As célebres (e inusitadas) últimas palavras de 10 escritores

Por: Beatriz Sertório a 2021-03-01 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Jane Austen

Jane Austen

Uma das maiores referências da literatura inglesa, Jane Austen (1775-1817) marcou a passagem do Neoclassicismo para o Romantismo. Aos 15 anos escreveu o seu primeiro romance, publicado postumamente em 1922.

Na sua produção literária, distinguem-se habitualmente dois grandes momentos de criação. O primeiro, entre meados da década de 1790, corresponde à escrita das primeiras versões de Sensibilidade e Bom Senso – então intitulada Elinor and Marianne –, de Orgulho e Preconceito – originalmente First Impressions – e de Northanger Abbey – inicialmente chamada Susan. O segundo, já no período de maturidade em Chawton, começa com a revisão e publicação desses primeiros romances e prossegue com a escrita de Mansfield Park, Emma e Persuasão, o seu último romance completo.

Estas obras representam apenas uma parte das cerca de 35 obras e textos de Jane Austen, entre romances, novelas breves, juvenilia, sátiras e fragmentos inacabados.

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James Joyce

James Joyce

James Joyce nasceu em Dublin, na Irlanda, a 2 de fevereiro de 1882, e é considerado um dos maiores escritores do século xx. Entre as suas obras mais conhecidas contam-se o volume de contos Gente de Dublin (1914) e os romances Retrato do Artista quando Jovem (1916), Ulisses (1922) e Finnegans Wake (1939). A sua escrita incluiu inovações técnicas como o uso extensivo do monólogo interior, o desenvolvimento de uma rede de símbolos retirados da mitologia, da história e da literatura, e a criação de uma linguagem repleta de palavras inventadas e trocadilhos. Faleceu em Zurique, na Suíça, em 1941.

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Lev Tolstoi

Lev Tolstoi

Lev Tolstoi (1828-1910) nasceu na Rússia, no seio de uma família nobre. Órfão desde cedo, optou por seguir a carreira militar, servindo-se mais tarde das suas experiências no campo de batalha para representar a guerra de forma realista nos seus romances.

Em 1856, abandona o exército e viaja pela Europa para estudar Pedagogia. De regresso à Rússia, dedica-se à escrita, publicando mais tarde em fascículos Guerra e Paz (1865-69) e Anna Karénina (1875-77), ainda hoje considerados dois dos melhores romances de sempre.

