Embora seja unanimemente considerado um dos mais importantes poetas da sua geração, a figura de Al Berto continua envolta em mistério, quase 27 anos depois da sua morte. Quem o lê, reconhece o poeta melancólico, quiçá maldito, que fez das palavras bálsamo para a sua solidão. Quem o conheceu, recorda o homem boémio, notívago, “de um humor cáustico, violentíssimo" e “uma joie de vivre impressionante” (José Carlos Guinote in Público).
Recordamo-lo no dia em que completaria 76 anos, a partir de 7 letras que traçam um retrato possível de um homem elusivo que sonhou possuir “a brancura oculta das palavras”.
A…
Podia ser de Alberto Raposo Pidwell Tavares, o seu nome completo, do pseudónimo Al Berto ou de À Procura do Vento num Jardim d'Agosto, o título do seu livro de estreia, publicado em 1977. Curiosamente, iniciou-se na prosa, e enquanto a sua poesia lhe valeu comparações a Rimbaud e Genet, este livro revela fortes influências da geração beatnik, especialmente de William Burroughs, o qual é, aliás, uma das personagens do texto.
L…
De Lunário, o título de uma das suas obras de prosa mais aclamadas. E de Lisboa. Embora tenha nascido em Coimbra (em 1948) e passado toda a sua infância e adolescência em Sines, estudou na Escola Secundária António Arroio em Lisboa e foi lá que viveu nos últimos anos da sua vida.
Faleceu na capital no dia 13 de junho de 1997, com apenas 49 anos, de linfoma, a palavra começada por “l” mais trágica da sua história.
B…
De “(la vie) bohème”. Embora para sempre ligado à cena cultural, noturna, gay e literária de Lisboa na década de 70, foi em Sines que Al Berto viveu o auge da sua vida boémia. A casa senhorial onde viveu com um grupo de amigos após o 25 de abril de 1974, conhecida como o “palácio Pidwell”, foi um verdadeiro ponto de encontro da comunidade hippie da altura. Um lugar de liberdade absoluta onde as drogas e as orgias abundavam, e pessoas de qualquer classe política, social, género e orientação sexual eram bem-vindas. Também durante o seu tempo de estudante de Pintura na École Nationale Supérieure d’Architecture et des Arts Visuels em Bruxelas, viveu numa comunidade de artistas hippies.
E…
No dia 12 de Julho de 2006, foi assinado, na Sala do Conselho da Biblioteca Nacional Pública, o Termo de Doação do Espólio de Al Berto, na presença da sua irmã, Maria Cristina Raposo Pidwell Tavares, e da sua sobrinha, Joana Amaral Tavares. Dele fazem parte sobretudo manuscritos poéticos, incluindo as traduções de que vários dos seus títulos foram objeto, para além de correspondência e apontamentos pessoais e biográficos.
Do seu espólio, resultaram as obras póstumas Dispersos, publicada em 2007 e Diários, publicada em 2012.
R…
De (merecido) reconhecimento a uma das figuras míticas da cultura portuguesa. Embora ainda não tão falado e homenageado quanto alguns dos seus pares, a primeira versão de O Medo, reunindo a sua obra poética de 1974 a 1986, foi reconhecida com o Prémio Pen Club de Poesia em 1988, anteriormente atribuído a grandes vultos da poesia portuguesa como Eugénio de Andrade ou Sophia de Mello Breyner Andresen. Já a 10 de junho de 1992, o poeta recebeu a graduação de Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.
Horto de Incêndio, obra publicada em 1997, é geralmente considerada a sua Magnum opus.
T…
“Tanto mar”. O nome da livraria e editora que Al Berto abriu em Sines no verão de 1975. E também o título de uma canção popular do músico e escritor brasileiro Chico Buarque de Holanda, originalmente composta no mesmo ano, como uma saudação à Revolução dos Cravos.
O…
(Vicente Alves do) Ó. O realizador do primeiro filme biográfico sobre Al Berto que estreou nos cinemas portugueses em 2017. Com o ator Ricardo Teixeira no papel principal, centra-se no período de 1975 a 1978, depois de Al Berto regressar do exílio em Bruxelas e se instalar em Sines. Nesta mesma altura, vive uma intensa história de amor com João Maria do Ó, o já falecido irmão do realizador (protagonizado por José Pimentão), sob o olhar inquisidor da população.