Numa intervenção parlamentar em 2 de abril de 1982, Natália Correia afirmou estar contra a revisão inconstitucional da Constituição de 1976 e contra tudo o que nela fosse feito para a desfigurar. Este é um tema com o qual acabas por te cruzar, direta ou indiretamente, ao longo dos últimos anos.
A Constituição de 1976 foi o corolário do nosso percurso e de um passado que implicou mais de 40 anos de ditadura, por isso, temos de olhar para esse documento quase como um documento conjunto que olha tanto para trás como para a frente. É o resultado da História, de ensinamentos, de erros, que permite, de alguma maneira, colmatar ou resolver, mas também é uma inspiração de futuro, é um documento que pretende salvaguardar tudo aquilo que não estava salvaguardado, mas também projeta uma ideia de país, do país sonhado. E esse país sonhado era atual em 1982, como ainda é atual nos dias que correm. Nós temos, principalmente no que diz respeito à questão do Preâmbulo, que é, no fundo, a parte mais polémica e que leva a maiores discussões, de olhar com essa perspetiva de aprendizagem sobre o passado e de perspetiva sobre o país sonhado que ainda estamos a construir, que ainda há de vir. E nesse aspeto, e aqui fazendo a ponte com o meu novo livro, No Meu Fim Está o Meu Começo (Quetzal), há esta ideia de circularidade no próprio texto constitucional, em que o teu fim e o teu objetivo último, o tal país sonhado, tem, em si, o teu começo: de onde vieste e qual foi a tua história e esta ligação muito íntima que não pode ser quebrada.
Especialmente importante nos dias que correm.
Nós agora falamos muito de que não temos memória, de que estamos a perder a memória, e que velhos medos e velhas ameaças estão a ressurgir. Porque, de repente, vivemos num mundo tão fragmentado, em que a informação está reduzida quase ao título ou ao post ou aos 200 e poucos caracteres, em que todo o contexto é sonegado e as coisas são-nos servidas como se tivessem acabado de nascer. E é quase disfuncional, porque tu olhas para determinados discursos, determinadas intervenções, determinadas propostas de alteração às leis e começas a pensar: mas ninguém leu livros de História? E a Constituição tem de ter peso, mas não no sentido negativo, tem de ter uma certa capacidade de imutabilidade, porque tem de levar consigo esse lastro da História no sentido da aprendizagem. Nós chegámos àqueles artigos porque penámos muito e nós sabemos quem é que penou mais. O meu livro parte de histórias pessoais para uma conversa com uma História mais universal, em que questões que atravessam a sociedade são abordadas e em que as histórias pessoais servem quase como uma lente para um gesto até mais político.
O que podes mais dizer sobre No Meu Fim Está o Meu Começo, que chega às livrarias em abril?
Grande parte do romance é passado em retrospetiva, com a personagem a voltar atrás, à sua infância e a sua infância foi passada durante o Estado Novo, portanto, todas as questões de desigualdades sociais, de violência estrutural de género, que eram naturalizadas como o não teres direito à infância, e as desigualdades sociais que vêm de não teres acesso à educação, à saúde, de tudo isso que está explanado na Constituição de 1976, tudo isso é abordado através de casos pessoais, mas que, em última instância, se cosem aos grandes movimentos da História.
Tem semelhanças com os teus últimos romances?
De há três romances para cá, eu deixei de usar o narrador omnisciente que tudo sabe e que conhece o interior e o exterior das personagens, comecei a achar que esse olhar não era um olhar honesto para com o leitor, porque essa voz — que é um bocadinho voz de Deus — não existe. Eu percebo que seja cómodo para um romancista ter essa visão global de tudo, do interior e do exterior, do futuro e do passado, mas eu achei que era um olhar muito mais humano e muito mais próximo do leitor acompanhar as personagens nas suas dúvidas, saber tanto quanto elas sabem, descobrir informação à medida que elas conseguem descobrir, enganar-me como elas se enganam. Nós sabemos que a memória não é isenta, não é absoluta, está contaminada por um conjunto de situações, nomeadamente, pela nossa própria interpretação e pela informação que temos dos acontecimentos, e eu quis que este romance, à semelhança dos outros, também levasse o leitor nessa viagem, que é uma viagem de cumplicidade. Mas a voz que narra a história é uma voz muito diferente da voz anterior. No livro Na Memória dos Rouxinóis (Quetzal, 2018), estávamos a falar de um biógrafo homossexual, intelectual, que estava a escrever a biografia de um matemático, o que nos projeta para um tipo de discurso muito próprio, para uma classe social e intelectual muito distinta; neste mais recente, estamos a falar de uma enfermeira que depara com a doença degenerativa da mãe, uma mãe com quem nunca conseguiu estabelecer laços afetivos satisfatórios. Estamos a falar de uma relação entre mãe e filha amputada muito pela falta de informação.