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Oscar Wilde

Oscar Wilde

Oscar Wilde nasceu a 10 de outubro de 1854. Foi o segundo filho de um casal irlandês residente em Dublin.
Em 1871 recebeu uma bolsa para frequentar o Trinity College de Dublin, onde começou a construir a sua persona, com o culto dos pré-rafaelitas, as roupas de dandy e o desafio às convenções.
É neste período que Wilde conhece as obras de Keats, Flaubert e Pater, embora, como disse mais tarde, já houvesse percorrido mais de metade do caminho quando os encontrou. Três anos depois está a frequentar Estudos Clássicos em Oxford.
É influenciado por dois professores de Belas-Artes, John Ruskin e Walter Pater.
Em 1879 já está a residir em Londres, onde se tornará conhecido pelo brilho das conversas e a frequência dos teatros. Escreve Vera ou os Niilistas, que não chega a ser representada, e em 1881 publica Poems.
Em 1884, casa com Constance Lloyd, uma herdeira inteligente e culta, interessada em literatura infantil e de quem teve dois filhos. A partir de 1886, Wilde assume abertamente a sua homossexualidade.
Colabora com a Pall Mall Gazette, publica O Retrato do Sr. W. H., contos como O Príncipe Feliz, e ataca o realismo no ensaio O Declínio da Mentira.
Em 1891 surge O Retrato de Dorian Gray. O romance celebra o esteticismo, critica os seus riscos e aborda pela primeira vez a homossexualidade na literatura inglesa. No mesmo ano publica A Alma do Homem e o Socialismo.
Em 1892, edita O Leque de Lady Windermere, o seu primeiro êxito teatral. Regressa a Paris, onde conhece Mallarmé, Schwob, e tem longas conversas com André Gide.
Mas Uma Mulher sem Importância faz que até alguns dos mais renitentes lhe reconheçam o talento. E é então, no auge da sua glória, que conhece Lord Alfred Douglas, Bosie para os íntimos, vinte anos mais novo do que ele, de gostos vulgares, caprichoso e manipulador. Em apenas dois anos, Wilde é levado à falência com presentes caros, jantares requintados e viagens.
É o começo do fim. Embora escreva ainda Um Marido Ideal, Uma Tragédia Florentina e A Importância de Ser Earnest, a vida criativa de Wilde começa a estiolar-se.
O autor de O Declínio da Mentira vai deixar-se instrumentalizar pelo seu amante no conflito que o opõe ao pai, John Sholto Douglas, marquês de Queensberry.
Em 1895, por instigação de Alfred, Wilde toma a iniciativa de um processo judicial contra Sholto. Ganha o primeiro processo, de que sai, no entanto, relacionado com «atos de grave indecência». O desfecho de um terceiro julgamento é a sua condenação a dois anos de trabalhos forçados.
É na prisão que escreve De Profundis.
Libertado, abandona imediatamente Inglaterra, adota o nome de Sebastian Melmoth e instala-se num modesto hotel de Paris.
Wilde morreu em novembro de 1900, após dois meses de doença. Diz-se que, tal como Tchékhov, de quem quase tudo o separava, pediu champanhe pouco antes de expirar, comentando: «Estou a morrer acima das minhas possibilidades.»

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Ernest Hemingway

Ernest Hemingway

Ernest Hemingway nasceu em Oak Park, no Illinois, a 21 de julho de 1899, e suicidou-se em Ketchum, no Idaho, em julho de 1961. Em 1953 ganhou o Prémio Pulitzer, com O Velho e o Mar, e em 1954 o Prémio Nobel de Literatura. Romances como O Adeus às Armas ou Por Quem os Sinos Dobram, além do já citado O Velho e o Mar, consagraram-no como um dos grandes nomes da literatura do século XX.

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Voltaire

Voltaire

François-Marie Arouet nasceu em Paris no ano de 1694 e foi registado como filho de um bem-sucedido notário parisiense, François Arouet, e da sua esposa, embora ele próprio suspeitasse ser filho da Sra. Arouet e de um poeta menor.
Após estudos num colégio jesuíta, no qual apreciou sobretudo as peças de teatro escolares, decidiu lançar-se numa carreira literária e na sociedade: uma e outra lhe valeram duas estadias na prisão da Bastilha (por uns panfletos satíricos primeiro, por uma briga com um nobre depois). Ao sair da prisão deu a si próprio o nome de Senhor de Voltaire. Foi dramaturgo, historiador, filósofo, divulgador científico, homem de negócios, membro da Academia das Ciências de França, agricultor, proprietário, investidor de capital de risco, ativista dos direitos civis e humanos, homem da corte desterrado no campo e, sobretudo, o autor mais célebre, admirado e odiado do seu tempo.
Morreu em 1778, pouco depois de regressar a Paris após um exílio de mais de vinte anos. A sua obra é extensíssima e nunca foi esgotada numa só coleção. A Voltaire Foundation, de Oxford, prevê publicá-la em 85 volumes. Cândido ou o Optimismo é considerado o seu melhor «conto filosófico» e é uma das melhores novelas da história da literatura.

