Adoção e abandono de animais de estimação em Portugal

Por: Associação Animalife a 2024-11-15

Nos últimos anos, a relação entre humanos e animais de estimação tem sofrido grandes transformações. Os animais, outrora vistos como tendo funções práticas, como a proteção de propriedades ou auxílio em tarefas do campo, são hoje verdadeiros membros da família.

Este novo conceito de família multiespécies, em que os animais de companhia são reconhecidos como parte integrante do núcleo familiar, reflete uma ligação emocional profunda entre os tutores e os seus animais. 

No entanto, apesar desta evolução, o fenómeno do abandono de animais continua a ser uma realidade preocupante em Portugal. Ao mesmo tempo, a adoção de animais tem registado um aumento significativo, impulsionado pela crescente consciencialização sobre a importância de oferecer uma segunda oportunidade a animais que, de outra forma, poderiam passar a vida em abrigos ou nas ruas.

 

Adoção: um gesto de amor e compromisso  

Adotar um animal de companhia é mais do que simplesmente acolher um ser vivo; é um gesto de amor, compromisso e responsabilidade, que pode transformar a dinâmica de uma família. A presença de um animal de companhia numa casa vai muito além da companhia que fazem. Para as famílias com crianças, os animais têm uma consequência significativa no desenvolvimento emocional e social dos mais jovens. Estudos mostram que crescer com um animal de estimação pode ensinar às crianças valores essenciais, como a empatia, a responsabilidade e a compaixão. Os animais tornam-se verdadeiros companheiros de brincadeiras e aventuras, oferecendo um tipo de amizade incondicional que ajuda as crianças a desenvolverem uma maior inteligência emocional e, no futuro, a capacidade de enfrentar os desafios e frustrações do dia a dia.

Para estas famílias, os animais não são apenas animais; eles são membros valiosos da unidade familiar. O efeito que têm no desenvolvimento emocional e social das crianças é profundo, proporcionando um tipo de amor que é genuíno e desinteressado. Esta ligação, por sua vez, contribui para fortalecer os laços entre todos os membros da família, criando um ambiente onde o cuidado e o apoio mútuo são valores fundamentais.  

Para muitos casais, adotar um animal é, frequentemente, visto como um primeiro passo antes de decidirem ter filhos. Esta decisão permite que os futuros pais testem a sua capacidade de cuidar e de se adaptar às responsabilidades diárias associadas a um ser dependente.  

Ao escolher adotar, as famílias não estão apenas a salvar uma vida, mas também a enriquecer a sua própria vida.  

Para os idosos, a adoção de um animal pode significar muito mais do que uma simples companhia. Em muitos casos, os animais são a única fonte de contacto diário para pessoas que vivem sozinhas, ajudando a combater a solidão e o isolamento social. A relação que se desenvolve entre um idoso e o seu animal de companhia é frequentemente marcada por uma profunda reciprocidade emocional. Estudos indicam que a presença de um animal pode reduzir os níveis de stresse, diminuir a pressão arterial e até melhorar o estado de saúde geral dos seus tutores mais velhos.  

Adotar um animal numa fase avançada da vida pode também proporcionar um sentido de propósito e rotina, o que é essencial para a saúde mental e física. Cuidar de um animal exige movimento, saídas diárias para passeios e uma responsabilidade que ajuda os idosos a manterem- -se ativos e socialmente envolvidos.  

 



Em 2023, os Centros de Recolha Oficial (CRO) registaram a adoção de 30 424 animais, um aumento de 24 % em relação ao ano anterior. Este aumento reflete uma tendência crescente de valorização da adoção responsável em detrimento da compra, impulsionada por campanhas de sensibilização que promovem a ideia de que a adoção é uma escolha consciente e altruísta. Através de feiras de adoção, divulgação em redes sociais e campanhas mediáticas, a mensagem de que a adoção é uma forma de salvar vidas tem vindo a ganhar força. Contudo, é crucial lembrar que os dados apresentados pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) referem-se apenas aos animais que passam pelos CRO. Muitas das adoções em Portugal acontecem através de associações zoófilas, que operam independentemente dos CRO e, por isso, não estão incluídas nestes relatórios oficiais. Assim, o número real de animais adotados pode ser bastante superior. Os dados do ICNF mostram que o número de adoções tem vindo a crescer significativamente nos últimos anos, refletindo uma mudança positiva na forma como as pessoas veem a posse responsável de animais. No entanto, é fundamental que a decisão de adotar seja bem ponderada e que as famílias estejam preparadas para assumir um compromisso a longo prazo. Cuidar de um animal é uma responsabilidade que se estende por toda a sua vida, exigindo paciência, recursos e, acima de tudo, muito amor.  

Adotar um animal de companhia é, em última análise, um ato de amor que transforma não só a vida do animal adotado, mas também a de cada membro da família que o acolhe. A Animalife continua a promover esta missão, garantindo que os animais não sejam apenas vistos como "animais de companhia", mas como membros essenciais das famílias multiespécies que constituem a nossa sociedade. 

