Os animais de estimação mudam a nossa vida

Por: Mariana Caldeira a 2024-11-26

Mariana Caldeira

Mariana Caldeira

Mariana Caldeira (1989) é psicóloga clínica desde 2012. Ao longo do seu percurso, integrou diversas formações e experiências profissionais nas áreas clínica e social, aprofundando o seu trabalho no impacto das experiências precoces, dos vínculos e das dinâmicas familiares na vida adulta.
Em 2021 fundou a Clínica Profundamente, onde, em conjunto com uma equipa de psicólogos e psiquiatras, acompanha histórias de vida de quem procura compreender e cuidar das suas feridas emocionais.
É autora do livro Tudo o que se passa aqui dentro, publicado pela Contraponto, em março de 2024. É coautora e voz do podcast «(im)perfeita mente».

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Os animais de estimação são aliados da nossa saúde e mudam a nossa vida, mas como e porquê? Os animais fazem parte da nossa vida desde sempre, em todos os contextos (alimentação, vestuário, produtos de beleza, arte, ciência, trabalho, etc.). Mas será que a relação entre humanos e animais traz benefícios? E porquê? É isto que vamos tentar perceber com o apoio da investigação científica. 

A ideia de que viver com um animal pode melhorar a saúde humana, o bem-estar psicológico e a longevidade tem sido chamada "efeito de animal de estimação"1. Apesar de a maioria das pessoas referir os benefícios que os animais trazem à sua vida, essas crenças pessoais não constituem uma prova científica. Portanto, temos de olhar para os estudos que têm sido realizados ao longo dos anos.

O primeiro estudo que analisou a associação entre animais de estimação e saúde foi realizado a em 92 vítimas de ataques cardíacos, no qual 28% dos tutores de animais de estimação viveram mais um ano, em comparação com apenas 6% das pessoas que não tinham nenhum animal.2 A partir daí, surgiram diversos outros estudos que comprovaram que acariciar cães e gatos, observar peixes num aquário e até mesmo acariciar uma jiboia reduzem a pressão arterial e os níveis de stresse.

Um dos estudos mais importantes nesta área foi realizado com corretores da bolsa hipertensos, com e sem animal de estimação. Seis meses mais tarde, foram expostos a uma situação de stresse, e os indivíduos com animais de estimação apresentaram um aumento inferior da pressão arterial, comparativamente àqueles que não tinham animais.3

Ao longo dos anos, foram sendo realizados estudos que revelaram, inclusivamente, que quem convive com animais tem uma melhor condição física, dorme melhor e, como consequência, falta menos ao trabalho,4 tem uma autoestima mais elevada, estados de espírito mais positivos, mais ambição, maior satisfação com a vida e níveis mais baixos de solidão.5

Na altura da pandemia e do confinamento a que a maioria das pessoas foi sujeita devido à covid-19, surgiram vários estudos que revelaram que os animais de estimação tiveram um efeito positivo na saúde e bem-estar dos seus tutores.6 Por exemplo, um desses estudos avaliou 5061 pessoas e concluiu que os animais tiveram um papel fundamental para diminuir a depressão, ansiedade, solidão e isolamento.

 

(...) acariciar cães e gatos, observar peixes num aquário e até mesmo acariciar uma jiboia reduzem a pressão arterial e os níveis de stresse.


Perante todas estas investigações científicas, torna-se difícil negar os benefícios dos animais de estimação para a nossa saúde física e psicológica. Porém, vamos agora olhar para a consequência da convivência de alguns grupos específicos com animais de estimação.

Uma dessas situações é-me particularmente familiar, visto que, enquanto psicóloga, intervenho, grande parte das vezes, em questões relacionadas com famílias tóxicas. Alguns autores já vieram defender que os animais trazem benefícios para os humanos, em especial quando estes não possuem uma fonte de afeto ou de vinculação adequada, ou quando experienciam dificuldades nos seus relacionamentos interpessoais.7 Importa, então, olhar para a infância. Quantos adultos não terão sido rejeitados enquanto crianças? Quantos adultos não terão crescido num ambiente de desamor? É aqui — na infância — que os animais de estimação podem fazer a diferença, e pela minha experiência profissional, de facto, fazem.


