Os diários de Sofia Tolstoi mostram que os génios também são humanos

Por: Marta Ribeiro a 2023-09-06 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Assinalam-se, dia 9 de setembro, 195 anos desde o nascimento de Lev Tolstoi, nome maior da literatura russa. Escreveu clássicos como Guerra & Paz, Anna Karenina e A Morte de Ivan Illitch. Foi considerado génio, descrito como se de um deus se tratasse, escreveu sobre a vida, a morte e a natureza humana. 
 

Nos diários de Sofia Tolstoi, com quem casou aos 34 anos, vê-se o semi-deus Tolstoi como homem. São memórias que retratam a frustração de viver com um génio quando tudo o que esperava era um marido. 
 

Hoje partilhamos cinco excertos desses diários, autorretratos de uma mulher de grande sensibilidade poética. Casou com 18 anos e esteve ao lado de Lev Tolstoi até 1910, quando o escritor faleceu. 
 

1. 20 de novembro de 1890

“Ele destrói-me sistematicamente ao expulsar-me da vida dele desta forma, e é insuportavelmente doloroso. Às vezes, nesta minha vida inútil, em que estou assoberbada pelo desespero e penso em matar-me, fugir, apaixonar-me por outra pessoa – tudo para não ter de viver com este homem que sempre amei, apesar de tudo. Agora vejo como o idealizei, há quanto tempo recuso perceber que não há nada nele para além de sensualidade. Agora tenho os olhos abertos e vejo que a minha vida está destruída.”
 

2. 14 de dezembro de 1890

“Eu copiei os diários do Lyovochka (Lev) até à parte em que ele escreveu: “Não existe amor, só a necessidade de física de sexo e a necessidade prática de uma companheira para a vida”. Desejei ter lido aquilo 29 anos antes, nunca teria casado com ele.”
 

3. 4 de agosto de 1894

“Ao longo dos anos, o meu marido tem-me desgastado com frieza, e pôs absolutamente tudo em cima dos meus ombros: as crianças, o património, a casa, os livros, os negócios e, depois, com uma indiferença egoísta e crítica, despreza-me. E a vida dele? Anda a pé e de cavalo, escreve um bocado, faz o que quer, nunca levanta um dedo pela família e explora tudo para proveito próprio: os favores das filhas, os confortos da vida, os elogios dos outros, a minha subserviência, o meu trabalho. E a fama, a insaciável sede de fama, continua a guiá-lo. É preciso não ter coração para viver uma vida assim.”
 

4. 25 de julho de 1897 

“O meu marido não é meu amigo; tem sido meu amante apaixonado às vezes, principalmente à medida que envelhece, mas toda a minha vida senti-me sozinha com ele. Não dá caminhadas comigo, prefere refletir em solidão sobre a sua escrita. Nunca teve interesse nos meus filhos, acha isto difícil e fastidioso. A cada um o seu destino. O meu é ser auxiliar do meu marido. E isso é bom; pelo menos servi um grande escritor que é digno do sacrifício.”
 

5. 12 de junho de 1898 

“Hoje estava a pensar porque é que não há mulheres escritoras, artistas ou compositoras geniais. É porque todas as paixões e capacidades de uma mulher com energia são consumidas pela família, amor e marido – e especialmente pelos filhos. Não se desenvolvem outras capacidades, permanecem embrionárias e atrofiam. Quando uma mulher acaba de gerar e educar os filhos, acordam as necessidades artísticas, mas depois já é demasiado tarde e é impossível desenvolver o que quer que seja.”
 

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