Comece já a ler "Violeta", de Isabel Allende

Por: Bertrand Livreiros a 2022-01-14

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Violeta
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Isabel Allende é um dos maiores nomes da literatura sul-americana, reconhecida internacionalmente e com milhões de livros vendidos. No ano em que se assinalam os quarenta anos do seu aclamado romance de estreia, A Casa dos Espíritos, que conquistou os leitores em todo o mundo, dia 25 de janeiro assistimos ao lançamento mundial do seu novo romance, que em Portugal conta com a chancela da Porto Editora. 
Violeta, um romance ao mais puro estilo de Allende, abre-nos a porta da vida de Violeta del Valle, a primeira rapariga numa família de cinco irmãos truculentos, que nasce num dia de tempestade, em 1920, quando ainda se sentem os efeitos devastadores da Grande Guerra e a gripe espanhola chega ao seu país natal, na América do Sul. Graças à ação determinada do pai, a família sairá incólume desta crise, apenas para ter de enfrentar uma outra: a Grande Depressão. A elegante vida urbana que Violeta conhecia até então muda drasticamente. Os Del Valle são forçados a viver numa região selvagem e remota, onde Violeta atinge a maioridade e viverá o primeiro amor. Décadas depois, numa longa carta dirigida ao seu companheiro espiritual, o mais profundo amor da sua longa existência, Violeta relembra desgostos amorosos e apaixonadas relações, momentos de pobreza e de prosperidade, perdas terríveis e alegrias imensas. A sua vida será moldada por alguns dos momentos mais importantes da História: a luta pelos direitos da mulher, a ascensão e queda de tiranos, os ecos longínquos da Segunda Guerra Mundial. 

O resultado é uma obra repleta de emoção, relatada no feminino, que explora a dimensão humana e o conceito de família. Antecipamos a chegada deste romance inspirador e emotivo às livrarias, partilhando consigo o primeiro capítulo.


“A Violeta é uma personagem forte, irónica, aventureira e corajosa.”
Isabel Allende

             



ISABEL ALLENDE 


V I O L E T A

Tradução de Carla Ribeiro
 

Tell me, what is it you plan to do with your one wild and precious life?

Diz-me, o que pensas fazer com a tua única vida, tão selvagem e preciosa?

Mary Oliver,

«The Summer Day»

 

Querido Camilo:

A intenção destas páginas é deixar-te um testemunho, pois acredito que, num futuro distante, quando fores velho e pensares em mim, vai faltar-te a memória, porque andas sempre distraído, e esse defeito acentua-se com a idade. A minha vida é digna de ser contada, não tanto pelas minhas virtudes como pelos meus pecados, muitos dos quais não imaginas. Vou contar-tos aqui. Verás que a minha vida é um romance.

És o depositário das minhas cartas, onde está registada toda a minha existência, exceto alguns dos pecados que acabo de te mencio- nar, mas tens de cumprir a promessa de as queimar quando eu morrer, porque são sentimentais e muitas vezes malévolas. Este resumo substi- tuirá essa exagerada correspondência.
Amo-te mais do que a qualquer outra pessoa neste mundo,

Violeta
Santa Clara, setembro de 2020


 

Primeira Parte

O Desterro
(1920-1940)

 

