A coragem de amar o outro sem olhar a um tom de pele diferente durante o Estado Novo. Assim começa a história de Margarida e Francisco, amor do qual nasce Gabriel, que cresceu à procura de uma identidade entre dois países e duas culturas, sem saber responder em qual se sentia em casa. A Tua Melanina é o livro de estreia de Stephanie Vasconcelos, ela própria fruto da multiculturalidade tecida por uma história semelhante à que nos conta. Realidade e ficção misturam-se e só ela (e a sua família) sabe qual é qual...
Tendo como cenário as ruas do Porto, Margarida e Francisco apaixonam-se. Ela é branca; ele, negro. Ela nasceu em Portugal; ele, em Angola, na altura, território português. Ela é livre, curiosa e, num país cinzento, veste cores alegres; ele é bem-falante, elegante e jogador de futebol, mas também sabe de livros e de música. Os seus olhares cruzam-se e o cupido faz o seu trabalho. No entanto, num país que vive em ditadura, as demonstrações de afeto não são bem toleradas e, se estivermos a falar de um casal de cores diferentes, ainda pior. Ainda assim, nada os impede de viver o seu amor, nem a oposição da família dela. Esta paixão avassaladora é o mote para A Tua Melanina, o primeiro livro de Stephanie Vasconcelos, no qual narra a história da sua família, com muita ficção à mistura. Nele, a autora aborda o multiculturalismo, a questão da identidade racial e o racismo. Nunca saberemos o que é real e o que é ficção — isso fica na família —, mas a questão da melanina está sempre presente, bem como o sentimento de pertença ou não a determinado local.
Como se lê no livro, Margarida e Francisco “(...) amaram-se como se não houvesse amanhã. Como se não existissem fotografias a cor. Como se os seus mundos não estivessem separados por carências que nenhum dos dois iria conseguir absolver, por muito que tentassem”. No entanto, esse amor não perdurou (ou talvez tenha durado, apesar da separação, sobretudo da parte de Margarida, que não mais sentiu tamanha paixão), mas, dele, nasceu Gabriel. Desse momento em diante, Margarida passou a viver com medo de que o seu filho fosse discriminado, sentimento que cresceu quando Francisco decide voltar para Angola. Margarida ainda se muda para Lisboa, por julgar ser mais aberta do que a Invicta, mas a diferença não era assim tanta.
Francisco trazia uma vibração diferente, tanto na pele como na roupa. Todo ele era cor.
Pelas razões já mencionadas, Gabriel foi sempre instigado a ser o melhor, a não responder e a olhar para baixo quando falassem com ele. O medo, a par com a falta dos meios económicos, fazem com que a mãe o ponha num orfanato, durante a semana, ao longo de quatro longos anos. “Ela queria garantir que Gabriel comia e estudava, sim era verdade. Mas, acima disso, queria muito mais que ele fosse protegido. Ela não estava a conseguir protegê-lo dos olhares mais ferozes. Até ali ela tinha conseguido gerir bem os comentários dirigidos a si e ao seu filho por pessoas que não conhecia, e pior era quando até as que os conheciam não conseguiam disfarçar desconforto. Gabriel, enquanto era pequenino, talvez não se apercebesse, mas agora era diferente. De tanto apontarem a sua diferença. Também ele estava a sentir-se diferente”, escreve Stephanie Vasconcelos.
Longe do pai, Gabriel cresceu à procura de uma identidade e a não poder sonhar muito. “Nesta terra, não se pode sonhar muito”, dizia-lhe a mãe, que achou que o melhor para ele seria passar uns tempos em Angola, depois de ter atingido a maioridade. “(...) Em casa, era Gabriel, mas na rua era preto. Mesmo com as explicações que a mãe Margarida ia assegurando, ele nunca percebeu bem a diferença, pois nunca teve a oportunidade de constatar que realmente não era único no mundo, apesar de sempre se ter sentido como tal. Um solitário no meio de uma multidão que sabe de onde vem e para onde vai. Gabriel não sabia nem de onde vinha nem para onde ia, controlava apenas o agora e, naquele preciso momento, ao avistar a Ponte 25 de Abril com o rosto colado ao avião (...), sentiu-se apenas o Gabriel de novo. E pela primeira vez em muito tempo, ansiava pela possibilidade de descobrir o passado que lhe faltava e o futuro pelo qual ansiava”.
Se, em Lisboa, era demasiado escuro, em Luanda, era demasiado claro, e também nunca sentiu a cidade como sua. É verdade que o modo de vida na capital angolana, experimentado ao ritmo da família do pai e da mulher deste, lhe trouxe alguma alegria que lhe faltava nos arredores de Lisboa, mas a nostalgia nunca desapareceu totalmente. Foi a avó Xinita que o segurou e o fez agarrar-se ao sonho que tinha trazido de Portugal, ser piloto. Foi com isso em mente que voltou a fazer as malas, desta feita para a Rússia, após se ter alistado no exército angolano.
Já em Kranosdar, onde aprendeu a pilotar, Gabriel apaixonou-se por Irina e, tal como os pais dele, “juntos na procura pela sua identidade, desbravaram o seu mundo e dos outros em busca de algo mais. Mais um amor improvável que surgia por um alinhamento cósmico qualquer de duas pessoas cuja probabilidade de se conhecerem seria quase nenhuma, não fossem as improbabilidades da vida”. Cinco anos e muitas peripécias depois, começam uma vida nova em Lisboa, com a pequena Natasha, na casa de Margarida. Também não viveram felizes para sempre e uma das razões foi a insatisfação de Gabriel por nunca ter conseguido a equivalência para ser piloto em Portugal. “Ninguém quis confiar nas capacidades de um homem com pele mais escura do que aquela que tinham sido educados a confiar”. Enquanto Gabriel acaba por voltar a Angola, Irina fica em Portugal, país que considerou seu desde que pisou terras lusitanas e, se o seu marido lhe perguntasse porque tinham sentido tanto amor um pelo o outro, Irina não teria dúvidas e responder-lhe-ia: “Porque a tua melanina é das coisas mais bonitas que já vivi.”