"E a Constituição tem de ter peso, mas não no sentido negativo, tem de ter uma certa capacidade de imutabilidade, porque tem de levar consigo esse lastro da História no sentido da aprendizagem. Nós chegámos àqueles artigos porque penámos muito e nós sabemos quem é que penou mais."
Fruto da época em que viviam?
Sim, porque essa enfermeira é filha de pai incógnito, uma coisa que existia antes do 25 de Abril e passou a ser proibido, nunca soube quem era o seu pai e a mãe sempre se revelou uma mulher com muitas camadas, que só se deixava conhecer à superfície. E quase como corolário irónico de tudo isto, ela, de repente, começa a esquecer porque tem uma doença degenerativa e esta degradação cognitiva da mãe tem vários efeitos em ricochete, o primeiro é um impulso maior da filha para reconstruir a sua própria história.
Correr contra o tempo antes que se apague a memória…
Exatamente, de correr contra o tempo. E, depois, dá-se uma espécie de aproximação à mãe através da narrativa, através dessa história que começa a ser criada. E isto tem muito de bonito, mas também tem algo de perverso, que é esta ideia de que a aproximação entre mãe e filha é quase um sintoma da própria doença.
Regressas a dois temas fortes do teu trabalho dos últimos anos: as mulheres e a memória.
A verdade é que estou a voltar a temas dos quais talvez nunca tenha saído. Para mim, era muito importante que este livro tivesse uma voz feminina pelos temas que são abordados: a ideia do amor que não é incondicional, mas que também significa suportar, da forma como a sociedade vê a mulher como a perpétua cuidadora, que junta o cuidado e, ao mesmo tempo, também parece que é ela que transporta a herança familiar e, depois, a questão da memória e da vida não como uma história que se conta em linha reta, mas mais como uma manta de retalhos com muitos fios puxados. Tento contrariar muito esta ideia da história unívoca com este livro, nós muitas vezes falamos de história de vida, mas é um bocadinho enganador porque parece que todos os episódios que não fortaleçam aquela história de vida devem ser eliminados, não devem persistir, e daí também a escolha do título que eu fui buscar a um poema do T.S Elliott, que é esta ideia de presente e de futuro, sempre inevitavelmente agarrado ao passado. Não é uma ideia de linha reta é uma ideia de circularidade, em que a tua origem, a tua raiz, a tua história obrigatoriamente te explica naquele momento e vai projetar-te para depois. E quem diz na história das pessoas diz na história dos países. Não querendo revelar o fim, mas, quando há estes lugares de dor e de silêncio, de ausência de explicação entre gerações, isto geralmente tende a perpetuar-se. E, reforço: nos países, é igual, na história das culturas, é igual, se não falamos de racismo, este racismo vai ser estrutural e vai perpetuar-se, se não falamos de violência doméstica, a violência doméstica vai perpetuar-se, tens de te reconstruir do ponto de vista de História, e é isso que esta personagem faz, para, no fundo, cortar este ciclo de violência estrutural e de ausência de ligação intergeracional. E ela percebe atempadamente que não pode perpetuar esse sentimento para a geração a seguir, neste caso, para a sua filha, para que aquilo consiga ser resolvido e consigam progredir.
"De há três romances para cá, eu deixei de usar o narrador omnisciente que tudo sabe e que conhece o interior e o exterior das personagens, comecei a achar que esse olhar não era um olhar honesto para com o leitor, porque essa voz — que é um bocadinho voz de Deus— não existe."
A biografia da Natália Correia (O Dever de Deslumbrar, Contraponto, 2023), a escrita dos argumentos das séries Três Mulheres (RTP, 2018), Mulheres às Armas (TVI, 2025 , nomeada para os Prémios Sophia na categoria de melhor série), tudo isto se cruza. Esta protagonista é produto de tudo o que foste lendo e estudando até chegar a ela?
Sim, um escritor é uma matéria rochosa sedimentar, és sempre feita de sedimentos, que é aquilo sobre o qual pensas, vês, lês, escreves, e isso torna-nos um bocadinho obsessivos, estamos a viver situações e parece que estamos sempre em metatexto, sempre a pensar como é que isto se traduz em palavras. E há temas que nos puxam como buracos negros, até porque, muitas vezes, parece que, quanto mais conheces um tema específico, mais tens consciência da tua ignorância sobre ele. E é através da escrita que eu encontro muitas vezes as respostas. Eu não uso o termo autoficção porque acho que os escritores são uma matéria demasiado densa para que tudo o que passe por eles não fique de alguma forma contaminado pela sua própria história e visão, por isso, acho que a ideia de autoficção é um bocadinho um pleonasmo. Mas sem dúvida que este livro é o livro mais pessoal, no sentido que, depois da biografia da Natália Correia, eu, de alguma maneira, venho abordar a biografia da minha própria família. Transformada, porque olhamos para este livro e é uma mentira sobre a história da minha família, mas há temas que são abordadas no livro porque eu cresci com eles.