1


Vim ao mundo numa sexta-feira de tempestade em 1920, o ano da peste. Nessa tarde em que nasci, a eletricidade tinha sido cortada, como costumava acontecer no temporais, e tinham acendido as velas e as lâmpadas de querosene, que estavam sempre à mão para essas emergências. María Gracia, a minha mãe, sentiu as contrações, que tão bem conhecia porque tinha parido cinco filhos, e abandonou-se ao sofrimento, resignada a dar à luz outro varão com a ajuda das suas irmãs, que a tinham auxiliado várias vezes naquela situação e não se deixavam perturbar. O médico da família estava há semanas a trabalhar sem descanso num dos hospitais de campanha e pareceu-lhes uma imprudência chamá-lo para algo tão prosaico como um nascimento. Nas vezes anteriores, tinham contado com uma parteira, sempre a mesma, mas a senhora fora uma das primeiras vítimas da influenza e não conheciam mais nenhuma.
A minha mãe calculava ter passado toda a sua vida adulta grávida, acabada de parir ou a recuperar de um aborto espontâneo. O seu filho mais velho, José Antonio, tinha feito 17 anos, disso tinha a certeza, pois nascera no ano de um dos nossos piores terramotos, que deitou abaixo metade do país e deixou um saldo de milhares de mortos, mas não se lembrava com exatidão da idade dos outros filhos nem de quantas gravidezes malogradas tinha sofrido. Cada uma delas deixava-a incapacitada durante meses e cada nascimento deixava-a esgotada e melancólica durante muito tempo. Antes de casar, fora a debutante mais bela da capital, alta, com um rosto inesquecível de olhos verdes e pele translúcida, mas os excessos da maternidade tinham-lhe deformado o corpo e exaurido o espírito.
Em teoria, amava os seus filhos, mas, na prática, preferia mantê-los a uma distância confortável, pois a energia daquele tropel de rapazes causava um tumulto de batalha no seu pequeno reino feminino. Uma vez, admitiu ao seu confessor que estava destinada a parir varões, uma espécie de maldição do Diabo. Recebeu a penitência de rezar um rosário por dia durante dois anos inteiros e de fazer um donativo avultado para as obras da igreja. O marido proibiu-a de voltar a confessar-se.
Sob a supervisão da minha tia Pilar, Torito, o rapaz em- pregado para todos os serviços, subiu a uma escada e amarrou as cordas, que eram guardadas num armário para essas ocasiões, a dois ganchos de aço que ele mesmo instalara no teto de estafe. A minha mãe, em camisa de dormir, ajoelhada, pendurada por uma corda em cada mão, fez força durante um tempo que lhe pareceu eterno, praguejando com palavrões de flibusteiro que jamais utilizava noutros momentos. A minha tia Pía, agachada entre as suas pernas, estava pronta para receber o recém-nascido antes que tocasse no chão. Tinha preparadas as infusões de urtiga, artemísia e arruda para depois do parto. O clamor da tempestade, que chocava contra as portadas e arrancava pedaços do telhado, abafou os gemidos e o longo grito final quando mostrei primeiro a cabeça e em seguida o corpo coberto de mucosidade e sangue, que escorregou entre as mãos da minha tia e caiu no chão de madeira.

–    Que desajeitada, Pía! – gritou Pilar, erguendo-me por um pé. – É uma menina! – acrescentou, surpreendida.
–    Não pode ser, vê bem – murmurou a minha mãe, exausta.
–    Estou-te a dizer, irmã, não tem pirilau – replicou a outra.

Nessa noite, o meu pai regressou tarde a casa, depois de ter jantado e jogado várias partidas de bisca no clube, e foi direito ao seu quarto para mudar de roupa e para se esfregar profilaticamente com álcool antes de estar com a família. Pediu um copo de conhaque à empregada de serviço, a quem não passou pela cabeça dar-lhe a notícia porque não estava habituada a falar com o patrão, e foi cumprimentar  a mulher. O cheiro a ferrugem do sangue avisou-o do ocorrido antes de passar a soleira. Encontrou a minha mãe na cama, corada e com o cabelo molhado de suor, com uma camisa de dormir lavada, a descansar. Já tinham tirado as cordas do teto e os baldes de trapos sujos.

–    Porque não me avisaram?! – exclamou, depois de beijar a esposa na testa.
–    Como querias que o fizéssemos? O motorista andava contigo e nenhuma de nós ia sair a pé com esta tempestade, caso os teus matulões armados nos deixassem passar – replicou Pilar, num tom pouco amável.
–    É uma menina, Arsenio. Tens finalmente uma filha – interveio Pía, mostrando-lhe o embrulho que tinha nos braços.
–    Bendito seja Deus! – murmurou o meu pai, mas o sorriso desvaneceu-se ao ver o ser que espreitava por entre as dobras do xaile. – Tem um galo na testa!
–    Não te preocupes. Algumas crianças nascem assim e, poucos dias depois, vão ao sítio. É sinal de inteligência improvisou Pilar, para não lhe dizer que a filha tinha aterrado de cabeça na vida.
–    Como lhe vão chamar? – perguntou Pía. 
–    Violeta – respondeu a minha mãe com firmeza, sem dar oportunidade ao marido de intervir.