Os animais trazem significativos benefícios para as crianças e adolescentes, tais como a estimulação do desenvolvimento psicomotor e da linguagem, melhor comunicação não verbal e níveis mais elevados de autoestima.8 Além disso, os animais ajudam as crianças a desenvolver as suas competências de empatia por outros seres vivos, bem como a preservar a Natureza.
 

Os animais ajudam as crianças a desenvolver as suas competências de empatia por outros seres vivos. 


Nesta área, há estudos ainda mais surpreendentes, que demonstram que a maciez e a textura do pelo de alguns animais transmitem a sensação de segurança, o que, para crianças que crescem em contextos de negligência e violência, é particularmente importante. Outros estudos também demonstraram que as crianças que apresentam comportamentos cruéis para com os animais pode ser um indicador de que estão a ser (ou que foram) vítimas de abusos.9

Todos estes trabalhos científicos vêm demonstrar a importância e os benefícios que um animal de estimação pode ter na infância, principalmente em ambientes familiares mais desestruturados. Mas não é só na infância que isto acontece. Na velhice, os estudos também têm vindo a espelhar esta associação entre os animais e o bem-estar humano. Um estudo experimental realizado nos Estados Unidos da América,10 no qual participaram 128 indivíduos com mais de 64 anos, revelou que 75% dos participantes consideraram os animais os seus únicos amigos.

Sabemos que a velhice pode ser um momento da vida com elevados níveis de solidão e de tristeza; os animais têm uma sensibilidade extraordinária — a sensibilidade é a janela pela qual os animais olham para o mundo11 — e existem relatos de animais que encostam a sua cabeça aos tutores ou se enrolam neles, criando bem-estar. Os animais são também muito fiéis e demonstram diariamente o seu amor incondicional pelos seus humanos, o que representa um fator protetor nesta fase de vida.

Os benefícios dos animais têm sido tão estudados que inclusivamente se verificou o seu efeito positivo nas prisões. Na prisão feminina de Perdy, em Washington, as reclusas começaram a treinar cães resgatados, destinados a acompanhar pessoas com deficiência. Verificou-se que cuidar desses animais proporcionou a estas reclusas um aumento da autoestima (afinal, os animais não julgam), uma oportunidade para (re)aprender novas competências (empatia, compaixão, paciência, confiança) e para fazer uma "boa ação". Na prática, a relação das reclusas com os animais revelou uma diminuição da violência, dos comportamentos antissociais, dos suicídios e da dependência de drogas.12

Para terminar, não podia deixar de referir o incrível papel dos animais em contexto terapêutico. A primeira menção ao uso dos animais em terapia foi em Inglaterra, no York Retreat, fundado em 1792 por William Tuke, pioneiro no tratamento de doentes mentais sem métodos coercivos. A terapia assistida por animais integra o animal como parte do processo terapêutico, e tem como objetivo a promoção das funções físicas, psicossociais e/ou cognitivas das pessoas.13 Os "animais de serviço", como são denominados, recebem treino específico para prestar assistência a indivíduos com necessidades especiais. Por exemplo, guiar pessoas com problemas de visão, alertar quem tenha problemas auditivos, puxar cadeiras de rodas, transportar pessoas com problemas de mobilidade e apanhar-lhes objetos, prever crises epiléticas ou intervir em situações de hipoglicemia.


Desta forma, podemos perceber que os animais trazem incontestáveis benefícios para a nossa vida. E ao contrário também seria verdade, contudo, importa referir que essa reciprocidade nem sempre se verifica. O abandono animal tem atingido níveis assustadores por todo o mundo. Estimativas apontam para um número superior a quatro milhões de animais abandonados anualmente, apenas nos EUA. Noutros países, como Austrália e Espanha, os números chegam a ultrapassar os cem mil animais abandonados por ano.14
 

Temos expectativas irrealistas e desajustadas em relação não só ao que o animal precisa como ao que o animal consegue oferecer.


