Duas ou três ideias sobre “A Geração Ansiosa”

Por: Beatriz Sertório a 2024-07-19

Jonathan Haidt

Jonathan Haidt

Jonathan Haidt doutorou-se em psicologia social na Universidade da Pensilvânia, nos EUA, em 1992, lecionou em várias instituições universitárias e foi nomeado um dos «principais pensadores globais» pela revista Foreign Policy, bem como um dos «principais pensadores mundiais» pela revista Prospect.
A sua investigação centra-se na moralidade — os seus fundamentos emocionais, as suas variações culturais e respetivos percursos de desenvolvimento. Começou a carreira de investigador estudando sobretudo emoções morais negativas, como o nojo, a vergonha e a vingança, mas depois transitou para as emoções morais positivas, menos estudadas, como a admiração ou a elevação moral.
É um dos responsáveis pelo desenvolvimento da teoria dos Fundamentos Morais e um dos coordenadores do site de investigação yourmorals.org, além de cofundador da heterodoxacademy.org, um espaço onde se defende a diversidade de pontos de vista no ensino superior.

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A Geração Ansiosa
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Após mais de uma década de estabilidade e progressiva melhoria, a saúde mental dos adolescentes caiu a pique no início da década de 2010. As taxas de depressão, ansiedade, automutilação e suicídio aumentaram acentuadamente, mais do que duplicando em muitos indicadores. Porquê? É essa a pergunta a que Jonathan Haidt, reconhecido como o “psicólogo mais importante do mundo”, procura responder em A Geração Ansiosa (Dom Quixote).

Nesta investigação essencial sobre o colapso da saúde mental dos jovens da Geração Z, Haidt analisa as causas e as consequências desta epidemia e traça um plano urgente para uma infância mais saudável e mais livre. Fique com três ideias fundamentais que pode encontrar neste livro, de leitura obrigatória para qualquer pai, professor ou educador — mas também, nas palavras de Haidt: “para qualquer pessoa que queira perceber o modo como a reconfiguração mais rápida da consciência e das relações humanas de que há memória tem dificultado as nossas faculdades de pensamento, concentração, disponibilidade para os outros e capacidade para construir relações próximas”.

 

A Geração Z foi vítima de uma parentalidade excessivamente protetora 

Para Jonathan Haidt, a geração Z, nascida depois de 1995, é como se fosse “a primeira geração a crescer em Marte”. Tendo entrado na puberdade numa altura em que convergiram várias inovações tecnológicas, tais como a rápida disseminação da banda larga na década de 2000, a chegada do iPhone em 2007 e a nova era das redes sociais hipervirais, são a primeira geração a sentir as consequências de uma infância e adolescência conectadas ao mundo digital. Para isso, contribuiu muito uma tendência para uma parentalidade cada vez mais protetora e receosa dos perigos do mundo real, mas pouco informada sobre os perigos do mundo virtual. Como resultado, os jovens desta geração foram incentivados a passar cada vez mais tempo em casa e a isolar-se do mundo exterior, tornando-se cobaias de uma forma radicalmente nova de crescimento, a que Haidt chama "A Grande Reconfiguração da Infância.”

À medida que prosseguiu a transição da infância centrada na brincadeira livre para a infância centrada no telemóvel e no computador, muitas crianças e adolescentes sentiram-se perfeitamente contentes por poderem ficar em casa a jogar online. Contudo, nesse processo, foram perdendo exposição aos tipos de experiências físicas e sociais desafiadoras de que todos os jovens mamíferos precisam para desenvolver competências básicas, para superar medos inerentes à infância e para prepararem uma menor dependência dos seus pais. É por isso que Haidt chama a esta geração, a “geração ansiosa”.

 

Os smartphones são como “criptonite” para a atenção dos jovens

Embora tenham sido sistematicamente ocultados pelas empresas tecnológicas, os danos mentais e sociais de uma infância passada no telefone são evidentes. Segundo Haidt, é possível identificar quatro danos fundamentais. Em primeiro lugar, a privação social e o isolamento que leva a que, mesmo quando os jovens estão na presença física uns dos outros, não consigam conectar-se verdadeiramente. Em segundo, a privação de sono, cujas consequências incluem sintomas como depressão, ansiedade, irritabilidade, défices cognitivos, problemas de aprendizagem e mau desempenho académico. O terceiro dano fundamental, por sua vez, tem a ver com a fragmentação da atenção, uma consequência direta do bombardeamento constante de notificações que faz com que os jovens raramente tenham cinco ou dez minutos ininterruptos de concentração. E, por fim, a dependência, consequência da libertação de dopamina causada por estas tecnologias, que leva a que os jovens a busquem constantemente, com sérias consequências para o seu bem-estar.

A combinação destes quatro danos fundamentais dá-nos uma explicação para a deterioração súbita da saúde mental na última década, com um foco particular nas raparigas adolescentes, mais vulneráveis aos vários perigos das redes sociais.

 

A mudança é possível – mas temos que agir já

Embora o cenário seja preocupante, Jonathan Haidt acredita que ainda vamos a tempo de o reverter. Para isso, é urgente que tentemos rever dois grandes erros que levaram a esta epidemia de doença mental: um excesso de proteção das crianças do mundo real, por um lado, e um défice de proteção no mundo virtual, por outro. No livro A Geração Ansiosa, o autor traça um plano detalhado para essa reforma, no entanto existem quatro medidas essenciais que qualquer pai ou educador pode e deve começar a implementar para criar as bases para uma infância mais saudável na era digital. São elas:

1. Proibir os smartphones antes do secundário. Na opinião de Haidt, os pais devem adiar o acesso permanente das crianças à Internet, dando-lhes apenas telemóveis básicos (com aplicações limitadas e sem browser de internet) até ao 9º ano de escolaridade;

2. Impedir o acesso a redes sociais antes dos 16 anos. Jonathan Haidt defende que é crucial deixar as crianças atravessar o período mais vulnerável do seu desenvolvimento cerebral antes de as conectar a uma fonte de comparação social, altamente prejudicial, e permanente acessível nos seus bolsos.

3. Escolas livres de telemóveis. O autor argumenta que todas as escolas deveriam guardar os seus telefones, smartphones e quaisquer outros aparelhos tecnológicos pessoais em cacifos ou estojos fechados durante todo o período letivo, de modo a recuperar a atenção dos alunos para os professores.

4. Mais brincadeiras sem supervisão e mais independência durante a infância. Segundo Haidt, é assim que as crianças desenvolvem competências socias, superam a ansiedade e se tornam adultos autónomos de forma natural.

 

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