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Johann Wolfgang Goethe

Johann Wolfgang Goethe

Nascido em 28 de agosto de 1749 em Frankfurt, de família abastada, frequentava o teatro já adolescente e, ao que consta, gostava de festejar os seus anos. O que o mundo inteiro agora faz, por ele.
Goethe é um dos grandes escritores da literatura Europeia, o maior, se é que se pode falar de tamanho quando à escrita nos referimos, da língua alemã. Joyce nomeava assim a "Santíssima Trindade" da escrita na Europa: Dante, Goethe e Shakespeare. Dos três, talvez seja o que tem obra menos divulgada, mas todos já ouviram falar do "Fausto" e de "Werther". Foi um dos mentores do movimento Sturm und Drang (mas, apesar de partilhar o interesse romântico pelo sofrimento, pela paixão e pela loucura, não os considerava como última e única solução na vida). Conseguiu um contrato que o fez viver da literatura, coisa rara para a época.
É "A Paixão do Jovem Werther", escrito e publicado em 1774 que lhe traz alguma notoriedade. Por isso, o príncipe Karl August, Duque de Sachsen-Weimar-Eisenach, um apaixonado do "Werther", convidou-o para a corte de Weimar. Goethe organizou vários eventos culturais e escreveu / dirigiu pequenas peças satíricas. No entanto, acabaria por cansar-se da vida na corte e viria a desaparecer numa viagem a Carlsbad, durante o Verão de 1786, dirigindo-se para o sul de Itália, numa carruagem de correio, sem deixar quaisquer explicações. A descrição desta viagem, dos Alpes a Roma, com passagem por Verona e Veneza, é um dos seus relatos mais interessantes e operou em Goethe uma transformação pessoal, ou, como o próprio disse, uma "mudança de pele". Em Roma, onde convive com a colónia artística alemã e suíça, a sua paixão por Faustina dará origem aos poemas "Elegias Romanas" (que no entanto só escreverá mais tarde, no seu regresso a Weimar). Goethe sente-se atraído pelo sexo e pelo classicismo. Em Itália escreveu as obras "Ifigénia", "Egmont", cenas do "Tasso" e do "Fausto", elaborou um diário das suas observações botânicas e pintou mais de mil desenhos e aguarelas.
De regresso a Weimar, em 1788, renegoceia o contrato com o duque Karl August e arranja uma amante, Christiane Volpius, com quem se casará em 1806, inculta e quase analfabeta, que lhe daria 6 filhos, dos quais apenas August sobreviveu, mas que nunca viria a conviver com a sociedade de Weimar. Nesse ano começa a escrita de "Os Anos de Peregrinação de Wilhelm Meister", que terminará em 1829.
Em 1794 torna-se amigo de Schiller, uma amizade conturbada, que se prolongará até à morte precoce deste em 1805.
"Fausto" é a sua grande obra, escrita e reescrita ao longo de vários anos, mesmo décadas, e que conhece entre nós uma tradução, da autoria de João Barrento, ensaísta e professor da Universidade Nova de Lisboa, numa belíssima edição, enriquecida com magníficos desenhos da pintora Ilda David'. O mito de Fausto é bem conhecido e remonta a muito antes de Goethe. A ambição de Fausto fá-lo vender a alma ao diabo, em troca de mais sabedoria, poder e prazer na terra. É uma história com a moral determinada pelo luteranismo: não devemos deixar-nos levar pelo que parece ser fácil de conseguir e de nada vale ganhar o mundo em troca da nossa alma. Mas a história do Fausto de Goethe não é bem assim, e torna-se muito mais complexa. Sabemos logo no prólogo que Fausto não irá para o Inferno. Deus permite que o Diabo (Mefistófeles) conceda poderes a Fausto, acreditando que este os poderá usar de forma criativa. Mas Fausto também pode fazer coisas terríveis, como seduzir a jovem Gretchen, engravidá-la e abandoná-la...
Num interessante artigo de John Armstrong, publicado na "Prospect" e traduzido na revista "Best Of" (outubro de 99), do jornal "O Independente", sobre o que a leitura de Goethe tem para oferecer a um leitor moderno, aquele conclui, referindo-se ao "Fausto":
«Seria uma loucura querer saber o significado de uma obra com esta complexidade, mas seria uma pena não tentar interpretá-la. A peça pode ser compreendida como uma tentativa de Goethe demonstrar como Fausto pode permanecer uma figura de esperança, apesar das peripécias de Gretchen. Goethe lida com a eterna questão do mal. Se acreditarmos que a existência é essencialmente benigna, como se conseguirá acomodar a existência do mal? O horrível comportamento para com Gretchen será o fardo eterno que terá de carregar, mas não o impede de aplicar os seus poderes de forma produtiva. Goethe está implicitamente a afirmar: Claro que coisas más acontecem, e nem sempre são no melhor sentido, mas nem o sofrimento, nem o desespero mostram que tudo é mau. Os humanos são seres complexos e resistentes e podemos sempre optar por outras coisas que valham a pena. Esta é a forma mais sã de otimismo.»
Também João Barrento, em entrevista ao suplemento "Leituras", do jornal "Público" referia: «Há aspetos particulares, micronarrativas, que podem dar ao "Fausto" uma certa atualidade: uma perspetiva muito arguta das relações entre a arte e a ciência; uma certa resistência à teoria a favor de uma permanente valorização da empiria, do concreto, os fenómenos em detrimento do conceito abstrato; a expressão de um certo subjetivismo narcisista, que é muito de Goethe, de um certo hedonismo em que nós hoje nos revemos.» Goethe terminou a última versão do seu "Fausto", meses antes de morrer, em 1832, com 83 anos.