É  o  ilustre  nome  da  bisavó  materna  que  bordou  o  escudo da primeira bandeira da Independência, no início do século xIx.

A pandemia não tinha apanhado a minha família de surpresa. Mal se espalhou a notícia dos moribundos que se arrastavam pelas ruas do porto e do número alarmante de corpos azuis na morgue, o meu pai, Arsenio del Valle, calculou que a peste não demoraria mais do que meia dúzia de dias a chegar à capital e não perdeu a calma, pois estava à sua espera. Tinha-se preparado para essa eventualidade com a urgência que aplicava a tudo e que lhe servira para os negócios e para fazer dinheiro. Era o único dos seus irmãos que estava a caminho de recuperar o prestígio de homem rico que distinguira o meu bisavô e que o meu avô herdara, mas fora perdendo com os anos por ter demasiados filhos e ser honesto. Dos 15 filhos que esse avô tivera, restavam 11 vivos, um número considerável que provava a força do sangue Del Valle, segundo se gabava o meu pai, mas é preciso esforço e dinheiro para sustentar uma família tão numerosa, e a fortuna foi desaparecendo.
Antes de a imprensa se referir à doença pelo seu nome, já o meu pai sabia que se tratava da influenza espanhola, pois estava a par das notícias do mundo através dos jornais estrangeiros, que chegavam com atraso ao Club de la Unión, mas continham mais informação do que os locais, e de um rádio que ele mesmo construíra seguindo as instruções de um manual, com o qual se mantinha em contacto com outros aficionados, inteirando-se assim, entre os pigarreares e os guinchos da comunicação em onda curta, dos estragos reais da pandemia noutras zonas. Seguira desde o início a evolução do vírus, sabia da sua passagem como um vento de fatalidade pela Europa e pelos Estados Unidos, e deduziu que, se tivera consequências tão trágicas em países civilizados, era de esperar que no nosso, onde os recursos eram mais limitados e o povo mais ignorante, fosse pior.
A influenza espanhola, a que chamaram «gripe», para abreviar, chegava com quase dois anos de atraso. Segundo a comunidade científica, tínhamo-nos livrado do contágio graças ao isolamento geográfico, com a barreira natural das montanhas de um lado e a do oceano do outro, à qualidade do clima e à distância, que nos protegia do tráfego desnecessário de estrangeiros infetados, mas o consenso popular atribuiu-o à intervenção do padre Juan Quiroga,  a quem dedicaram procissões preventivas. É o único santo que vale a pena venerar, porque, em matéria de milagres domésticos, ninguém lhe ganha, apesar de o Vaticano não o ter canonizado. Ainda assim, em 1920, o vírus chegou com todo o seu esplendor, com mais ímpeto do que alguém poderia ter imaginado, e deitou por terra as teorias científicas e teológicas.
A peste começava com um frio do outro mundo que nada podia mitigar, o tremor da febre,  a cacetada da dor  de cabeça, o ardor intenso nos olhos e na garganta, o delírio com a visão aterradora da morte à espera a meio metro de distância. A pele ia adquirindo um tom azul-arroxeado cada vez mais escuro, os pés e as mãos ficavam negros, a tosse impedia a respiração, uma espuma ensanguentada encharcava os pulmões, a vítima gemia de aflição e o fim chegava por asfixia. Os mais afortunados morriam em poucas horas.
O meu pai suspeitava, com fundamento, que, na guerra da Europa, a influenza tinha causado mais mortes entre os soldados amontoados nas trincheiras, sem possibilidades de evitar o contágio, do que as balas e o gás-mostarda. Com igual ferocidade, devastou os Estados Unidos e o México, estendendo-se depois para a América do Sul. Os jornais diziam que noutros países os cadáveres eram empilhados como madeiros nas ruas, pois não havia tempo nem cemitérios suficientes para os enterrar, que um terço da Humanidade estava infetada e que havia mais de 50 milhões de vítimas, mas as notícias eram tão contraditórias como os terríveis rumores que circulavam. Há 18 meses que tinha sido assinado o armistício que pusera termo aos quatro terríveis anos da Grande Guerra na Europa, e só então se começava a ter noção do verdadeiro alcance da pandemia, que a censura militar tinha ocultado. Nenhuma nação admitia o seu número de baixas; apenas Espanha, que se manteve neutra no conflito, difundia notícias sobre a doença, e por isso acabaram por lhe chamar influenza espanhola.
Dantes, as pessoas do nosso país morriam das causas de sempre, isto é, pobreza irremediável, vícios, rixas, acidentes, água contaminada, tifo e o desgaste dos anos. Era um processo natural, que dava tempo para a dignidade dos funerais, mas, com a chegada da gripe, que atacava com a voracidade de um tigre, houve que prescindir do consolo aos moribundos e dos ritos do luto.
Os primeiros casos foram detetados nos prostíbulos do porto em finais do outono, mas ninguém, a não ser o meu pai, lhes prestou a devida atenção, uma vez que as vítimas eram mulheres de escassa virtude, delinquentes e traficantes. Disseram que era um mal venéreo trazido da Indonésia por marinheiros em trânsito. Não tardou, porém, a ser impossível ocultar o infortúnio geral e deixou de ser possível continuar a culpar a promiscuidade e a vida fácil, pois o mal não discriminava entre pecadores e virtuosos. O vírus venceu o padre Quiroga e passeava-se em plena liberdade, atacando com fúria crianças e idosos, pobres e ricos. Quando toda a companhia de zarzuelas e vários membros do Congresso adoeceram, os tabloides anunciaram o Apocalipse, e então o governo decidiu fechar as fronteiras e controlar os portos. Mas já era tarde.

