As vozes da revolução soam a poesia

Por: Sónia Rodrigues Pinto a 2021-07-23 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

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Jorge, o mais "Amado" escritor brasileiro

Nasceu Jorge Leal Amado de Faria mas foi como Jorge Amado que ficou conhecido no Brasil e por todo o mundo. Autor de obras de sucesso como Gabriela, Cravo e Canela, Capitães de areia ou, para o público infantojuvenil, O gato malhado e a andorinha Sinhá, foi um dos autores brasileiros mais traduzidos e também um dos mais acarinhados pelos leitores. Embora já nos tenho deixado há vinte anos, no final deste mês é publicado um novo livro de memórias do autor, intitulado Navegação de Cabotagem (Dom Quixote), no qual relata episódios caricatos da sua vida, desde uma bebedeira com Pablo Neruda, uma reunião política com Picasso, ou uma visita ao bordel ou ao terreiro de candomblé com Carybé ou Dorival Caymmi. 

Jorge Luis Borges, o eterno bibliotecário

Hoje, comemoramos 122 anos do nascimento deste autor que, mesmo cego, viu o mundo e as pessoas mais profundamente pois, como canta Chico Buarque, “Os poetas, como os cegos, podem ver na escuridão”.

Consegue adivinhar qual é o livro infantojuvenil português mais popular de todos?

Todos conhecemos os grandes clássicos infanto-juvenis da literatura mundial, como O Principezinho, Alice no País das Maravilhas ou As Aventuras de Pinóquio, e os livros que fazem parte da infância de todas os portugueses, como a coleção Uma Aventura ou os contos de Sophia de Mello Breyner. No entanto, já parou para pensar quantos livros infantis de outros países realmente conhece?

“Aqueles que queimam livros, mais cedo ou mais tarde, acabam também por queimar pessoas.” A frase do poeta Heinrich Heine (1797-1856) é como um eco que se mantém atual. A censura assume várias formas e não discrimina países ou continentes. Pode atacar a comunicação social, como prova um estudo do Conselho Europeu para a Proteção de Jornalistas1 que relata como, desde o início da pandemia, a liberdade de imprensa tem sido cada vez mais comprometida. Pode atacar a mais forte das democracias, como comprova o ataque ao Capitólio, em Washington, em janeiro de 2021. E pode ultrapassar a barreira da humanidade, fazendo-nos reviver a grande pergunta de Primo Levi sobre “se isto é um homem”.


Foi em fevereiro de 2021 que uma junta militar se apoderou do governo de Myanmar, prendendo o presidente Win Myint e a Conselheira de Estado e vencedora do Prémio Nobel da Paz de 1991, Aung San Suu Kyi. A tentativa de repressão, pelas forças militares, das manifestações contra este coup d’état já causou a morte de mais de oitocentos civis nos últimos meses, incluindo mulheres e crianças, de acordo com a Associação de Assistência a Presos Políticos2.


Todos os dias, nos telejornais, são apresentadas fotografias de pessoas acusadas dos crimes políticos mais variados. Entre eles, encontram-se médicos, estudantes, atores, jornalistas e até bloggers de beleza3. O resultado das interrogações está à vista de todos, com contusões e feridas que servem para mostrar à população birmanesa o que acontece quando se protesta contra o novo regime.

Em “A poesia é uma arma carregada de futuro”, Gabriel Celaya (1911-1991) falava de uma “poesia-ferramenta”, que é como o “canto que dentro levamos”. São versos que espelham a realidade em Myanmar, onde as forças no poder olham para a poesia como uma arma capaz de revolucionar o povo, chegando ao ponto de a quererem silenciar. Foi assim que mais de trinta poetas foram capturados e pelo menos quatro morreram. Esquecendo-se, como relembra o poeta espanhol, que “a poesia é necessária / como o ar que exigimos treze vezes por minuto”.

 

A REVOLUÇÃO DO CORAÇÃO POÉTICO


K Za Win viveu num mosteiro budista até ao dia em que decidiu abandonar a comunidade para se entregar a essa religião que é a poesia. Antes de morrer, o poeta escrevera nas redes sociais: “Embora tenha um ponto de vista diferente do vosso, darei a minha vida por todos vocês”. Acabou por profetizar a sua morte, ao ser baleado num protesto em Monywa. Tinha 39 anos. No seu funeral, Ko Khet Thi declamou um poema dedicado a todas as vítimas que perderam a vida às mãos do regime. Foi capturado e interrogado, aparecendo morto poucos dias depois.

 

O poeta K Za Win / © Autoria desconhecida, via The New York Times

 

They began to burn the poets
When the smoke of burned books could
No longer choke the lungs heavy with dissent.

Eles começaram a queimar os poetas
Quando o fumo dos livros queimados não pôde
Mais sufocar os pulmões carregados de dissidência.

 

Ao longo da História, muitos foram — e continuam a ser — os governos que tentaram sufocar a literatura, esquecendo- se de que o livro é uma arma4. Entre os ativistas que continuam a protestar, para além do medo e do pânico, nasce também uma urgência de resistência em nome da liberdade e da poesia. O poeta Ko Kyi Zaw Aye admitiu: “Tenho medo de ser preso e acabar morto, mas vou continuar a lutar.” Relembrando as palavras de Khet Thi: “Eles disparam em cabeças / Mas não sabem / Que a revolução vive no coração”.

 

"Eles disparam em cabeças mas não sabem que a revolução vive no coração."

 

QUANDO A LITERATURA ESTÁ ENFIADA NA CARNE DAS COISAS


Na mesma semana em que este poeticídio decorreu em Myanmar, a livraria Samir Mansour foi destruída em Gaza5. Fundada em 2008, era considerada a maior livraria da cidade, com a maior coleção de literatura inglesa em Gaza, servindo também como sede para uma editora dedicada à publicação de escritores palestinianos. Samir Mansour não foi o único estabelecimento afetado. Outros, como a livraria Iqraa, foram parcial ou completamente destruídos na rua Al Thalatiny, carinhosamente conhecida como a rua Maktabat, a rua das livrarias.


Milhares de quilómetros separam estes dois acontecimentos e, ainda assim, é impossível não estabelecer um paralelismo entre ambos. Por um lado, um governo ditatorial teme a poesia ao ponto de a querer matar; por outro, o símbolo de uma comunidade, o lugar onde habita essa coisa com alma a que chamamos livro — relembrando as palavras de Carlos Ruiz Záfon, em A Sombra do Vento —, é destruído por uma guerra. E, ainda assim, poetas e escritores, editores e livreiros resistem em nome de algo maior: a literatura.


Em Jalan Jalan, Afonso Cruz diz que “a verdade está enfiada na carne das coisas, mais do que à superfície”. Regimes e governos tentam sistematicamente queimar os livros e a força da palavra, ignorando que a poesia está entranhada na carne daquilo que somos. E nunca haverá maior revolução do coração do que essa.


1. Politico, abril 2021. Attacks on press freedom worsened by pandemic, Council of Europe report finds;
2. Jornal de Notícias, maio 2021.
Aung San Suu Kyi comparece em tribunal na capital do país;
3. The New York Times, maio 2021.
Three Months After Coup, Myanmar Returns to the ‘Bad Old Days’;
4. Revista Somos Livros, abril 2020.
Quando o Livro é uma Arma;
5. Literary Hub, maio 2021.
Gaza’s largest bookstore has been destroyed.

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