Vamos ao teatro? 4 peças inspiradas na literatura

Por: Bertrand Livreiros a 2023-05-03 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Como medir a intensidade de um actor? Perguntava Gonçalo M. Tavares, numa crónica escrita no Jornal de Letras (31 janeiro 2018), acrescentando: “Não há fita métrica nem balança, isso é evidente, um intensitómetro (medidor de intensidade estética) seria excelente mas não existe, já o sabemos - nem sempre os instrumentos científicos acompanham o delírio estético. Intensidade de interpretação do actor: ainda nenhum aparelhómetro, no século XXI, foi capaz de nos esclarecer.” Enquanto o dito aparelhómetro não é inventado, sintamos o teatro à flor da pele, a entrar por todos os poros e a fazer-nos voar. Vamos ao teatro?


1 - “Monólogo de uma mulher chamada Maria com a sua patroa” é o título roubado clandestinamente a um texto do livro Novas Cartas Portuguesas, e que dá o mote para este espetáculo levado ao palco por Sara Barros Leitão. Parte da criação do primeiro Sindicato do Serviço Doméstico em Portugal, em 1974, para contar a história, ainda pouco conhecida, ainda pouco contada, ainda pouco reconhecida, ainda pouco valorizada, do trabalho das mulheres, do seu poder de organização, reivindicação e mudança. Esta é a história do trabalho invisível que põe o mundo a mexer. É a história das mulheres que limpam o mundo, das mulheres que cuidam do mundo, das mulheres que produzem, educam e preparam a força de trabalho.


2 - Eugene O’Neill compôs esta “peça de antigas penas, escrita a lágrimas e sangue” entre 1939 e 1941, mas a autobiográfica Longa Jornada Para a Noite só seria publicada e representada postumamente, em 1956, a pedido do autor. É como se ele fizesse suas as palavras de Jamie, um dos quatro membros da família Tyronne: “Não consigo esquecer o passado. Esse é que é o inferno.” O crítico Harold Bloom notou que “nenhum dramaturgo americano igualou O’Neill na descrição das tormentosas realidades que afligem a vida familiar no mundo ocidental”. Para companheiros de estrada desta Longa Jornada, o Ensemble convocou um conjunto de nomes indissociáveis da nossa identidade artística. Da tradutora Luísa Costa Gomes ao encenador Ricardo Pais, da atriz Emília Silvestre aos atores João Reis e Pedro Almendra. Um ensemble capaz de conferir espessura a estas criaturas a um tempo vulneráveis e implacáveis, sarcásticas e melancólicas, gagas e eloquentes. “Gaguejar é a eloquência nativa da nossa gente, o povo do nevoeiro.”


3 - O general recebe a visita de Kónrad, seu amigo de infância, quarenta e um anos depois da fuga deste, impulsionado por uma necessidade vital de verdade. Confronto final para, enfim, conhecer o que se terá passado na realidade entre Kónrad e Krisztina, sua mulher, um fantasma que, ainda agora, paira entre os amigos. Amor e amizade, ciúme e traição, vingança e relações impossíveis: confissões apenas sugeridas. Parábola sobre o tempo que passa e o que a memória retém. Uma verdade, várias realidades. Nini, a terceira personagem é a memória do espaço onde se desenrola a tragédia. Tudo viu, tudo sabe, ganhou a distanciação que traz o tempo e permite a tolerância e a aceitação. Este é o projeto teatral que o TrêsMaisUm leva agora à cena a partir de As Velas Ardem Até ao Fim, romance célebre de Sándor Márai, o maior escritor húngaro do nosso tempo.
 

4 - “Errante e confuso, perdido em mim mesmo, pouco feliz, contraditório, / Vacilo, olho fixamente, curvo-me e paro”. Os Adormecidos, de Walt Whitman, no Centro Cultural Malaposta, até 21 de maio.
 

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