“A todos aqueles a quem alguma vez disseram: 'Tens muitas qualidades, mas isso é capaz de não chegar.'” É com esta dedicatória que Michelle Dean, jornalista e guionista, nos abre a porta do seu último livro, onde reuniu histórias de um conjunto de mulheres que têm um denominador comum: ficaram conhecidas como sendo de língua muito afiada e, apesar das suas diferenças, deixaram testemunhos escritos absolutamente valiosos. Algumas destas escritoras consideraram-se feministas, outras não. Correram riscos, defrontaram preconceitos, desafiaram o poder masculino na imprensa e na cultura dominante – e moldaram a história cultural e intelectual do século XX.
Michelle Dean. Fotografia: John Midgely
O mundo não teria sido o mesmo sem as cáusticas reflexões de Dorothy Parker acerca das circunstâncias absurdas da sua vida. Nem sempre nos recordamos que Parker começou a escrever poesia ainda antes das mulheres poderem votar. Em cada um dos seus versos é quase audível o tom áspero da sua voz. Dizia, com frequência, que a escrita lhe tinha surgido por mero acaso, tendo chegado a explicar, numa entrevista, que escrevia por “necessidade de dinheiro, minha querida.”
Hannah Arendt tinha já mais de quarenta anos quando adquiriu o estatuto de figura pública. O que a tornou conhecida foi um tratado político de quase quinhentas páginas sobre o totalitarismo político, escrito na prosa densa que habitualmente é usada para veicular as grandes ideias. Daí que possa ser fácil esquecer que começou a sua vida intelectual como uma jovem sonhadora que escrevia resmas de poesia e que num estilo floreado se descrevia a si própria como "dominada pela angústia da realidade (…)".
Em busca de uma espécie de meca onde as pessoas apenas falassem de ideias e de arte, Susan Sontag, no início da sua carreira, trabalhou arduamente para adquirir um estilo de escrita que havia de permitir-lhe falar de arte de vanguarda no futuro. Foi um processo não natural, pelo qual lutou, e por isso valorizava tanto. A sua experiência provava que a erudição era possível através da leitura.
"Implacável" não é palavra que seja costume associar a Joan Didion. "Elegante" e "Encantadora" aplicavam-se-lhe mais, embora nem sempre com conotação positiva. Não poucas vezes se viu confrontada com ofensas equivalentes à "presunção ridícula" com que Pauline Kael a brindara. Mas, tal como Didion sabia muito bem, as aparências podem iludir. Ainda que a sua escrita não fosse tão combativa como a de Kael, Didion era igualmente incisiva quando se tratava de destruir as ilusões dos outros acerca de si próprios. A diferença estava em que Didion, em vez de usar armas pesadas, dava bofetadas de luva branca.
Ilustração do audiobook da versão inglesa, via Amazon.
A capacidade de falar a partir de dentro de um fenómeno mais geral e de saber como ele alimenta e ao mesmo tempo ilude os aspectos mais elementares da nossa personalidade, sendo depois capaz de o criticar segunda a perspetiva de alguém que o viveu realmente, faria de Nora Ephron uma das grandes cronistas dos anos setenta e em particular do movimento feminista. Estava sempre com um pé fora e outro dentro das coisas, com uma espécie de distância próxima que lhe permitia ter uma visão geral sobre tudo.
Susan Sontag, Mary McCarthy, Joan Didion, Rebecca West, Janet Malcolm, Pauline Kael, Dorothy Parker, Hannah Arendt, Nora Ephron e Renata Adler. Que estas mulheres tenham conseguido a relevância que tiveram no seculo XX torna-as ainda mais dignas de nota. Pela simples razão de que apareceram num momento em que o mundo não queria saber da opinião das mulheres para coisa nenhuma.