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Um dos maiores génios poéticos de toda a nossa literatura, conhecido mundialmente. A sua poesia acabou por ser decisiva na evolução de toda a produção poética portuguesa do século xx. Se nele é ainda notória a herança simbolista, Pessoa foi mais longe, não só quanto à criação (e invenção) de novas tentativas artísticas e literárias, mas também no que respeita ao esforço de teorização e de crítica literária. É um poeta universal, na medida em que nos foi dando, mesmo com contradições, uma visão simultaneamente múltipla e unitária da vida. É precisamente nesta tentativa de olhar o mundo duma forma múltipla (com um forte substrato de filosofia racionalista e mesmo de influência oriental) que reside uma explicação plausível para ter criado os célebres heterónimos – Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, sem contarmos ainda com o semi-heterónimo Bernardo Soares.
Fernando Pessoa nasceu em Lisboa em 1888 (onde virá a falecer) e aos 7 anos partiu para a África do Sul com a sua mãe e o padrasto, que foi cônsul em Durban. Aqui fez os estudos secundários, obtendo resultados brilhantes. Em fins de 1903 faz o exame de admissão à Universidade do Cabo. Com esta idade (15 anos) é já surpreendente a variedade das suas leituras literárias e filosóficas. Em 1905 regressa definitivamente a Portugal; no ano seguinte matricula-se, em Lisboa, no Curso Superior de Letras, mas abandona-o em 1907. Decide depois trabalhar como «correspondente estrangeiro». Em 1912 estreia-se na revista A Águia com artigos de natureza ensaística. 1914 é o ano da criação dos três conhecidos heterónimos e em 1915 lança, com Mário de Sá-Carneiro, José de Almada Negreiros e outros, a revista Orpheu, que dá origem ao Modernismo. Entre a fundação de algumas revistas, a colaboração poética noutras, a publicação de alguns opúsculos e o discreto convívio com amigos, divide-se a vida pública e literária deste poeta.
Pessoa marcou profundamente o movimento modernista português, quer pela produção teórica em torno do sensacionismo, quer pelo arrojo vanguardista de algumas das suas poesias, quer ainda pela animação que imprimiu à revista Orpheu (1915). No entanto, quase toda a sua vida decorreu no anonimato. Quando morreu, em 1935, publicara apenas um livro em português, Mensagem (no qual exprime poeticamente a sua visão mítica e nacionalista de Portugal), e deixou a sua famosa arca recheada de milhares de textos inéditos.

