Afonso Cruz acaba de escrever o livro que os leitores queriam — pelo menos, esta leitora. Quem não queria é porque não sabia que precisava dele. Lançado no mês em que se celebra a Páscoa, uma festividade católica na qual o Pão preserva o papel principal, A Cozinheira do Ditador celebra a importância da comida na mesa da Humanidade. Se o macaco bêbado foi à ópera, antes comeu pão com compota.
Uma ditadura é como uma cerveja: tem um gosto adquirido. Esta é uma das propostas de reflexão que a cozinheira do ditador nos oferece. Como o leitor pode notar, a mesma trata-se de uma autoridade na matéria: não só é uma chefe profissional, como também uma chefe profissional que trabalha para um déspota.
Enquanto “vítima de populismo passional”, as especialidades desta cozinheira são sabor e repressão. É ela quem nos diz, enquanto narra o novo livro de Afonso Cruz: “Não deixo de ter em consideração o modo como passei a gostar de cerveja: o que era amargo tornou-se perfeito, pelo contacto iterado com o que se consome. Assim nascem os penduricalhos ditatoriais. Vamos incorporando.”
Este é um dos avisos presentes no livro. No ano em que celebramos os 50 anos da Constituição da República Portuguesa, A Cozinheira do Ditador, editado pela Companhia das Letras, oferece avisos mais e menos crípticos. A mulher sem-nome, que narra esta história, é vítima de vários tipos de repressão. Está confinada a três espaços: a cozinha, o seu quarto e a biblioteca, cujo acesso esporádico lhe dá alento, esse “único espaço de liberdade consentida”. A cozinheira tem necessidade de uma biblioteca para viver. O ditador sabe disso e permite-lhe o capricho “disso dos livros”, como lhe chama.
Abertura do livro é feita com os sons da entrada do ditador. A chegada a casa é de terror sonoro, de ambiente castrador. Vivendo sob tensão, a cozinheira confessa-nos que engole, diariamente, “nacos inteiros de vida espezinhada". Essa tirania é maior do que podemos inicialmente pensar, e é exercida por um déspota cujos traços não avisam da sua maldade. O autor começa por despir o ditador ao básico: no imaginário coletivo, identificamos um vilão pelos seus traços retos. É um truque simples que permite que as crianças percebam de imediato, ao verem um filme de animação, quem é bom e quem é mau. No entanto, as nossas duas personagens, cozinheira e ditador, são o contrário do que os traços faciais indicam: “É ele que tem os lábios carnudos, o olhar meigo [...] e um nariz pequeno. Eu tenho nariz adunco (sem verruga), lábios finos e olhos de água. Ele corresponde, portanto, a um certo ideal de beleza, embora seja asqueroso”, explica a cozinheira.
Tal como o filme Zona de interesse, vencedor de prémios pelo som e pelo uso do horror do silêncio, entra em casa do Mal para perceber como vive, o livro A Cozinheira do Ditador faz esse movimento para o interior. Dentro desta casa, repetem-se sons, e os ecos identificados na narração são terríveis. O som dos passos, que os tapetes de lã abafam, aterrorizam as personagens. Durante o tempo com o livro, o leitor compreenderá por que razão ecoa pelo livro a repetição destes sons, se se lembrar de que a cozinheira está confinada a poucos espaços desta mansão dourada. A repetição é natural — e enlouquece.
Os bons livros são aqueles que deixam perguntas no leitor. Eis uma: viver entre pessoas impiedosas transforma-nos em pessoas ruins? A nossa narradora toma a cozinha como o seu território, que, apesar de ser enorme, não é “suficiente para acomodar a [...] querida ira".
Um dos maiores méritos do livro é algo de que alguns leitores podem sentir falta na Literatura: dar o papel principal à comida, com descrições realistas de refeições, com personagens que têm necessidade de comer, com gastronomia com verossimilhança. Os pratos da cozinheira aqui descritos deixam água na boca, precisamente, por a receita fazer sentido. Afonso Cruz descreve pratos cheios de sabor, nos quais a proteína é marinada em citrinos, a guarnição é salteada em manteiga e tudo é terminado com hortelã: “Nada muito exótico, nada comparado com um desportivo conduzido por motorista, mas suficientemente sofisticado para fazer um senhor ditador sentir-se senhor ditador.”
Afinal, ao cozinhar, criam-se narrativas, contam-se histórias na preparação do alimento, durante a refeição e mesmo depois. Não é a própria receita uma história? É o registo de histórias que as mulheres começaram a contar: “as nossas, as de todos nós”, criando “a ponte que vai do cru ao cozinhado”.
Além de evidenciar que sabe distinguir um chá de uma infusão, uma habilidade que devia ser mais valorizada num mundo de refrigerantes, o autor continua a revelar, na sua obra, o domínio do significado das palavras — usando isso a seu favor. Ao mesmo tempo, chama a atenção para os lugares-comuns da língua, de forma elegante. Não diminui quem emprega “aquilino” para adjetivar um nariz, mas mostra-lhe mais caminhos: quando “aquilino” volta a surgir, mas, desta feita, para adjetivar os olhos, só podemos desenhar um esgar com os lábios (eles que são tão importantes na narrativa). E como nunca saímos mais pobres de um livro de Afonso Cruz, registamos vocábulos como “vestal” ou “rapacidade”.
Faltava, na obra de Afonso, pegar no curto livro O macaco bêbedo foi à ópera — da embriaguez à civilização e transformá-lo num romance. Para esta leitora, este é esse livro. Mas ainda melhor. Inúmeros pratos do dia são sugeridos ao longo do livro, tais como “tirano panado com ideias fritas”. Ora, se os tiranos são servidos panados e as suas ideias são fritas pelo povo, que desconstrói dogmas instalados pela bestial senhoria, o livro A Cozinheira do Ditador apresenta uma visão do mundo mais democrática. E para um mundo mais justo, temos todos de virar cozinheiros.
Quando a narradora nos diz que o “arrependimento não é a frustração de não poder alterar o passado, mas sim a sabedoria ganha através do passado para corrigir o futuro”, estará a falar de uma receita de um assado ou da perda de direitos humanos? Permitam-me, assim, acrescentar um prato ao livro. Que tal ser servido facho estufado em cama de cravos frescos?
Afonso Cruz
Afonso Cruz é escritor, músico, ilustrador, feitor de cerveja e comedor de pão. Entre os mais de 40 livros publicados, multipremiados e amplamente traduzidos, encontramos romance, conto, ensaio, mas também poesia e teatro. Depois de Jesus Cristo Bebia Cerveja, Flores, O macaco bêbedo foi à ópera, inúmeros volumes de Enciclopédia da Estória Universal, O Vício dos Livros, e muitos outros, publica agora A Cozinheira do Ditador, no qual comida e literatura se continuam a cruzar.