Acho que ninguém estava verdadeiramente preparado para que, em pleno 2025, nos víssemos a viver tempos tão estranhos, tempos em que falamos com toda a gente ao mesmo tempo na vida digital e, no entanto, parece que já não sabemos estar com ninguém na vida real. A tecnologia, essa criatura a quem abrimos as portas sem cerimónia, ofereceu-nos canais infinitos para falar com quem quisermos, a qualquer hora do dia ou da noite, mas, enquanto o fazia, ia também construindo corredores silenciosos nos quais a presença real se ia dissolvendo devagar. Nunca estivémos tão ligados, dizem-nos os números, os cabos, as redes. Mas talvez nunca tenhamos estado tão desconfortáveis nessa ligação, porque a ligação não é encontro, e o que cresce nesse espaço híbrido entre o toque ausente e a palavra constante é um medo subtil, quase impercetível, que se entranha nas relações até se tornar normal: o medo dos outros, o medo do olhar, o medo de estar frente a frente sem ecrãs a servir de escudo.
Freud diria que não há nada de verdadeiramente novo neste medo, apenas novas formas de ele se manifestar. A civilização sempre exigiu que o sujeito sacrificasse parte da sua espontaneidade para poder viver em comunidade; sempre existiu um olhar social que julga, conta, avalia. O que mudou não foi a existência desse olhar, mas a forma como aprendemos (ou deixámos de aprender) a habitá-lo. Quando evitamos estar com alguém, não estamos só a escapar ao embaraço, mas também a evitar olhar para partes nossas que só aparecem na presença do outro: o desejo de sermos reconhecidos, o medo de nos expormos e a forma como lidamos com quem é diferente de nós.
É neste contexto que a ansiedade social emerge com tanta força: não como simples timidez, mas como expressão intensa desse confronto interno entre o desejo de ser visto e o medo de sê-lo por inteiro. É aquele medo profundo de estar diante de alguém e sentir que vais ser julgado, observado ou ridicularizado. É o corpo em alarme num simples "olá", como se estivesses prestes a entrar num tribunal invisível onde todos olham para ti. O coração acelera, a boca seca, a mente antecipa cenas desastrosas que quase nunca acontecem… mas só a antecipação já chega para te calar ou fazer fugir.
"Quando evitamos estar com alguém, não estamos só a escapar ao embaraço, mas também a evitar olhar para partes nossas que só aparecem na presença do outro: o desejo de sermos reconhecidos, o medo de nos expormos e a forma como lidamos com quem é diferente de nós."
Há aqui um ponto essencial que ajuda a perceber: quando estamos com alguém, não é só a pessoa que importa, é também tudo o que ela representa. O "outro" é esse espaço invisível no qual somos vistos, avaliados e espelhados. É por isso que os encontros cara a cara mexem tanto connosco: obrigam-nos a estar presentes, sem máscaras, e isso pode ser intimidante.
A tecnologia parece uma boa solução para escapar a este desconforto. Em vez de encararmos o desconforto, abrimos o ecrã como quem puxa um cobertor sobre a cabeça. Sentimo-nos protegidos, mas é só escuridão com acesso a wi-fi e reels. Parece seguro… e durante um tempo é. Mas essa segurança começa a virar prisão. Quanto menos nos expomos, mais medo temos de nos expor. Quanto mais evitamos, mais desaprendemos a lidar com o olhar do outro. A presença real é um músculo: se não o usas, enfraquece. E quando tentas usá-lo de novo, dói. E muito.
Vejo isto todos os dias: jovens que passam horas a conversar online e bloqueiam num café; adultos com carreiras brilhantes que entram em pânico em eventos sociais; adolescentes cuja autoestima depende de likes, mas que tremem quando alguém os encara. O medo cresce porque falta treino. E a única maneira de o desmontar é reaprender a estar presente. Não há truques mágicos. Há prática.
A minha dica? Começa devagar e suavemente. Diz bom dia no elevador. Faz uma pergunta num grupo. Aguenta dois segundos a mais de contacto visual do que o teu reflexo quer. O desconforto é o teu ginásio. Não esperes sentir-te preparado. Se estás à espera de que o medo desapareça no sofá, vais esperar para sempre. Aprende a agir com ele ali ao lado, como um parceiro nervoso que não vai embora, mas pode aprender a dançar contigo. Sai de dentro da tua cabeça. Quando estás ansioso, estás hiperfocado em ti, em cada micro detalhe do teu desempenho. E esqueces-te do essencial: a relação. Olha para a interação, para a pessoa à tua frente, não para o "palco" imaginário no qual achas que estás. E, por fim, revê a história que contas a ti próprio. "Sou estranho." "Vão reparar em mim." "Vou dizer algo estúpido." Essas narrativas moldam a experiência antes mesmo de acontecer. São como filtros distorcidos que transformam qualquer momento social num espelho cruel. É possível reescrevê-los.
Este medo é um sintoma do nosso tempo. Vivemos rodeados de presenças digitais e, ao mesmo tempo, carentes de presença real. Refugiámo-nos na imagem porque o desejo do outro é imprevisível. É mais fácil controlar seguidores e fotos editadas do que olhares. Mas é nesse risco, nesse espaço não editado, que nasce a ligação verdadeira.
Não há atalhos. Mas há caminhos. E todos começam no mesmo sítio: aceitar que o medo não é um inimigo. É um convite. Um convite a voltar a ocupar o espaço partilhado, a olhar e ser olhado, não como quem entra num julgamento, mas como quem reconhece a própria humanidade num espelho vivo.
A tecnologia não precisa de desaparecer. Mas, se a deixarmos substituir a presença, perdemos algo essencial: a voz, os olhares, o toque, a relação humana. É nesse intervalo imperfeito que os encontros verdadeiros acontecem. E é aí que a ansiedade social deixa de ser uma sentença e passa a ser uma oportunidade de regresso à relação e à tua humanidade.