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Fiódor Dostoiévski

Fiódor Dostoiévski

Fiódor Dostoiévski ( Moscovo, 11.11.1821 - S. Petersburgo, 09.02.1881) foi um dos grandes percursores, como Emily Brontë, da mais moderna forma do romance, exemplificada em Marcel Proust, James Joyce, Virgina Woolf entre outros. Filho de um médico militar, aos 15 anos é enviado para a Escola Militar de Engenharia. de S. Petersburgo. Aí lhe desperta a vocação literária, ao entrar em contacto com outros escritores russos e com a obra de Byron, Vítor Hugo e Shakespeare. Terminado o curso de engenharia, dedica-se a fazer traduções para ganhar a vida e estreia-se em 1846 com o seu primeiro romance, Gente Pobre. Após mais umas tentavivas literárias, foi condenado à morte em 1849, por implicação numa suspeita conjura revolucionária. No entanto, a pena foi-lhe comutada para trabalhos forçados na Sibéria. Durante os seus anos de degredo teve uma vida interior de caráter místico, por ter sido forçado a conviver com a dura realidade russa, o que também o levou a familiarizar-se com as profundezas insuspeitas da alma do povo russo. Amnistiado em 1855, reassumiu a atividade literária e em 1866, com Crime e Castigo, marca a ruptura com os liberais e radicais a que tinha sido conotado. As obras de Dostoiévski atingem um relevo máximo pela análise psicológica, sobretudo das condições mórbidas, e pela completa identificação imaginativa do autor com as degradadas personagens a que deu vida, não tendo, por esse prisma, rival na literatura mundial. A exatidão e valor científico dos seus retratos é atestada pelos grandes criminalistas russos. Neste grande novelista, o desejo de sofrer traz como consequência a busca e a aceitação do castigo e a conceção da pena como redentora por meio da dor.

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Emily Dickinson

Emily Dickinson

«Emily Dickinson (1830-1886), ignorada no seu tempo e até às primeiras décadas do nosso século, é hoje reconhecida como um dos maiores vultos da literatura norte-americana. Uma vida de isolamento literário, marcada pela exclusão gradual do seu círculo de amigos e por uma existência retirada num mundo muito próprio, restringe a fragmentos os seus dados biográficos. Uma escrita enigmática, assente em construções elípticas e num sentido a descobrir, próximo do aforismo, caracterizam o seu universo poético. A confluência da sua vida e obra cativa-nos pelo paradoxo, e é na busca da revelação que radicam o prazer da leitura e o interesse do estudo da poesia dickinsoniana».
Cecília Rego Pinheiro, in «Phala», nº57

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Franz Kafka

Franz Kafka

Franz Kafka nasceu em 1883, em Praga, no seio de uma família da pequena burguesia judia de expressão alemã. Começou a escrever os seus primeiros textos em 1904. Em 1906, terminou os seus estudos universitários, doutorando-se em Direito. Em vida, publicou apenas sete pequenos livros e alguns textos em revistas. De entre estes livrinhos e textos, destaca-se A Metamorfose, que veio a lume em 1915. Esta pequena novela viria a afirmar-se como uma das suas obras de referência. A 3 de junho de 1924, não resistindo à tuberculose diagnosticada em 1917, morre em Kierling, a poucos quilómetros de Viena, deixando três romances fragmentários, que seriam publicados postumamente pelo seu amigo e testamenteiro Max Brod: O Processo (1925), O Castelo (1926) e América (1927), a que se seguiram volumes com contos, cartas e diários. A sua obra, centrada no homem solitário moderno, refém de uma vida absurda, tornar-se-ia uma das mais influentes do mundo literário do século xx.

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Conta Ricardo Araújo Pereira, no livro A doença, o sofrimento e a morte entram num bar, que o ator e comediante Buster Keaton "morreu rodeado de amigos. Pouco antes de morrer esteve muito tempo imóvel, e por isso os amigos não sabiam se ele ainda estava vivo. Um deles sugeriu então a outro: 'Toca-lhe nos pés. As pessoas quando morrem têm sempre os pés frios', ao que Buster Keaton, abrindo os olhos, respondeu: "A Joana d'Arc não". E morreu. Dizer uma última piada antes de morrer parece o final de vida perfeito para alguém que dedicou a sua vida a fazer os outros rir. Mas nem sempre as últimas palavras de alguém estão à altura da vida que levou.

