Na manhã de 3 de outubro de 2013, no Porto Militar de Lampedusa, um homem de olhos postos no céu ora: "Que não seja um piccirìddo, que não seja uma criança, por favor, ó Deus, se me ouves, que não seja um pequenito." Pietro Bartolo é médico e há mais de 30 anos que caminha para aquele porto "para ver chegar barcos carregados de vida e carregados de morte. Ele atende vivos e mortos, tem responsabilidades para com ambos. Está de mãos em oração a olhar o mar, a rezar para que não seja uma criança, um piccirìddo, o primeiro cadáver a chegar-lhe às mãos". A prece não foi atendida: foi mesmo um pequenino, a primeira vítima que Pietro Bartolo teve de autopsiar na data que será sempre indissociável de uma das maiores tragédias marítimas do pós-guerra. Não tinha mais de 90 centímetros. Dois anos. E, de repente, a dor cai-nos no colo de forma mais pungente porque as crianças são vida, e a morte delas faz-nos desacreditar do que quer que seja que acreditemos. Naquela noite sem lua, um barco que carregava 500 pessoas e a esperança de todas elas de chegar a um sítio melhor do que aquele de onde partiam, afundou ao largo da ilha siciliana, que é o território europeu onde chegaram mais migrantes nas últimas três décadas — 366 morreram.
Lampedusa – ir e não chegar (Tinta da China) é a história da terra onde "resgatar pessoas não é apenas lei estatuária, é lei da ilha"; do mais trágico naufrágio na rota de imigração mais mortal do mundo; dos sobreviventes e dos que nunca chegaram a terra. Numa linguagem crua e sem floreados, mas profundamente humana, a autora Ana França serve aos leitores a história verídica, com toda a dor e sofrimento que encerra, da sucessão de acontecimentos que levou ao naufrágio de 3 de outubro de 2013, ao mesmo tempo que reflete sobre a questão maior da migração, uma das áreas que acompanha de perto enquanto jornalista. É ela que nos diz que "as mortes no Mediterrâneo só não são tão visíveis" como as da guerra da Ucrânia [outro cenário que Ana acompanha], porque "o cemitério principal fica debaixo de água. Talvez nunca seja possível saber quantos barcos se perderam no fundo do mar sem notícia, quantos migrantes nem sequer conseguiram avisar a família de que iam partir, porque algures pelo meio da viagem lhes roubaram os telefones ou eles mesmos os deitaram ao mar ao verem terra".
(...) há um tipo de pessoa a quem este tipo de morte acontece, e não é, normalmente, a um europeu.
A autora também nos diz, e ainda bem — alguém que olhe para o flagelo — que "há um tipo de pessoa a quem este tipo de morte acontece, e não é, normalmente, a um europeu. É um tipo de morte que acontece longe, tanto no sentido metafórico como no sentido literal da palavra — é culpa dos ‘passadores’, é culpa dos ‘ditadores’, é culpa do comandante de um barco comercial ou de pesca que não socorreu, mas nunca é culpa dos Estados que inviabilizam viagens seguras, que criminalizam a ajuda humanitária tornando os que a praticam potenciais culpados de auxílio à imigração ilegal ou de atentarem contra a segurança do Estado (...)".
Ana França vai ao problema no geral, mas também ao particular, quando nos apresenta os protagonistas maiores desta história, gente de carne e osso, todos tão reais que lhes acompanhamos as vidas desejando que não sofram mais do que já sofreram, à medida que passamos as páginas e sonhamos com um fim feliz que só a ficção consegue, e este livro é realidade pura, nua, dura.
Como Adal, que chegara à Europa dez anos antes e que perdeu o irmão no naufrágio de outubro de 2013 ("ainda tentou proibi-lo de embarcar sem colete, proibi-lo de pôr o pé em qualquer barco comandando por gente que nem isso lhe assegurava. Mas como proibir um embarque que ele sabia ser um sonho? Ele mesmo tinha pagado o sonho"). E como Solomon, sobrevivente da tragédia de que o livro fala e que, uma década depois do naufrágio, diz que, por vezes, "ainda se perde nas esquinas sombrias da sua memória, dorme mal, ou não dorme, está melhor, tem dois bebés maravilhosos e uma mulher que adora, tem-se tornado mais fácil, mas continua a não saber por que razão sobreviveu e a culpa de ter sobrevivido não se dissolve com o tempo".
Ou o pescador Totò Martello que partilha com a jornalista que "nem se consegue enfrentar o mar ao outro dia, se não se salvar as pessoas" que se encontram em apuros, um código de honra que tem tanto de bonito como de pesado, numa ilha onde "são muitos mais os dias de desembarque do que os dias em que não chega ninguém".
E é por isso que, na Eritreia, "Lampedusa não é um nome próprio, o nome de uma terra. Perdeu a letra grande e agora é um substantivo comum, que as pessoas usam como sinónimo de tragédia, horror, má sorte", onde as pessoas não morrem "como pessoas", morrem "como migrantes", e essa circunstância "enxuga-lhes os detalhes biográficos".
Nesta grande reportagem em livro, os leitores também conhecem o centro de acolhimento dos migrantes que chegam a Lampedusa e que funciona quase como uma prisão (depois de entrar, é difícil sair); a história de Yohanna, "a mulher que deu à luz enquanto se afogava"; a sina do padre que tem o número de telefone escrito "em todo o lado: nas paredes de prisões do Chade, do Níger, do Sinai, da Líbia, nos armazéns abandonados onde os migrantes esperam as carrinhas que os levarão até às zonas costeiras, nas próprias carrinhas e até sulcado na madeira das traineiras paradas nos portos da Tunísia e da Líbia, para o caso de alguma delas vir a ser roubada ou vendida para uma travessia do Mediterrâneo". O número estava escrito na velha traineira de onde Solomon saiu com vida e onde Abraão conheceu a morte. "Estes eram os teus sonhos,/Não encontrei nada de errado com eles para mereceres/este final horrível/O que de tão errado eras para que o teu fim fosse assim?", escreveu Adal. É impossível ler este livro sem pensar no mesmo.