Estudos realizados nesta área revelam que o abandono animal demonstra uma desinformação sobre o comportamento animal e as suas necessidades.15 De forma geral, temos expectativas irrealistas e desajustadas em relação não só ao que o animal precisa (e os seus respetivos encargos financeiros, de tempo e de energia), como ao que o animal consegue oferecer (relativamente ao comportamento).

Embora existam cada vez mais campanhas que promovem a adoção responsável de animais, a verdade é que o saldo continua negativo. Ter um animal de estimação exige uma grande responsabilidade, porque ele vai depender inteiramente dos nossos cuidados. Os animais dão-nos tudo, mas também precisam de condições para viver bem (abrigo, alimentação, vacinação, cuidados médicos e de higiene, etc.).

Mas nem tudo parece ser um mar de rosas, até porque os animais têm uma esperança média de vida mais curta, o que implica necessariamente processos de luto e de gestão de perdas que são muito significativas para os tutores. 

 

Os animais dão-nos tudo, mas também precisam de condições para viver bem.


Os animais de estimação mudam a nossa vida, em todos os sentidos, porque ficamos responsáveis por outro ser vivo, mas também porque recebemos inúmeros benefícios. E os humanos também podem mudar a vida de um animal de uma forma muito marcante. Afinal, todas as relações exigem reciprocidade.
 


1 Allen, K. (2003). Are pets a healthy pleasure? The influence of pets on blood pressure. Current Directions in Psychological Science, 12, 236–239.
2 Friedmann, E., Katcher, A., Lynch, J., & Thomas, S. (1980). Animal companions and one-year survival of patients after discharge from a coronary care unit. Public Health Reports, 95, 307–312.
3 Allen, K., Shykoff, B. E., & Izzo, J. L. (2001). Pet ownership, but not ACE inhibitor therapy, blunts home blood pressure responses to mental stress. Hypertension, 38, 815–820.
4 Headey, B., Grabka, M., Kelley, J., Reddy, P., Tseng, P. (2000). Pet ownership is good for your health and saves public expendidure too Australian social monitor. Melbourne Institute of Applied Economic and 
Social Research, 5(4), 93-99. 
5 El-Alayli, A., Lystad, A. L., Webb, S. R., Hollingsworth, S. L., & Ciolli, J. L. (2006). Reigning cats and dogs: A pet-enhancement bias and its link to pet attachment, pet–self similarity, self-enhancement, and well-being. Basic and Applied Social Psychology, 28, 131–143. 
6 Kogan, L. R., Currin-McCulloch, J., Bussolari, C., Packman, & Erdman, P. (2021). The psychosocial influence of companion animals on positive and negative affect during the covid-19 pandemic. Animals, 11(7), 1-25.
7 Amiot, C. E., & Bastian, B. (2015). Toward a psychology of human-animal relations. ; Psychological Bulletin, 141(1), 6-47. 
8 Andrew T. B, Edney B. A. (1995). Companion animals and human health: an overview. Journal of the Royal Society of Medicine, 88,704-708.
9 Levinson B. M. (1972). Man, animal, nature. Modern Veterinary Practice, 35-41.
10 Peretti, P. (1988). Elderly-animal friendship bonds. Panminerva medica, 30(3), 188-191.
11 Mosterín J. (1998). Vivan los animales! Editorial Debate. Madrid.
12 Estivill S. (1999). La terapia con animales de compañía. Tikal Ediciones. Barcelona.
13 Davis J. (1988). Animal-facilitated therapy in stress mediation. Holistic Nurs Pract, 2(3), 75–83.
14 Perdomo, E. B., Araña Padilla, J. E., & Dewitte, S. (2021). Amelioration of pet overpopulation and abandonment using control of breeding and sale, and compulsory owner liability insurance. Animals, 11(2), 1-10. 
15 Monteiro, S. (2022). Caracterização dos Fatores Associados ao Abandono e Adoção de Cães em Lisboa. Universidade de Lisboa.

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