Da mesma forma que aguardamos com antecipação o final de um grande livro, também a última página da história de cada um de nós é alvo de curiosidade e expectativas. Mas essas expetativas são acrescidas quando se trata de alguém que dedicou toda a sua vida às palavras. O escritor russo Lev Tolstoi acreditava que "as palavras de uma pessoa no leito da morte são particularmente significantes". No entanto, hoje em dia, ninguém sabe ao certo quais foram as suas últimas palavras, variando desde a solene frase "Eu amo a verdade" à misteriosa inquietação "Mas os camponeses .... como morrem os camponeses?". Vários escritores proferiram frases igualmente misteriosas, e até inusitadas, antes de morrer.

Conheça as últimas palavras de 10 escritores, algumas das quais pode encontrar, entre muitas outras, no livro Não sei o que o amanhã trará, de F. Pedro-Cyrino.


1. Ernest Hemingway

 

 

"Boa noite, minha gatinha." 

 

Conta-se que pouco antes de morrer, Hemingway isolou-se na sua cama durante dias, revelando sinais de uma depressão grave. Apesar dos medicamentos que tomava e da terapia eletroconvulsiva a que foi sujeito, no dia 2 de julho de 1961, cometeu suicídio com um tiro de uma caçadeira na cabeça. Quem o encontrou, na casa onde viviam juntos, foi a sua mulher, Mary, para quem tinha escrito uma carta onde se despedia com estas palavras.

 

2. Jane Austen

 

 

 

"Não quero nada além da morte."  

 

Embora tenha desvalorizado a doença que lhe levou a vida (e que até hoje não se sabe ao certo qual era) e continuado a escrever, mesmo após estar confinada à cama, conta-se que nos últimos dias da vida de Jane Austen, a escritora já se encontrava num sofrimento tão grande que quando a sua irmã, Cassandra, lhe perguntou se queria alguma coisa, foi esta a sua resposta. Morreu com apenas 41 anos, no dia 18 de julho de 1817.

 

3. Fernando Pessoa

 

 

"I know not what tomorrow will bring."

 

Fernando Pessoa foi internado no hospital de S. Luís dos Franceses, no Bairro Alto, em Lisboa, no dia 29 de novembro de 1935, e veio a falecer no dia seguinte, com um diagnóstico que indicava “cólica hepática” associada a cirrose. Nas suas últimas horas, passadas apenas na companhia do médico, do capelão e de uma enfermeira, fez um último pedido: "Dá-me os óculos!", que alguns biógrafos de Pessoa referem como tendo sido as últimas palavras do escritor. Contudo, após lhe darem os óculos, um pedaço de papel e uma caneta, ainda escreveu, em inglês, a seguinte frase: "I know not what tomorrow will bring" (Não sei o que o amanhã trará), tendo sido este o seu último testemunho escrito.

 

4. Johann Wolfgang Goethe

 

 

 

“Abre a segunda persiana para que possa entrar mais luz... vem minha filhinha, dá-me a tua mão.”

 

Embora as últimas palavras do autor alemão sejam, frequentemente, apresentadas apenas como "Mais luz", a frase completa, dirigida à sua enteada, Ottilie, foi um pouco menos enigmática. O escritor morreu em Weimar, na Alemanha, no dia 22 de março de 1832, de paragem cardíaca. Tinha 82 anos. 

 

5. Oscar Wilde

 

 

"Eu e este papel de parede estamos num duelo até à morte. Ou ele morre ou morro eu."

