Os Meus Amigos, de Hisham Matar: Amizade inquebrável

Por: Rita Caetano a 2025-06-02

Hisham Matar

Hisham Matar

Hisham Matar é um romancista, ensaísta e memorialista britânico-líbio, nascido nos Estados Unidos da América. Passou a infância em Trípoli, na Líbia, até que a família foi forçada ao exílio devido à oposição política do pai ao regime de Khadafi. Mudaram-se para o Egito e, em 1990, o pai foi sequestrado por agentes do governo líbio, o que marcou profundamente a vida e a obra de Matar. O seu romance de estreia, Em Terra de Homens, foi finalista do Man Booker Prize em 2006. O seu livro de memórias sobre a busca pelo pai, O Regresso, venceu o Pulitzer na categoria de Biografia ou Autobiografia em 2017. Os seus ensaios foram publicados na The New Yorker, no The Guardian e no The New York Times, entre outras publicações.

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Os Meus Amigos
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Exílio e amizade. É à volta destas duas palavras que o mais recente livro de Hisham Matar, romancista e ensaísta britânico-líbio, gira. Ao presente, o autor junta um passado que recua 30 anos. A história vai e vem entre esses dois tempos e apresenta-nos três amigos — Khaled, Mustafa e Hosam Zowa — e a sua nostalgia provocada pela vida no exílio. O livro Os Meus Amigos ganhou o Prémio Orwell, na categoria de Ficção Política, foi nomeado para o Booker Prize e finalista do National Book Award. Um regresso em grande de uma das vozes sublimes da literatura atual, que fez da sua história de vida um ponto de partida para os temas que explora de forma notável.
 
No dia 17 de abril de 1984, um grupo de manifestantes protesta em frente à embaixada da Líbia, em Londres, contra o regime de Khadafi, quando dois homens abrem fogo do primeiro andar daquele mesmo edifício – um facto verídico que Hisham Matar trouxe para o livro Os Meus Amigos, ficcionando as personagens. Entre os feridos, estão Khaled (o narrador deste livro) e Mustafa, dois jovens líbios que estudavam na Universidade de Edimburgo. No hospital, onde chegaram gravemente feridos, mudam-lhes o nome para os proteger e o regresso à Líbia tornou-se numa miragem. Passaram a ser exilados políticos e nem aos pais podiam contar o sucedido. Londres tornou-se, então, a sua casa e, entre muitas incertezas e medos, foi cenário de um recomeço. Nessa altura, na cabeça de Khaled, ecoavam em constância as últimas palavras do pai no aeroporto, acompanhadas de uma expressão perturbada: "Não te deixes ludibriar". Só depois do ferimento, percebeu o seu alcance: naquela altura, quando alguém deixava a Líbia, dificilmente regressaria.
 
Este é um livro sobre exílio, perda, solidão, saudade da terra-mãe, mas, acima de tudo, sobre amizade e sobre o suporte que esta fornece, principalmente, quando se está longe de casa. Numa linguagem quase poética, Hisham Mattar mostra-nos a dor de estar longe da pátria e, em alguns momentos, leva-nos para Benghazi, a cidade de onde são naturais as personagens, situada à beira do Mediterrâneo, e inunda-nos os sentidos com os aromas da cozinha da mãe de Khaled, porque a saudade é feita de pessoas, mas também de lugares e sabores. Foram tantas as vezes, diz o narrador, que imaginou em quem ele e Mustafa se teriam tornado, caso nunca tivessem partido. “Imaginei crianças. Imaginei uma variedade de vozes. Imaginei rituais e rotinas. Imaginei-me não a cozinhar só para mim e imaginei alguém a cozinhar para mim. Mais do que qualquer outra coisa queria, queria os desejos e as solicitações dos outros”, realça.
 

Porque os que andam perdidos no mar têm de erguer os olhos para as estrelas.


Ao duo Khaled e Mustafa, junta-se, 11 anos mais tarde, Hosam Zowa, um enigmático escritor líbio que tinha desaparecido e cujo conto sobre um homem devorado por um gato, ouvido na rádio ainda na Líbia, tinha ficado na memória de Khaled. O encontro deu-se na receção de um hotel em Paris, onde Hosam Zowa trabalhava e Khaled era hóspede. Ao partilharem as suas histórias de vida, Hosam Zowa confessou que também ele esteve na manifestação dos líbios na capital inglesa, mas conseguira sair incólume. Nasce assim uma amizade profunda. “Amigo. Que palavra. A maioria das pessoas utiliza-a em relação a outras que mal conhece. Quando é algo maravilhoso”, diz Hosam Zowa.
 
O escritor regressa a Londres e, sobre isso, Khaled diz que se espantava como nenhum dos aspetos da sua vida se alteravam e, no entanto, tudo se transformou quando o Hosam Zowa passou a ser seu vizinho. “Tornei-me mais equilibrado, senti-me mais acompanhado, e a minha vida em Londres, que eu apreciava com um orgulho discreto, incluía agora a sensação de fazer parte de uma família, na qual as bebidas, uma refeição, um café ou um passeio podiam ser espontaneamente partilhados, sem a necessidade entediante de ter de fazer planos e combinações.” Mas essa sensação de família que o remete para a sua vida na Líbia é quebrada, no início de 2011, quando, no Norte de África, desponta a Primavera Árabe. Outro acontecimento real que o autor integrou na sua prosa.

 

Os dramas humanos mais importantes têm lugar não em campos de batalha, mas nas horas mais serenas.


Tudo começa na Tunísia, passa para o Egito e, depois, para a Líbia, onde cresce a esperança de uma revolução. Hosam Zowa decide voltar e até os livros levou, como realçou a sua namorada, que viu isso como um sinal de não regresso. Mustafa segue-lhe as pisadas, mas Khaled não se consegue mover. “O amor pelo meu amigo abria-se agora como uma fome no peito. Eu estava aberto ao meio”, diz, quando Mustafa lhe diz que vai embora. Quando, ao telefone, lhe pergunta como é voltar, a resposta é: “Malditamente belo. É como ser trazido de volta entre os mortos. É como o ar a encher-nos os pulmões”. Mas nem isso, nem a frase repetida pelos pais esperançados com as mudanças — “em breve, estarás de volta a casa” — fizeram com que Khaled decidisse voltar.

 

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