Reconhecido por leitores de todo o mundo como um dos mais importantes romancistas de sempre, Lev Tolstoi nasceu há 197 anos no seio de uma família aristocrática Russa. Facilmente poderia ter tido uma vida linear e previsível neste meio afluente e cheio de prestígio, tendo falecido antes das Revolução Russa de 1917. No entanto, a vida do autor de Anna Karenina tomou rumos surpreendentes, assim como a sua carreira literária. Descubra mais sobre esta figura, que ficou para a História como um dos grandes observadores da sociedade e da natureza humana.
1. A criação de uma obra-prima
Considerado não só a obra-prima de Tolstoi, como um clássico da literatura mundial, o épico de mais de 12.000 páginas, Guerra e Paz, foi reescrito 8 vezes, ao longo de 6 anos. Este longo e árduo processo de escrita deve-se em muito à ajuda preciosa da sua esposa Sofia, que copiou o manuscrito completo, à mão, sete vezes, chegando a copiar certas secções até 30 vezes.
O primeiro manuscrito, publicado em 1863, tinha como título “1805”, referência ao ano em que começa o enredo do livro, ainda, e o autor chegou a considerar adotar o título da peça de William Shakespeare, Bem Está o que Bem Acaba – apesar das duras críticas que teceu a este gigante da literatura, cuja obra considerava aborrecida e sobrevalorizada. Tolstoi publica finalmente o manuscrito final de Guerra e Paz em 1869, e este torna-se num sucesso imediato, que perdura até aos dias de hoje.
Em 2016, Guerra e Paz foi adaptado a série televisiva pela BBC.
2. A excomunhão da Igreja e a renúncia ao luxo
A experiência no exército durante a Guerra da Crimeia, que aborda no seu primeiro livro Infância, Adolescência, Juventude, e a ostentação da aristocracia russa que o rodeava, levaram a que Tolstoi experienciasse uma profunda crise política e espiritual. Tendo renunciado a religião organizada e atacado a sua influência sobre o Estado, foi excomungado pela Igreja Ortodoxa Russa em 1901. Era também cético acerca da genuinidade da abolição da escravatura, que havia sido implementada em 1723, tendo publicado A Escravatura dos Nossos Tempos em 1900, um texto que questiona a natureza e legitimidade das leis e instituições governamentais, e localiza a opressão do povo na violência exercida por aqueles que o governam.
Tornou-se assim um proponente dedicado do pacifismo e do anarquismo cristão, tendo adotado um estilo de vida materialmente asceta – um compromisso que passou pela doação de muitos dos seus bens e pela anulação dos direitos de propriedade intelectual sobre parte da sua obra. No seu testamento, pediu que as suas terras fossem distribuídas pelos camponeses, uma ação que ecoa a mensagem da sua obra De Quanta Terra Precisa o Homem. Esta conversão espiritual e moral influenciou outros líderes espirituais e políticos, como Mahatma Gandhi, e deu origem ao Movimento Tolstoiano.
3. Regras para viver, segundo Tolstoi
Para além da conversão espiritual, Tolstoi criou ainda uma lista de regras segundo as quais deveria viver, de modo a atingir a vida moralmente irrepreensível a que aspirava. Entre elas, contavam-se acordar às 5 da manhã e deitar às 22 horas (sendo que a sesta não poderia demorar mais de duas horas), comer moderadamente e evitar doces, e não tocar em bebidas alcoólicas ou tabaco.
Para além disso, Tolstoi tornou-se vegetariano, considerando a carne uma substância que entorpecia a consciência das pessoas. O seu ensaio The First Step: An Essay on the Morals of Diet (1892) tem vindo a ser partilhado por organizações defensoras do vegetarianismo de todo o mundo desde então.
4. Intrigas literárias e rejeição do Nobel da Literatura
Antes da conversão espiritual, que levou o autor numa demanda para se reconciliar com todas aqueles que tinha ofendido, Tolstoi não poupava críticas a outros escritores. Aquele com quem teve o maior desentendimento foi, talvez, o seu compatriota Ivan Turgenev, sendo que este chegou a dizer de Tolstoi: “Estamos a pólos de distância um do outro. Se eu gosto da sopa, tenho a certeza de que Tolstoi irá detestá-la e vice-versa.” A contenda evoluiu de tal modo que chegaram mesmo a desafiar-se um ao outro para um duelo, acabando, contudo, por preferir cortar relações.
Para além disso, Tolstoi mantinha uma certa tensão com o mundo literário, tendo reagido às múltiplas nomeações para o Prémio Nobel da Literatura – todos os anos entre 1902 to 1906 – com garantias de que o rejeitaria se ganhasse, tendo até pedido que o seu nome fosse discretamente removido da lista dos nomeados. A vitória de autores muito menos consagrados foi causando escândalo nos círculos literários… mas sobre este assunto Lev teve apenas a dizer:
“Primeiro, salvou-me do apuro de ter de gerir tanto dinheiro, visto que dinheiro assim, na minha opinião, só traz o mal. Segundo, sinto-me muito honrado em receber esta simpatia da parte de pessoas que nunca sequer conheci.”
5. A vida doméstica e o os últimos dias
Apesar do seu esforço para rejeitar os confortos materiais, Tolstoi mantinha uma biblioteca pessoal com mais 23 mil livros, escritos em 39 línguas diferentes, sendo ele próprio um verdadeiro poliglota. Vivia com a sua mulher, com quem tinha uma relação longe de perfeita, apesar do esforço e apoio dedicado de Sofia ao trabalho de escrita do marido. O casamento, que se iniciou quando ela tinha 18 anos e ele 34, e produziu 13 filhos, foi detalhado nos diários de Sofia Tolstoi, e pintam a imagem de um homem distante e indiferente à família, cujos ideais o tornavam incrivelmente crítico dos outros e complicavam a sua vida doméstica.
O fim da vida deste autor resultou do crescentre peso destes conflitos e a insatisfação com o seu relacionamento, levando a que este decidisse fugir de casa a meio da noite. Foi encontrado numa estação de comboios em Astapovo, na Rússia, gelado e febril, acabando por morrer no chão do escritório do chefe de estação, no dia 20 de novembro de 1910. Tinha 82 anos.