 

Para um esteta com veia humorística, como era Oscar Wilde, estas últimas palavras não poderiam ser mais apropriadas. Pronunciou-as acerca do papel de parede do quarto de hotel onde se encontrava em Paris, combatendo um caso grave de meningite. Acabou por morrer nesse dia, 30 de novembro de 1900, antes de ver o papel de parede removido. Contudo, 100 anos depois da morte do escritor irlandês, o hotel concretizou o seu desejo, tendo substituído o infame papel de parede.

 

6. Emily Dickinson

 

 

"Tenho de ir. O nevoeiro está a aproximar-se."

 

Tendo morrido vítima de uma doença nos rins, com apenas 55 anos, as últimas palavras de Emily Dickinson foram tão intrigantes quanto os seus poemas. Embora nunca tenha parado de escrever, nos seus últimos dias de vida já só tinha energia para escrever breves notas, tendo escrito esta mensagem num bilhete que endereçou à sua sobrinha. O funeral realizou-se numa biblioteca e, durante a missa, foi lido um poema de Emily Brontë, que era um dos preferidos de Dickinson.

 

7. James Joyce

 

 

"Será que ninguém compreende?"

 

Um homem tão controverso como foi James Joyce não podia abandonar o mundo sem deixar um último mistério. Foi num quarto de hospital, em Zurique, onde tinha sido admitido para uma cirurgia, que expressou esta inquietação, antes de ser induzido num coma que acabou por levar à sua morte. Morreu no dia 13 de janeiro de 1941, com 58 anos, tendo sido enterrado no cemitério Fluntern, em Zurique.
 

8. Franz Kafka

 

 

"Mata-me! Ou serás um assassino!"


As últimas palavras do autor de A Metamorfose foram dirigidas a um médico que não queria dar-lhe uma dose letal de morfina. Embora já mal conseguisse falar, consequência da tuberculose laríngea de que padecia, Kafka conseguiu ainda manifestar o sofrimento em que se encontrava, expressando o seu desejo de morrer.  No entanto, não viu realizada a sua intenção de uma morte indolor e rápida, tendo acabado por morrer de fome, após a sua garganta se ter fechado ao ponto de já não se conseguir alimentar. Tinha 41 anos.

 

9. Fiódor Dostoiévski

 

 

"A minha hora chegou. Devo morrer."

 

Após os médicos terem sido chamados a casa de Fiódor Dostoiévski e terem traçado um prognóstico pouco favorável para a hemorragia pulmonar de que padecia, o autor russo percebeu que a sua hora tinha chegado. Na companhia da sua mulher e filhos, pediu a Anna Dostoiévski que lesse uma passagem da Bíblia às suas crianças. O excerto escolhido continha o que o autor entendeu como profecia: "Mas Jesus respondeu: Deixe que assim seja agora; pois assim convém que façamos, para cumprir toda a justiça” (Mateus 3:15), ao que Fiódor respondeu: "Ouviste? Deixa que assim seja. A minha hora chegou. Devo morrer". Outras versões sobre a sua morte, contudo, sugerem que as últimas palavras dele foram antes uma declaração de amor a Anna, tendo, alegadamente, afirmado: “Eu amei-te e não te traí uma única vez, nem nos meus pensamentos".

 

10. Voltaire

 

 

"Padre, isto não é hora de fazer inimigos."

 

Conhecido por ser um dos pensadores mais brilhantes do período do Iluminismo, é curioso que as últimas palavras de Voltaire tenham, afinal, sido uma piada. Conta-se que no leito da sua morte, com 83 anos, foi visitado por um padre que, decidido a salvar a alma do filósofo deísta, implorou-lhe que renunciasse a Satanás. Fazendo jus ao seu espírito crítico e a um surpreendente sentido de humor (que faz lembrar o de Buster Keaton na altura da sua morte), Voltaire não hesitou, tendo respondido "Padre, Padre... isto não é hora de fazer inimigos". Morreu no dia 30 de maio de 1778, em Paris.
 


Este artigo foi revisto no dia 8 de março, de 2021.

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