As missas de três padres e as bolsinhas de cânfora penduradas ao pescoço para evitar o contágio foram inúteis.  O inverno que se avizinhava e as primeiras chuvas agravaram a situação. Foi preciso improvisar hospitais de campanha em recintos desportivos, morgues nos frigoríficos do matadouro municipal e valas comuns, onde iam parar os cadáveres dos pobres cobertos de cal viva. Como já se sabia que a doença entrava pelo nariz e pela boca, e não pela picada de um mosquito ou por um verme nas tripas, como acreditava o vulgo, foi imposto o uso de máscaras, mas, se estas não chegavam para o pessoal de saúde, que combatia o mal na linha da frente, também não estavam disponíveis para o resto da população.
O Presidente do país, filho de imigrantes italianos de primeira geração, de ideias progressistas, fora eleito alguns meses antes com o voto da emergente classe média e dos sindicatos operários. O meu pai, como todos os seus parentes Del Valle e os seus amigos e conhecidos, desconfiava dele por causa das reformas que pensava impor, pouco convenientes para os conservadores, e por ser um arrivista sem apelido castelhano ou basco dos antigos, mas esteve de acordo com a forma como enfrentou a catástrofe. A primeira ordem foi fecharem-se em casa para evitar o contágio, mas, como ninguém lhe deu ouvidos, o Presidente decretou o estado de emergência, recolher obrigatório à noite e a proibição de a população civil se deslocar sem uma boa razão, sob pena de multa, prisão e, em muitos casos pancada.
Fecharam-se escolas, lojas, parques e outros locais onde habitualmente as pessoas se concentravam, mas continuaram a operar alguns gabinetes públicos, bancos, camiões e comboios, que abasteciam as cidades, e as lojas de bebidas alcoólicas, pois supunha-se que o álcool, com doses industriais de aspirina, matava o bicho. Ninguém contava os mortos intoxicados por essa combinação de álcool e aspirina, como salientou a minha tia Pía, que era abstémia e não acreditava em remédios de farmácia. Tal como o meu pai temia, a polícia revelou-se incapaz de impor a obediência e prevenir os crimes, e foi preciso recorrer aos soldados para patrulhar as ruas, apesar da sua merecida reputação de brutos. Isso provocou um clamor de alarme nos partidos da oposição e entre os intelectuais e artistas, que não esqueciam o massacre de trabalhadores indefesos, incluindo mulheres e crianças, perpetrado pelo exército anos antes, bem como outros casos em que se haviam lançado de baionetas em riste contra a população civil, como se fossem inimigos estrangeiros.
O santuário do padre Juan Quiroga encheu-se de devotos que procuravam curar-se da influenza, e em muitos casos isso acontecia, mas os céticos, que nunca faltam, disseram que se o enfermo tinha forças suficientes para subir os 32 degraus até à capela no Cerro San Pedro, era porque já estava recuperado. Isto não desencorajou os fiéis. Apesar de estarem proibidas as reuniões públicas, juntou-se uma multidão espontânea, encabeçada por dois bispos, com a intenção de ir ao santuário, mas os soldados fizeram-na dispersar-se à coronhada e a tiro. Em menos de 15 minutos, deixaram estendidos 2 mortos e 63 feridos, um dos quais pereceu nessa noite. O protesto formal dos bispos foi ignorado pelo presidente do governo, que não recebeu os prelados no seu gabinete e lhes respondeu por escrito através do seu secretário que «quem desobedecer à lei será tratado com mão pesada, nem que seja o Papa». Ninguém ficou com vontade de repetir a peregrinação.