O problema persistente do abandono 

Apesar do aumento das adoções, o abandono de animais continua a ser um dos maiores problemas no que diz respeito ao bem-estar animal em Portugal. Em 2023, foram recolhidos 45 148 animais pelos CRO, um aumento de 7,5 % em comparação com o ano anterior. Este número reflete apenas uma parte do problema, uma vez que muitos animais abandonados são acolhidos por associações ou permanecem errantes, sem nunca serem capturados.  

Embora este aumento possa ser atribuído a um crescimento na capacidade de resposta dos municípios, com a criação de novos CRO e a expansão da sua capacidade, é também indicativo de que o abandono ainda é uma prática comum. As razões para o abandono são diversas e incluem questões económicas, falta de preparação para a posse responsável e mudanças nas dinâmicas familiares. O verão é um período particularmente crítico, com muitos animais a serem abandonados quando as famílias partem de férias. 

 

A relação afetiva e o conceito de família multiespécies 

A transição da perceção dos animais de companhia como simples "bens" para membros da família tem sido uma das maiores mudanças culturais das últimas décadas. Hoje, os lares portugueses são cada vez mais vistos como famílias multiespécies, onde os animais desempenham um papel emocional vital. São companheiros, fontes de apoio emocional e, em muitos casos, ajudam a reduzir o stresse e a solidão dos seus tutores. Esta relação afetiva cria laços tão fortes que, para muitas pessoas, o seu bem-estar está intrinsecamente ligado ao bem-estar dos seus animais de companhia.  

Estudos têm demonstrado os benefícios que os animais de companhia trazem à saúde física e mental dos seus tutores. Da redução da pressão arterial até ao alívio da ansiedade, os animais proporcionam uma forma de apoio emocional que, por vezes, se revela insubstituível. Quando integram famílias em situação de vulnerabilidade, esta relação afetiva ganha ainda mais importância, sendo muitas vezes o único elemento de estabilidade emocional num contexto de incerteza e dificuldade. 

 

A importância do apoio social-animal: uma resposta pioneira da Animalife 

Reconhecendo esta interdependência entre humanos e animais, a Animalife tem desenvolvido uma resposta única e pioneira em Portugal: o apoio social-animal. Esta abordagem inovadora visa não apenas cuidar dos animais, mas também das famílias que deles dependem. Ao fornecer assistência a tutores em situação de vulnerabilidade, como idosos, desempregados ou famílias com baixos rendimentos, a Animalife garante que tanto os animais como os seus tutores possam continuar juntos, reduzindo o risco de abandono. 





Este apoio inclui a distribuição de alimentos, medicamentos e cuidados veterinários através de projetos como o Banco Solidário Animal e o Vet na Rua. Estas iniciativas não só ajudam os animais, mas também protegem a relação afetiva que eles têm com as suas famílias. Esta é uma resposta social inovadora que promove o bem-estar de toda a família multiespécies, aliviando o peso financeiro sobre os tutores e garantindo que nenhum animal seja abandonado por falta de recursos. 

 

Sensibilização para respostas sociais que incluam os animais de companhia 

A proteção dos animais de companhia não pode ser dissociada da proteção social. Criar soluções que integrem os animais nas respostas sociais é fundamental para reduzir o abandono e melhorar a qualidade de vida de famílias vulneráveis. A Animalife defende que os apoios sociais devem incluir os animais de estimação como parte do núcleo familiar. Afinal, para muitas pessoas, a perda de um animal de companhia devido à falta de recursos financeiros ou apoio social pode ter um efeito devastador na sua saúde emocional e mental.  

Este modelo de apoio social-animal pode ser replicado em outras áreas do país e integrado em políticas públicas que visem a criação de redes de suporte para famílias em situação de risco. Campanhas de sensibilização que incentivem a sociedade a ver os animais de companhia como parte integrante da família são essenciais para criar uma mudança real. A longo prazo, estas ações ajudarão a criar uma sociedade mais empática e consciente, onde o abandono de animais seja progressivamente erradicado. 

 

Existe um esforço em promover a adoção responsável e acolhimento temporário, ações que visam reduzir o abandono de animais. 


Os últimos Orçamentos de Estado em Portugal têm demonstrado um aumento significativo na preocupação do Governo e dos municípios em relação ao apoio às famílias em situação de carência com animais de companhia. Em 2024, foram atribuídos 13,2 milhões de euros destinados a apoiar diversas iniciativas relacionadas com o bem-estar animal, incluindo a criação de centros de recolha de animais, processos de esterilização e promoção de adoções. 