"(...) acho que os escritores são uma matéria demasiado densa para que tudo o que passe por eles não fique de alguma forma contaminado pela sua própria história e visão, por isso, acho que a ideia de autoficção é um bocadinho um pleonasmo."
E foi fácil desconstruíres isso e tornares a verdade numa mentira?
Sim. A minha mãe é filha de pai incógnito e cresceu, à semelhança da personagem, num daqueles bairros que começaram a surgir à volta de Lisboa, na sequência do grande êxodo rural que houve nos anos 1950, 1960, e começaram a surgir os bairros de barracas, clandestinos, à volta de Lisboa. Quando eu digo que este romance é biográfico, é no sentido em que descreve um movimento, um desequilíbrio, um ambiente, e empresta esse lugar — que muitas vezes não é um lugar delimitado, é um lugar sentimental — à escrita.
Há episódios em que te aproximas mais da história real tal como aconteceu?
Sim. A minha mãe, quando tinha seis anos, foi raptada por uma família rica do bairro onde vivia com a minha avó. Uma senhora muito bem vestida entrou em casa da minha avó e levou a minha mãe, porque a senhora queria ter uma menina e era uma altura em que, efetivamente, as pessoas ricas podiam ir aos bairros pobres e levar crianças, e não havia consequências. E viveu durante alguns meses em casa de uma família, nas Avenidas Novas. E esta história tem este ponto de partida, que é um ponto de partida real, e, depois, a ficção faz o seu trabalho. Há naturalmente diferenças muito significativas entre a história da minha mãe e a história desta mulher, e a principal é que a minha personagem é uma mulher que tem os braços e as mãos presas ainda a episódios que ela própria não consegue perceber, e que lhe toldam os movimentos e não permitem que ela viva em pleno a relação até com as pessoas que lhe são mais próximas, nomeadamente a filha. A minha mãe é o oposto disso. É uma pessoa extremamente apaziguada, sem nenhum tipo de ressentimento e que se relaciona com o outro com uma enorme disponibilidade e confiança. E, portanto, sim, há sempre diferenças, mas, se tivesse de escolher de tudo o que fiz até agora, uma obra que fosse mais próxima da minha história privada, familiar, seria esta.
Dizias das Três Mulheres (Natália Correia, Vera Lagoa e Snu Abecassis) que eram mulheres com um pescoço muito longo. É também importante contar a história das mulheres com um pescoço mais curto, mas que, se calhar, até se inspiraram nestas mulheres que gravitavam na sociedade portuguesa de então, porque também elas fizeram parte da História?
Sim, absolutamente. Esta história é uma história feita de anónimas. Eu gosto de ter protagonistas profundamente humanos, daí não querer a voz de Deus para lhes contar a história, por uma questão de justiça. A minha protagonista está longe de ser uma pessoa imaculada, sem defeitos, na verdade, não é isso que pretendo, normalmente, a perfeição, no caso da literatura, afasta-me, não me aproxima, mas a minha preocupação é que a consigamos entender na sua intimidade, nos seus medos. E a verdade é que mesmo essas mulheres de pescoço longo são, tantas vezes e quase sempre, mulheres comuns. Mesmo quando eu fiz a biografia da Natália, tive sempre essa preocupação: não a colocar num pedestal, estava a fazer um péssimo trabalho se o fizesse.
"Um escritor é uma matéria rochosa sedimentar, és sempre feita de sedimentos, que é aquilo sobre o qual pensas, vês, lês, escreves [...]."
Nem ela gostaria…
Ela, de todo, não gostaria. Porque, efetivamente, muitas vezes, o rasgo, o milagre comum, aquele que te emociona e que te pode transformar vem da falha, vem do erro, vem de sermos humanos. E eu sou muito inspirada por esse gesto largo dentro da normalidade. Acho que é fácil sermos levados na carruagem dos dias e alguém que tem um gesto que, de repente, desequilibra, que diz não, que se revolta, dentro da sua condição, que não é uma condição especial, comove-me muito mais do que os grandes feitos heroicos. Este livro vive muito disso, desse heroísmo banal, mas absolutamente necessário para nós, enquanto sociedade, não nos despersonalizarmos, não deixarmos de olhar para o outro. Eu tenho um enorme medo dos poderes intermédios, acho que é aí que começa todo o mal. Mas também acho que é nesses poderes intermédios, que são os nossos — que não temos cargos de decisão, que não podemos começar ou acabar guerras —, que o mundo pode ser salvo todos os dias. Está estudado: o nazismo instalou-se quase como um sistema fordista, de produção em série, em que cada pessoa tinha só uma pequena tarefa, um gesto, mas, no conjunto, estavam a construir uma máquina assassina. E alguém que descarrila…
Que rompe…
Que rompe, que passa pela brecha, que, estando enfiado dentro da máquina, consegue levantar um bocadinho mais a cabeça e ver à superfície para onde é que está a ir, esses casos são os que mais me comovem.
