Pensar a relação humana: para as crianças e adolescentes e os seus educadores

Por: António Carlos Cortez a 2024-08-27

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A Fábrica de Cretinos Digitais
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Os Superficiais
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A Educação e o Significado da Vida
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O Principezinho
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Da imensa bibliografia sobre as consequências do digital no modo como a juventude (as crianças e os adolescentes e, se se quiser, os jovens adultos, considerando os 25 anos como limite dessa designação) se relaciona, não só vale a pena referir o ensaio de Michel Desmurget, A Fábrica de Cretinos Digitais (Contraponto), como um outro livro, Os Superficiais — o que a internet está a fazer aos nossos cérebros (Gradiva), ambos premiados com relevantíssimos galardões literários. Devido à investigação a que se dedicaram os seus autores, mas também porque ambos os livros nos obrigam a ter de refletir ponderadamente sobre o impacto das tecnologias digitais nos âmbitos familiar e escolar, universitário e, claro, no campo do trabalho, esses dois ensaios constituem duas ótimas entradas para quem queira pensar sobre um tema antigo, mas que é um tema de sempre: a amizade. Num entendimento mais vasto, o que são as relações humanas. Em bom rigor, diga-se, quando hoje a comunidade educativa (a Família, o Estado e a Escola/Universidade) se debruça sobre o problema da dependência digital por parte das gerações já nascidas num tempo de franca expansão dos ecrãs, raramente esse problema é pensado à luz do mais óbvio bom senso e da mais lementar observação dos factos. Enumero alguns desses factos, que as gerações mais velhas repetidamente apontam:

1.º a dependência dos telemóveis e de outras ferramentas/instrumentos multimediáticos (dos smartphones aos tablets, do WhatsApp aos sites, os mais diversos…), constituindo tal dependência uma verdadeira toxicodependência; 

2.º a irritabilidade de crianças e jovens se se proíbe o número de horas passadas frente a esses meios ditos “de comunicação” (coloco entre aspas porque não me parece rigoroso falar em comunicação no atual estado a que se chegou); 

3.º a perda da concentração e da simpatia (o elo emocional), seja no contexto escolar, seja na relação com familiares e amigos, por parte da chamada “geração dos nativos digitais”; 

4.º o subsequente amortecimento da sensibilidade e a observação cada vez mais comum de que há um crescimento da violência entre crianças e adolescentes, consequência do embrutecimento a que estão sujeitos por causa das horas infindáveis que passam nas redes sociais; 

5.º a perda acelerada da linguagem (as crianças até à idade de 12 anos leem, mas, a partir da primeira adolescência, é a lógica do grupo, a procura de uma identidade o que acaba por conduzir a criança para o mundo dos adolescentes, tornando-se igual ao líder ou líderes desses grupos), com manifesta repercussão na expressão falada e escrita e na cognição (a dificuldade para interpretar e analisar enunciados complexos — seja o texto literário, um problema de matemática, questões sobre História, Geografia, Filosofia…);

6.º a impressão de que as relações ditadas pela lógica digital conduzem à formatação das ideias, gostos e valores e a uma visão meramente mecânica do Outro, segundo a lógica do “que ganho eu com isso?”; 

7.º em contexto familiar-escolar, a por demais evidente adulteração do que significa “saber estar”, saber ser estudante, fruto da infantilização geral (de pais, professores e alunos);

8.º a impossibilidade real de as crianças e, sobretudo os adolescentes, se perguntarem o “para que sou?” e o “quem sou?” (questões filosóficas que o sistema de ensino atual despreza por completo);

9.º a constatação de que uma larga maioria de adolescentes, com os seus 15, 16, 17 anos, é um pequeno tirano, um adolescente boçal, simultaneamente cruel e frágil: cruel para com os pais, família e professores, frágil porque está à mercê da autoridade de um qualquer líder das redes sociais, um qualquer influencer, isto é, um explorador-explorado do sistema consumista atual;

10.º a sensação de impotência da maioria dos educadores, eles próprios alienados e esgotados por um sistema de exploração que conduz a um fosso cada vez maior entre o mundo adulto e o mundo das crianças e dos adolescentes, compensada, essa distância, pela artificialização das relações (o digital como interesse comum entre pais e filhos: os jogos como entretenimento?) ou compensada pela lógica irresponsável do “dar tudo ao filho” porque se tem a sensação, enquanto pais, de se estar em falha permanente. 

A estes dez aspetos que todos nós podemos observar na nossa vida diária, acrescente-se um outro que não é despiciendo e diz respeito ao modo como, na sociedade de consumo ultraliberal em que vivemos, na qual tudo é mercadoria e passível de transação (dos objetos aos afetos), as crianças (em especial as do sexo feminino, mas já com incidência nas do sexo masculino) estão a ser vistas. Elas são os novos clientes dos mais variados produtos. Os de beleza, sobretudo, com cremes para a pele (!) dirigidos a raparigas de 11, 12, 13 anos, isso constitui um dos sinais mais graves de corrupção dum ideal de infância e de adolescência. Fruto de um aparelho propagandístico tentacular via redes sociais e que as crianças consomem (é ver o fenómeno aterrador da Sephora e dos seus produtos — batons, cremes, unhas de gel — procurados obsessivamente por meninas absolutamente à mercê do que uma qualquer “miúda”, pouco mais velha do que elas, dite na sua página pessoal ou através do WhatsApp, ou outras instalações — o diabo é versátil e imaginativo), a digitalização das relações humanas tem como consequência nefasta o crescimento desequilibrado da criança e do adolescente, desequilíbrio potenciado ao máximo pela sexualização hedionda dos corpos nessas idades. Isto sem esquecer — o que explica muita dessa sexualização — o consumo de pornografia, via internet, por parte de uma geração que, nos Estados Unidos, é já conhecida por “geração pornográfica”. A organização Save The Children é peremptória: “O desejo sexual da população adolescente baseia-se hoje no consumo de pornografia”. Neste contexto, de que amizade podemos falar?

