O Meu Caminho, com tradução de Maria Ferro, é o quarto livro da pessoa mais jovem de sempre a receber o Nobel da Paz. Em Portugal, a sua obra está publicada pela Editorial Presença. Como indica o subtítulo, este livro representa as Memórias desta ativista laureada, em 2014, com o Nobel da Paz e constitui um relato dos últimos cinco anos da vida de Malala, a menina que todos conhecemos — agora com quase 30 anos.
Malala Yousafzai iniciou uma campanha, em prol da educação das raparigas, aos dez anos, na altura em que o Vale de Swat passou a ser controlado pelos talibãs. Em 2009, com 11 anos, começou a escrever um blogue anónimo para a BBC Urdu, em que fazia a crónica da vida sob o domínio de terroristas, e participou num documentário do New York Times sobre a educação no Paquistão. Malala torna-se, assim, num alvo a abater e, em outubro de 2012, foi alvejada pelos talibãs ao voltar da escola.
Esta é a história sobejamente conhecida da menina nascida numa região remota do Paquistão e catapultada para a fama aos 15 anos, após o ataque brutal à sua vida — transformada em ícone internacional e mártir, dada a sua coragem e resiliência. Mas o que a jovem aqui pretende narrar prende-se com os anos seguintes, agora como uma jovem mulher, como quem tenta reconstruir a sua identidade perante a história que o mundo escreveu sobre si e o destino que os outros lhe traçaram, enquanto porta-voz das muitas crianças que continuam silenciadas.
A voz que nos fala, de forma intimista, direta, despida de pudor, é a de uma mulher-criança que se quer reencontrar. Malala, que entretanto se mudara com a família para Inglaterra, prepara-se para entrar em Oxford. É nesse momento que se inicia este livro de memórias, reconstruindo de forma vulnerável e autêntica a passagem para esse admirável e aterrorizante novo mundo, numa universidade composta por 43 escolas, num país cujo modo de vida Malala apenas conhecia de um romance de Jane Austen — e que cedo percebe ser algo datado. É também essa a força da voz narrativa da autora: um registo pouco complacente consigo própria, cheio de humor, perspicácia e enternecedor na sua autenticidade. Principalmente quando tem de lidar com um dos grandes dramas de qualquer adolescente: escolher o guarda-roupa adequado que a faça sentir pertencer…
"Não consigo evitar a sensação de que uma mão gigante me retirou de uma história e me depositou noutra completamente diferente.”
“A Malala que toda a gente reconhecia, que subia aos palcos, dava autógrafos e apertava a mão aos líderes mundiais, usava shalwar kameez”. (p. 18)
Em Oxford, deseja somente integrar-se e “ser apenas mais uma aluna de sapatilhas”. Mas oriunda de um país onde as mulheres se vestem como uma “tenda” e com uma mãe conservadora, Malala encontra-se munida de uma coleção de shalwar kameezes com “calças rosa-choque com padrão de cornucópias e um top com pompons nos punhos a condizer. Um conjunto verde-lima com uma abundância de aplicações prateadas. Padrões floridos delirantes que deixavam uma pessoa zonza só de olhar para eles. […] Não posso dizer que eu tivesse um estilo pessoal muito definido naquela altura, mas sabia, com toda a certeza, que não podia ir para Oxford vestida como se fosse um conjunto de marcadores fluorescentes.” (pp. 17–18)
Malala contrapõe, com destreza, opressão e humor. Particularmente nas primeiras páginas, é palpável a tirania e despotismo do ambiente que a autora deixou para trás, pois Mingora, um “local excecionalmente belo e pacífico para viver”, muda radicalmente quando Malala tinha dez anos:
“Homens estranhos com barbas compridas e espingardas de assalto desceram das montanhas e tomaram o poder na nossa cidade. Os talibãs começaram a bombardear hospitais e hotéis; a executar músicos, professores e polícias nas ruas; e a transmitir regras novas pela rádio várias vezes por dia […] Conforme as bombas e os tiroteios se foram tornando mais audíveis, as nossas vidas foram ficando cada vez mais pequenas. Vivíamos num medo constante de transgredir alguma regra nova que ainda não tivéssemos aprendido."
Certo dia, Malala encontra o irmão, com cinco anos, a escavar um buraco no quintal. Quando lhe pergunta o que estava a fazer, o menino responde: "A cavar uma sepultura."
Malala apresenta-se neste relato sem sobranceria, numa veemente recusa em se resignar ao papel que lhe atribuíram. E ser transportada para um país novo, sob a pressão de se integrar num mundo académico exigente, no qual não conhece ninguém — é essencialmente sobre fazer amizades que versam os primeiros capítulos —, acresce a condição desta jovem, da qual fala sem grande complacência:
“As minhas lesões tornavam tudo ainda pior. Tinha quinze anos e usava um aparelho no ouvido. A bala destruíra o meu tímpano esquerdo e cortara-me o nervo facial, deixando um lado da minha cara paralisada. A minha boca já não conseguia formar um sorriso, por isso, um esgar desajeitado era tudo o que eu tinha para oferecer às minhas colegas. Apesar dos meses que passei na reabilitação a reaprender a caminhar, movia-me devagar por entre a horda de adolescentes — era um pequeno fantasma esperançoso, a tentar regressar à terra dos vivos.” (p. 20)
Como reforça na Introdução, esta é a história de uma jovem mulher que terá deixado para trás a criança cuja história foi reescrita por outros:
“Aos quinze anos, ainda não tinha tido tempo para perceber quem queria ser quando, de repente, todos queriam dizer-me quem eu era. Uma inspiração, uma heroína, uma ativista. Mas também uma pessoa discreta, um saco de pancada, um salário ao fim do mês.” (p. 9)
E é essa sensação de demanda pessoal que perpassa fortemente nestas memórias que parecem muito pouco romanceadas — a narrativa crua numa prosa cristalina e despretensiosa de quem procura, ao escrever a sua história, reencontrar a sua própria pessoa: “vivo assombrada […] pelo hiato entre a forma como imaginei a minha vida e aquilo em que ela se transformou. Não consigo evitar a sensação de que uma mão gigante me retirou de uma história e me depositou noutra completamente diferente.”
Malala Yousafzai
Malala iniciou a sua campanha pela educação das raparigas com apenas dez anos, quando o Vale de Swat passou a ser controlado pelos talibãs. Em 2011, foi nomeada para o International Children’s Peace Prize e recebeu o primeiro National Youth Peace Prize do Paquistão. Foi mais tarde distinguida com o International Children’s Peace Prize, o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento e o Amnesty International Ambassador of Conscience Award. Em 2014, recebeu o Nobel da Paz. Vive em Birmingham, e continua a sua luta pelo direito universal à educação através do Fundo Malala.