Na nossa família, não houve nenhum empestado, pois, antes da intervenção direta do governo, já o meu pai tinha tomado as precauções necessárias, guiando-se pela forma como outros países tinham combatido a pandemia. Através do seu rádio, comunicou com o capataz da sua serração, um imigrante croata de plena confiança, que lhe mandou do Sul dois dos seus melhores lenhadores. Armou-os de fuzis tão antigos que nem ele sabia usá-los, plantou um em cada entrada da propriedade e encarregou-os da tarefa de não deixarem que ninguém entrasse ou saísse, exceto ele e o meu irmão mais velho. Era uma ordem pouco prática, visto que, logicamente, não iam deter membros da família a tiro, mas a presença daqueles homens podia dissuadir os larápios.  Os lenhadores, convertidos da noite para o dia em guardas armados, não entravam na casa; dormiam em enxergas na cocheira, alimentavam-se das iguarias que a cozinheira lhes passava por uma janela e bebiam a aguardente mata-burros que o meu pai lhes facultava à discrição, juntamente com punhados de aspirina, para se defenderem do bicho.
Para sua própria proteção, o meu pai comprou no contrabando um revólver inglês Webley, de eficácia comprovada na guerra, e pôs-se a praticar tiro ao alvo no pátio de serviço, espantando as galinhas. Na verdade, receava menos o vírus do que as pessoas em desespero. Em tempos normais, havia já demasiados indigentes, mendigos e ladrões na cidade. Se se repetisse o que acontecera noutros lados, o desemprego ia aumentar, haveria escassez de alimentos e começaria o pânico, caso em que até as pessoas de alguma honradez, que até então se limitavam a protestar em frente ao Congresso exigindo trabalho e justiça, recorreriam à delinquência, como no tempo em que os mineiros desempregados do Norte, famintos e furiosos, tinham invadido a cidade e espalhado o tifo.
O meu pai comprou provisões para passar o inverno: sacos de batatas, farinha, açúcar, azeite, arroz e legumes, nozes, réstias de alhos, carnes secas e caixas de frutas e verduras para fazer conservas. A quatro dos seus filhos, o mais novo dos quais acabava de fazer 12 anos, enviou-os para o Sul, antes que o Colégio San Ignacio suspendesse as aulas por ordem do governo, mas José Antonio ficou na capital, pois ia entrar para a universidade assim que o mundo se normalizasse. As viagens estavam suspensas, mas os meus irmãos conseguiram apanhar um dos últimos comboios de passageiros, que os levou até à estação de San Bartolomé, onde os esperava Marko Kusanovic, o capataz croata, com instruções para os pôr a trabalhar ombro a ombro com os rudes lenhadores da região. Nada de criancices. Isso mantê-los-ia ocupados e saudáveis, além de evitar incómodos na casa.