Um dos pontos principais deste orçamento é a implementação de uma linha de apoio para famílias carenciadas que têm animais de companhia. Esta linha conta com um milhão de euros destinados a comparticipar as despesas com serviços veterinários, garantindo que estas famílias possam cuidar dos seus animais sem comprometer a sua própria subsistência. Além disso, existe um esforço significativo em promover a adoção responsável e criar uma rede de respostas de acolhimento temporário, ações que visam reduzir o abandono de animais.  

A evolução deste apoio é visível quando olhamos para medidas anteriores, como a iniciativa de 2023, que já incluía a gratuitidade de cuidados veterinários para famílias vulneráveis. Esta medida envolvia a colaboração direta entre autarquias e o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), que facilitava o acesso a cuidados como identificação, vacinação, desparasitação e esterilização para animais de pessoas em situação de insuficiência económica.  

Estes desenvolvimentos sublinham a crescente preocupação do Estado, não apenas em promover o bem-estar animal, mas também em garantir que as famílias em situação de vulnerabilidade não sejam obrigadas a abandonar os seus animais por falta de recursos financeiros. A criação de redes de apoio locais e a alocação de fundos para serviços veterinários demonstram um compromisso claro em melhorar a qualidade de vida das famílias multiespécies em Portugal. 

 

Adoção, esterilização e eutanásia: uma realidade de contrastes 

Outro dado importante a considerar é o aumento da esterilização de animais. Em 2023, foram esterilizados 67 690 animais, um aumento de 23,5 % em relação ao ano anterior. A esterilização é uma ferramenta essencial para o controlo populacional, ajudando a prevenir o nascimento de ninhadas indesejadas e, consequentemente, a reduzir o número de animais errantes.  

Por outro lado, o número de eutanásias tem vindo a diminuir. Em 2023, foram eutanasiados 2 279 animais, o que representa uma diminuição de 4 % em relação ao ano anterior. Este número reflete uma tendência positiva, uma vez que o abate de animais errantes como método de controlo populacional foi proibido em 2018. A maioria das eutanásias realizadas deve-se a questões de saúde ou comportamentos irreversíveis. 

 

O que podes fazer para ajudar?  

Embora o cenário de abandono seja preocupante, há muitas formas de ajudar os animais que continuam a precisar de um lar ou de apoio. Aqui, ficam algumas sugestões práticas:  

Adotar com Responsabilidade — A adoção é um compromisso de longo prazo. Antes de tomar esta decisão, considera se tens condições necessárias para cuidar do animal ao longo de toda a sua vida, garantindo o seu bem-estar físico e emocional.  

Doar Bens ou Alimentos — Muitas associações precisam de doações de alimentos, mantas, brinquedos e outros bens essenciais para continuar a cuidar dos animais que acolhem. Qualquer contributo pode fazer a diferença.  

Voluntariado — O tempo é um dos recursos mais valiosos. Seja para ajudar nas tarefas diárias dos abrigos, participar em campanhas de sensibilização ou ajudar em eventos de recolha de bens, o voluntariado é uma forma ativa de fazer a diferença.  

Contribuir Financeiramente — As associações que cuidam de animais dependem muito de donativos para poderem continuar a funcionar. Considera fazer um donativo regular ou pontual a uma associação local de confiança, garantindo um apoio continuado a mais de 350 Associações Zoófilas.  

Divulgar e Sensibilizar — Partilhar informações sobre adoção, campanhas de recolha de bens ou eventos de sensibilização é uma das formas mais eficazes de aumentar a consciencialização sobre a causa animal. Ao partilhares nas redes sociais ou no teu círculo de amigos e família, podes ajudar a encontrar lares para animais que precisam. 

 



O fenómeno da adoção e do abandono de animais de estimação em Portugal é complexo e multifacetado. Embora tenhamos registado avanços significativos no número de adoções e na redução de eutanásias, o abandono continua a ser um desafio constante. A Animalife, e outras associações, têm trabalhado incansavelmente para criar histórias felizes, promovendo a adoção responsável e oferecendo apoio a animais e famílias em situação de vulnerabilidade. A criação de respostas sociais que integrem os animais como parte da família é crucial para combater o abandono. Cada um de nós pode contribuir para esta causa, seja através da adoção, doação ou voluntariado. Juntos, podemos fazer a diferença na vida dos animais que dependem de nós. 

 

Sobre a Animalife 

Fundada em 2011 com o propósito fundamental de combater o abandono animal em Portugal, a Animalife é uma associação, sem fins lucrativos, de âmbito nacional que se posiciona na vanguarda do apoio social-animal. A sua missão estende-se além do apoio aos animais errantes, abraçando igualmente a causa da vulnerabilidade económica e social das famílias e indivíduos, reconhecendo a intrínseca interdependência entre o bem-estar dos animais e o das pessoas que deles cuidam. A Animalife acredita que a mudança positiva é possível através da educação, sensibilização, e ação direta, valores que guiam cada iniciativa, campanha e projeto que desenvolve. "A criar histórias felizes" não é apenas um slogan; é uma promessa à sociedade e aos animais que nela vivem. 

 

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