“Aqueles que queimam livros, mais cedo ou mais tarde, acabam também por queimar pessoas.” A frase do poeta Heinrich Heine (1797-1856) é como um eco que se mantém atual. A censura assume várias formas e não discrimina países ou continentes. Pode atacar a comunicação social, como prova um estudo do Conselho Europeu para a Proteção de Jornalistas1 que relata como, desde o início da pandemia, a liberdade de imprensa tem sido cada vez mais comprometida. Pode atacar a mais forte das democracias, como comprova o ataque ao Capitólio, em Washington, em janeiro de 2021. E pode ultrapassar a barreira da humanidade, fazendo-nos reviver a grande pergunta de Primo Levi sobre “se isto é um homem”.
Foi em fevereiro de 2021 que uma junta militar se apoderou do governo de Myanmar, prendendo o presidente Win Myint e a Conselheira de Estado e vencedora do Prémio Nobel da Paz de 1991, Aung San Suu Kyi. A tentativa de repressão, pelas forças militares, das manifestações contra este coup d’état já causou a morte de mais de oitocentos civis nos últimos meses, incluindo mulheres e crianças, de acordo com a Associação de Assistência a Presos Políticos2.
Todos os dias, nos telejornais, são apresentadas fotografias de pessoas acusadas dos crimes políticos mais variados. Entre eles, encontram-se médicos, estudantes, atores, jornalistas e até bloggers de beleza3. O resultado das interrogações está à vista de todos, com contusões e feridas que servem para mostrar à população birmanesa o que acontece quando se protesta contra o novo regime.
Em “A poesia é uma arma carregada de futuro”, Gabriel Celaya (1911-1991) falava de uma “poesia-ferramenta”, que é como o “canto que dentro levamos”. São versos que espelham a realidade em Myanmar, onde as forças no poder olham para a poesia como uma arma capaz de revolucionar o povo, chegando ao ponto de a quererem silenciar. Foi assim que mais de trinta poetas foram capturados e pelo menos quatro morreram. Esquecendo-se, como relembra o poeta espanhol, que “a poesia é necessária / como o ar que exigimos treze vezes por minuto”.
A REVOLUÇÃO DO CORAÇÃO POÉTICO
K Za Win viveu num mosteiro budista até ao dia em que decidiu abandonar a comunidade para se entregar a essa religião que é a poesia. Antes de morrer, o poeta escrevera nas redes sociais: “Embora tenha um ponto de vista diferente do vosso, darei a minha vida por todos vocês”. Acabou por profetizar a sua morte, ao ser baleado num protesto em Monywa. Tinha 39 anos. No seu funeral, Ko Khet Thi declamou um poema dedicado a todas as vítimas que perderam a vida às mãos do regime. Foi capturado e interrogado, aparecendo morto poucos dias depois.
O poeta K Za Win / © Autoria desconhecida, via The New York Times
They began to burn the poets
When the smoke of burned books could
No longer choke the lungs heavy with dissent.
Eles começaram a queimar os poetas
Quando o fumo dos livros queimados não pôde
Mais sufocar os pulmões carregados de dissidência.
Ao longo da História, muitos foram — e continuam a ser — os governos que tentaram sufocar a literatura, esquecendo- se de que o livro é uma arma4. Entre os ativistas que continuam a protestar, para além do medo e do pânico, nasce também uma urgência de resistência em nome da liberdade e da poesia. O poeta Ko Kyi Zaw Aye admitiu: “Tenho medo de ser preso e acabar morto, mas vou continuar a lutar.” Relembrando as palavras de Khet Thi: “Eles disparam em cabeças / Mas não sabem / Que a revolução vive no coração”.
"Eles disparam em cabeças mas não sabem que a revolução vive no coração."
QUANDO A LITERATURA ESTÁ ENFIADA NA CARNE DAS COISAS
Na mesma semana em que este poeticídio decorreu em Myanmar, a livraria Samir Mansour foi destruída em Gaza5. Fundada em 2008, era considerada a maior livraria da cidade, com a maior coleção de literatura inglesa em Gaza, servindo também como sede para uma editora dedicada à publicação de escritores palestinianos. Samir Mansour não foi o único estabelecimento afetado. Outros, como a livraria Iqraa, foram parcial ou completamente destruídos na rua Al Thalatiny, carinhosamente conhecida como a rua Maktabat, a rua das livrarias.
Milhares de quilómetros separam estes dois acontecimentos e, ainda assim, é impossível não estabelecer um paralelismo entre ambos. Por um lado, um governo ditatorial teme a poesia ao ponto de a querer matar; por outro, o símbolo de uma comunidade, o lugar onde habita essa coisa com alma a que chamamos livro — relembrando as palavras de Carlos Ruiz Záfon, em A Sombra do Vento —, é destruído por uma guerra. E, ainda assim, poetas e escritores, editores e livreiros resistem em nome de algo maior: a literatura.
Em Jalan Jalan, Afonso Cruz diz que “a verdade está enfiada na carne das coisas, mais do que à superfície”. Regimes e governos tentam sistematicamente queimar os livros e a força da palavra, ignorando que a poesia está entranhada na carne daquilo que somos. E nunca haverá maior revolução do coração do que essa.
1. Politico, abril 2021. Attacks on press freedom worsened by pandemic, Council of Europe report finds;
2. Jornal de Notícias, maio 2021. Aung San Suu Kyi comparece em tribunal na capital do país;
3. The New York Times, maio 2021. Three Months After Coup, Myanmar Returns to the ‘Bad Old Days’;
4. Revista Somos Livros, abril 2020. Quando o Livro é uma Arma;
5. Literary Hub, maio 2021. Gaza’s largest bookstore has been destroyed.