A minha mãe, as suas duas irmãs, Pía e Pilar, e as empregadas de serviço foram intimadas a permanecer dentro de portas e a não sair por nenhum motivo. A minha mãe tinha os pulmões fracos por causa de uma tuberculose de juventude, era de constituição delicada e não podia arriscar-se a contrair a gripe. A pandemia não alterou demasiado as rotinas do universo fechado que era a nossa casa. A porta principal, em mogno esculpido, dava para um amplo vestíbulo escuro onde convergiam dois salões, a biblioteca, a sala de jantar oficial das visitas, a sala de bilhar e outra fechada, a que chamavam de escritório porque continha meia dúzia de móveis em metal, cheios de documentos para que ninguém olhava desde tempos imemoriais. A segunda parte da casa estava separada da primeira por um pátio de azulejos portugueses, com uma fonte mourisca cujo mecanismo para a água não funcionava e uma profusão de camélias plantadas em vasos; essas flores deram nome à propriedade: a casa grande das camélias. Por três dos lados do pátio, corria uma galeria em vidro biselado que ligava as divisões de uso diário: sala de jantar, sala de jogos, outra de costura, quartos e casas  de banho. A galeria era fresca no verão e mantida mais ou menos morna no inverno com braseiros a carvão. A última parte da casa era o reino dos criados e dos animais; aí, ficavam a cozinha, os lavadouros, os armazéns, a cocheira e a fila de patéticos cubículos onde dormiam as empregadas domésticas. A minha mãe entrara muito poucas vezes nesse terceiro pátio.
A propriedade pertencera aos meus avós paternos e, quando eles faleceram, foi o único legado significativo que deixaram em herança aos filhos. O seu valor, dividido em 11 partes, representava muito pouco para cada um. Arsenio, o único com visão de futuro, ofereceu-se para comprar a parte dos irmãos em pequenas quotas. Inicialmente, os outros entenderam-no como um favor, pois aquele casarão antigo tinha inúmeros problemas estruturais, tal como o meu pai lhes explicou. Ninguém no seu perfeito juízo viveria ali, mas ele precisava de espaço para os seus filhos e para os outros que viriam, além da sogra, já muito velha, e das irmãs da mulher, duas solteironas que dependiam da sua caridade. Depois, quando começou a dar-lhes com atraso uma fração do que prometera, acabando por deixar de lhes pagar por completo, a relação com os irmãos deteriorou-se. A sua intenção não era enganá-los, mas foram-lhe surgindo oportunidades financeiras em que decidiu aventurar-se, e prometeu a si mesmo que lhes pagaria o resto com juros, mas os anos foram passando, de adiamento em adiamento, até que se esqueceu da dívida.
A casa era, na verdade, uma velharia maltratada, mas o terreno ocupava meio quarteirão e tinha entrada por duas ruas. Gostaria de ter uma fotografia para te mostrar, Camilo, pois é onde começam a minha vida e as minhas memórias. O casarão tinha perdido o brilho que outrora o distinguia, antes do descalabro económico, quando o avô ainda reinava sobre um clã de muitos filhos e um exército de empregados e jardineiros, que mantinham a casa impecável e o jardim como um paraíso de flores e árvores de fruto, com uma estufa em vidro onde cultivavam orquídeas de outros climas e quatro estátuas em mármore de figuras mitológicas gregas, como então se usava entre as famílias de avoengo, esculpidas pelos mesmos artesãos locais que talhavam as lápides do cemitério. Os velhos jardineiros já não existiam e os novos eram um bando de mandriões, segundo o meu pai. «A este ritmo, as ervas daninhas vão engolir a casa», repetia, mas nada fazia para resolver a situação. A natureza parecia-lhe muito bonita de se admirar ao longe, mas não merecia a sua atenção, que era mais bem aplicada em assuntos mais rentáveis. A ruína gradual da propriedade inquietava-o pouco, pois pensava ocupá-la apenas o tempo necessário; a casa não valia nada, mas o terreno era magnífico. Planeava vendê-lo quando este tivesse valorizado o suficiente, ainda que tivesse de esperar anos. A sua máxima era um cliché: comprar barato e vender caro.
A classe alta estava a deslocar-se para bairros residenciais, longe das repartições públicas, dos mercados e das praças poeirentas cheias de pombos. Havia uma febre de demolir casas como aquela para construir edifícios de escritórios ou de apartamentos para a classe média. A capital era e continua a ser uma das cidades mais segregadas do mundo e, à medida que as classes inferiores fossem ocupando essas ruas, que eram as principais desde os tempos da Colónia, o meu pai teria de mudar a sua família para não ficar mal visto aos olhos dos seus amigos e conhecidos. A pedido da minha mãe, modernizou parte da casa com eletricidade e instalou sanitas, enquanto o resto continuou silenciosamente a deteriorar-se.

 

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