Cada vez mais é importante que haja muitas cabeças a espreitar pela brecha. A literatura pode ajudar também as pessoas a pensar sobre os males do mundo?
Eu não acho que os livros vão salvar o mundo, eu não acredito nisso, conheço tanta gente que lê muito e é péssima pessoa à mesma. Mas também convém perguntar-lhes o que é que leem [risos]. A cultura não é, em si, garante de nada, mas tem um dom perfeitamente humano, que é o dom da alteridade, que é a capacidade de ouvirmos e escutarmos a voz e o pensamento de pessoas totalmente diferentes de nós. E a curadoria do algoritmo ainda não chegou aos livros, eu, quando abro um livro, não vou receber certamente um reforço das minhas opiniões, vai ser algo que me vai interpelar das mais diferentes maneiras, e eu tenho um profundo desejo, quando começo um romance, que esse romance me interpele e me deixe desconfortável e, se calhar, até me vai irritar a determinado momento e eu vou ter o desejo de parar um pouco e, se calhar, depois, vou retomar, mas, se me interpela pelas razões certas, eu estou inevitavelmente a crescer, a expandir-me, a tornar-me mais humana.
Que é o contrário das bolhas de informação na internet, que nos estão a reduzir.
Tanto que a minha obsessão por vozes femininas é porque, efetivamente, há um desequilíbrio enorme que continua a existir. Mesmo quando contamos a história do nosso país, a maior parte dos discursos oficiais são discursos masculinos. No caso das Mulheres às Armas, interessou-me muito poder contar não a história de quem calçou as botas e vestiu o camuflado, mas a história das mulheres que ficaram quando os homens partiram para a guerra. Porque, até hoje, a história que permanece é a deles. Quando deixarem de me perguntar porque só escreves sobre mulheres, se calhar, já está na hora de deixar de escrever só sobre mulheres. Porque, se essa pergunta ainda se faz, porque eu não vejo ninguém a perguntar porque os seus protagonistas são todos homens, ainda continua a ser pertinente escolher um olhar e uma visão feminina.
Estreaste-te recentemente na realização com uma curta-metragem cuja protagonista também é feminina.
É uma mulher o centro e o tema também é reincidente. Filmei em Nova Iorque, na sequência de um módulo de filmmaking que fiz na New York Film Academy, tinha muitas condicionantes, muitas limitações, sobretudo do ponto de vista técnico: tive de fazer a curta-metragem em apenas quatro horas, não podia ter som, não podia ter diálogos, não podia usar luz, não podia usar determinados movimentos de câmara, e isso foi absolutamente maravilhoso. Criei a história de uma mulher que teve um trauma e ficou com um problema severo de perda de memória, então, é guiada por Nova Iorque através de alarmes que recebe no seu telemóvel e que lhe dizem o que pode ou não pode comer, onde tem de ir, e percebemos que ela, no fundo, é guiada, todas as semanas, ao memorial do 11 de Setembro, onde vai prestar homenagem a uma pessoa que perdeu durante os ataques às Torres Gémeas. Esta história é uma metonímia do que é a América hoje, uma América sem memória, que vive de alarmes diários e de ações irrefletidas que a levam sempre ao mesmo lugar de dor.
"Que rompe, que passa pela brecha, que, estando enfiado dentro da máquina, consegue levantar um bocadinho mais a cabeça e ver à superfície para onde é que está a ir, esses casos são os que mais me comovem."
Encontraste outro palco para te expressar ou, no fundo, é o mesmo?
No caso da realização, sinto que ainda estou a nadar na piscina dos pequeninos, mas a verdade é que é sempre cumulativo, tudo o que faço do ponto de vista da realização é a forma como olho para as histórias. O cinema tem algo muito poderoso, que é o silêncio, que não existe na literatura. É o ganhar uma nova dimensão para contar de alguma maneira as mesmas histórias, mas através da imagem. Já escrevi a minha próxima curta-metragem e já vou gravar em setembro.
"O cinema tem algo muito poderoso, que é o silêncio, que não existe na literatura. É o ganhar uma nova dimensão para contar de alguma maneira as mesmas histórias, mas através da imagem."