constituição não deu nada. A Constituição consagrou a revolução. É um momento único na nossa história: as massas populares intervêm a seu favor. A terra a quem a trabalha, a banca ao serviço do povo. Esses e outros slogans estão nos murais, panfletos, comícios, manifestações. Muitos deles são de 1975. É uma contradição, mas coexistem com a contrarrevolução.


Teve uma sensação de derrota?

Com o 25 de Novembro, a revolução sofreu uma enorme derrota. Hoje, chegou o momento do acerto de contas com o 25 de Abril.


Este hoje refere-se aos últimos anos, à turbulência política, ao crescimento da extrema-direita?

Existe, há anos, mas, pela primeira vez, a direita tem a possibilidade de dar um golpe de Estado constitucional [porque as forças de direita controlam dois terços do parlamento]. A direita considera que esta Constituição que consagra conquistas de Abril não é a da contrarrevolução.


Pode apontar um momento positivo vivido no Verão Quente?

O ano de 1975 não é só contrarrevolução. Há sempre o movimento das massas. E ainda vieram muitas conquistas depois. O 1.º de Maio continuou a ser a grande jornada do 25 de Abril. As manifestações do dia 25 de Abril mostram que a palavra de ordem "fascismo nunca mais" tem profundas raízes. Um dos perigos dos nossos tempos são as alianças militaristas e governativas entre a social democracia e a direita, e mesmo a extrema direita, em vários países e na União Europeia. Não podemos começar a chamar fascistas a todas as pessoas que votam no Chega. Não são. No mundo, o fascismo cresce porque há milhões de pessoas que não têm horizontes. Estão esmagados pela vida. Um fulano pôs na net: muito pé descalço votou em quem lhe roubou os sapatos. É um facto. Acho que vamos passar por um período fascista e que o PCP se deve preparar. O anti comunismo é uma pressão que não pode ser desvalorizada. Mas vamos resistir. A minha batalha, enquanto cá estiver, é lutar contra isso.

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