 

“ [...] a amizade que irrompe do maravilhamento de brincarmos, de inventarmos ficções, de nos descobrirmos como seres vivos [...]”


Insensibilidade, alienação, egoísmo, superficialidade, materialismo, sede de consumo sem se saber porquê e para quê, o que hoje se pode e deve dizer é que, no nosso país, a reboque dum movimento global de computadorização da vida, se temos de falar da amizade entre os mais jovens, isso implica termos de sublinhar um facto: a amizade entre os adolescentes e as crianças, nesta sociedade de diversão, de dispersão e de dissolução de valores tradicionais, não mais é a philia de que falou Platão — uma afeição (pelo saber), mas uma forma de estar e ser com o outro que não pode dissociar-se da paideia grega enquanto composto de valores pedagógicos para um bem viver segundo a Razão. Estamos hoje muito longe da amizade cujo vínculo com o Outro se deve a um interesse por esse Outro.
 

“Estamos hoje muito longe da amizade cujo vínculo com o Outro se deve a um interesse por esse Outro.”


De certo modo, seja nas famílias, seja nas escolas ou nas universidades, e mesmo nos empregos, percebe-se que a lógica consumista e a ideologia mercadológica que rege as relações humanas está a trazer-nos a uma espécie de beco sem saída. Na Escola — transformada em mero lugar onde, desde cedo, a criança é amestrada, amputada da sua criatividade e da sua imaginação, da sua liberdade interior para estar de acordo com a “liberdade” do sistema para o qual terá de se vir a formar para melhor o servir —, sucedem-se os casos de violência. À violência (mas a ordem é aqui arbitrária, porque causa e consequência confundem-se), soma-se a falta de interesse generalizado dos estudantes pelas matérias dos curricula. 

O que julgo estar em processo é a morte do desejo (a epithymia grega, o movimento de uma energia vital para saber o diferente) no contexto não só escolar, mas do desejo em muitas dimensões da infância e da adolescência, e mesmo da vida adulta. Somos em adultos o que lançámos nos solos férteis (ou esgotados) da infância. O que no horizonte espera as crianças e os jovens quando o desejo é inexistente e quando, por via da formatação (os ciclos escolares sempre iguais, sem haver nenhuma surpresa na maioria das aulas, a modorra do tecnicismo — PowerPoint mais PowerPoint e nada, mas nada de análise de textos, de comunicação entre professor e aluno, entre o que se lê e o que se vive) tudo é igual a tudo e esse tudo igual a nada? Lembro aqui, a propósito da amizade, uma das mais desafiantes afirmações do grande pensador J. Krishnamurti, que, em A Educação e o Significado da Vida (Edições 70, 2023), afirma o seguinte: Só quando começamos a compreender o significado profundo da vida humana é que pode acontecer a educação verdadeira; mas, para compreender, a mente deverá, inteligentemente, libertar-se do desejo de recompensa, o qual alimenta o medo e o conformismo. Se vemos os filhos como propriedade nossa, se para nós eles são uma continuação dos nossos egos mesquinhos e a realização das nossas ambições, então, estamos a construir um ambiente, uma estrutura social na qual não existe amor, na qual apenas se buscam vantagens pessoais.

Uma escola que tenha sucesso no sentido comum do termo não passa de um centro educativo falhado. Uma instituição enorme e concorrida, na qual centenas de crianças são instruídas, tudo acompanhado de encenações e de prestígio, pode formar futuros bancários e vendedores eficientes, industriais e políticos, pessoas superficiais que são unicamente competentes; mas apenas podemos confiar no ser humano integrado, que só as escolas de dimensão reduzida podem gerar. Por isso, é tão importante ter escolas com o número limitado de rapazes e de raparigas e com os educadores correctos, em vez de pôr em prática os últimos e “melhores” métodos utilizados em escolas de grande dimensão.

 

“ Somos em adultos o que lançámos nos solos férteis (ou esgotados) da infância [...]”


Se transcrevo estes dois parágrafos de um livro que considero axial para pais e professores, para dirigentes educativos, enfim, para todos quantos compreendem que estamos no limiar de uma alteração de comportamentos humanos que visam a mais completa desumanização em função dos mandos e desmandos das oligarquias que tudo medem pela régua quantificadora do lucro e do dinheiro; se transcrevo estes dois parágrafos deste autor, é porque a lógica da acumulação de conhecimentos, a proletarização das profissões — a de professor, nos últimos 25 anos! —, o desenvolvimento acrítico e inconsciente de capacidades técnicas, a habituação do pensamento mecânico, a padronização do que se diz e do como se diz, a ditadura do “politicamente correcto” — tudo isto concorre para que a amizade, o amor, que deveriam florescer num ambiente social de paz e de autêntico interesse pelo humano, pelo planeta e pela vida no seu todo, sejam palavras muito usadas, mas vãs.
 

“ [...] estamos no limiar de uma alteração de comportamentos humanos que visam a mais completa desumanização [...]”


Leia o artigo integral na Revista Somos Livros Verão 2024

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