Al Berto em 7 letras, de A a O

Por: Beatriz Sertório a 2024-01-11

Al Berto

Al Berto

Poeta e editor português, de nome completo Alberto Raposo Pidwell Tavares, nasceu a 11 de janeiro de 1948, em Coimbra, e faleceu a 13 de junho de 1997, em Lisboa. Tendo vivido até à adolescência em Sines, exilou-se, entre 1967 e 1975, em Bruxelas, dedicando-se, entre outras actividades, ao estudo de Belas-Artes. Publicou o primeiro livro dois anos depois de regressar a Portugal.
Em mais de vinte anos de atividade literária, a expressão poética assumida por Al Berto, o pseudónimo do autor, distingue-se de qualquer outra experiência contemporânea pela agressividade (lexical, metafórica, da construção do discurso) com que responde à disforia que cerca todos os passos do homem num universo que lhe é hostil. Trazendo à memória as experiências poéticas de Michaux ou de Rimbaud, é no próprio sofrimento, na sua violenta exaltação, na capacidade de o tornar insuportavelmente presente (nas imagens de uma cidade putrefacta, na obsidiante recorrência da morte e do mal, sob todas as suas formas) que a palavra encontra o seu poder exorcizante, combatendo o mal com o mal. É neste sentido que Ramos Rosa fala de uma "poesia da violência do mundo e da realidade insuportável": "a opacidade do mal ou a agressividade do mundo é tão intensa que provoca um choque e um desmoronamento geral", mas "à violência desta destruição responde o poeta com uma violenta negatividade que é uma pulsão de liberdade absoluta, que procura por todos os meios o seu espaço vital.", sublinhando ainda a forma como esta espécie de "grito de fragilidade extrema e irredutível do ser humano, do seu desamparado infinito, da sua revolta absoluta e sem esperança", se consubstancia, ao nível do estilo, num ritmo "ofegante, precipitado, como um assalto contínuo feito de palavras tão violentas como instrumentos de guerra" (cf. ROSA, António Ramos - A Parede Azul. Estudos Sobre Poesia e Artes Plásticas, Lisboa, Caminho, 1991, pp. 120-121). No domínio editorial, a sua atividade pautou-se pela isenção e certa ousadia relativamente às políticas comerciais livreiras dominantes.
Inicialmente seguindo uma estética surrealizante de temática erótica, em O Anjo Mudo (1993) funde prosa e poesia, exprime intertextualidades, numa viagem marginal e purificadora. A quase totalidade da sua obra poética encontra-se coligida em O Medo.
Foi galardoado com o Prémio Pen Club de Poesia em 1987.

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À ausência de ruído, chamamos silêncio. Permanecem apenas as oportunidades de redescobrir os sons há muito esquecidos. E, perante o sossego, conseguimos escutar. “Às vezes, o vento traz frases inteiras” — quando foi a última vez que ouvimos o que tem para dizer? Ler estas palavras de Carla Louro, com as quais arranca a sua estreia na poesia, Entra-se na casa pelo pátio, é ser recordada de que o silêncio também pode ser ensurdecedor. Mais do que tudo, é desejar voltar a ser atormentada por ele.

Embora seja unanimemente considerado um dos mais importantes poetas da sua geração, a figura de Al Berto continua envolta em mistério, quase 27 anos depois da sua morte. Quem o lê, reconhece o poeta melancólico, quiçá maldito, que fez das palavras bálsamo para a sua solidão. Quem o conheceu, recorda o homem boémio, notívago, “de um humor cáustico, violentíssimo" e “uma joie de vivre impressionante” (José Carlos Guinote in Público).

Recordamo-lo no dia em que completaria 76 anos, a partir de 7 letras que traçam um retrato possível de um homem elusivo que sonhou possuir “a brancura oculta das palavras”.


A… 

Podia ser de Alberto Raposo Pidwell Tavares, o seu nome completo, do pseudónimo Al Berto ou de À Procura do Vento num Jardim d'Agosto, o título do seu livro de estreia, publicado em 1977. Curiosamente, iniciou-se na prosa, e enquanto a sua poesia lhe valeu comparações a Rimbaud e Genet, este livro revela fortes influências da geração beatnik, especialmente de William Burroughs, o qual é, aliás, uma das personagens do texto.


L… 

De Lunário, o título de uma das suas obras de prosa mais aclamadas. E de Lisboa. Embora tenha nascido em Coimbra (em 1948) e passado toda a sua infância e adolescência em Sines, estudou na Escola Secundária António Arroio em Lisboa e foi lá que viveu nos últimos anos da sua vida.

Faleceu na capital no dia 13 de junho de 1997, com apenas 49 anos, de linfoma, a palavra começada por “l” mais trágica da sua história. 


B…

De “(la vie) bohème”.  Embora para sempre ligado à cena cultural, noturna, gay e literária de Lisboa na década de 70, foi em Sines que Al Berto viveu o auge da sua vida boémia. A casa senhorial onde viveu com um grupo de amigos após o 25 de abril de 1974, conhecida como o “palácio Pidwell”, foi um verdadeiro ponto de encontro da comunidade hippie da altura. Um lugar de liberdade absoluta onde as drogas e as orgias abundavam, e pessoas de qualquer classe política, social, género e orientação sexual eram bem-vindas. Também durante o seu tempo de estudante de Pintura na École Nationale Supérieure d’Architecture et des Arts Visuels em Bruxelas, viveu numa comunidade de artistas hippies.


E…

No dia 12 de Julho de 2006, foi assinado, na Sala do Conselho da Biblioteca Nacional Pública, o Termo de Doação do Espólio de Al Berto, na presença da sua irmã, Maria Cristina Raposo Pidwell Tavares, e da sua sobrinha, Joana Amaral Tavares. Dele fazem parte sobretudo manuscritos poéticos, incluindo as traduções de que vários dos seus títulos foram objeto, para além de correspondência e apontamentos pessoais e biográficos.

Do seu espólio, resultaram as obras póstumas Dispersos, publicada em 2007 e Diários, publicada em 2012.


R…

De (merecido) reconhecimento a uma das figuras míticas da cultura portuguesa. Embora ainda não tão falado e homenageado quanto alguns dos seus pares, a primeira versão de O Medo, reunindo a sua obra poética de 1974 a 1986, foi reconhecida com o Prémio Pen Club de Poesia em 1988, anteriormente atribuído a grandes vultos da poesia portuguesa como Eugénio de Andrade ou Sophia de Mello Breyner Andresen. Já a 10 de junho de 1992, o poeta recebeu a graduação de Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.

Horto de Incêndio, obra publicada em 1997, é  geralmente considerada a sua Magnum opus.


T…

“Tanto mar”. O nome da livraria e editora que Al Berto abriu em Sines no verão de 1975. E também o título de uma canção popular do músico e escritor brasileiro Chico Buarque de Holanda, originalmente composta no mesmo ano, como uma saudação à Revolução dos Cravos.


O…

(Vicente Alves do) Ó. O realizador do primeiro filme biográfico sobre Al Berto que estreou nos cinemas portugueses em 2017. Com o ator Ricardo Teixeira no papel principal, centra-se no período de 1975 a 1978, depois de Al Berto regressar do exílio em Bruxelas e se instalar em Sines. Nesta mesma altura, vive uma intensa história de amor com João Maria do Ó, o já falecido irmão do realizador (protagonizado por José Pimentão), sob o olhar inquisidor da população.

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