Apaixona-te pela tua existência. – Jack Kerouac
No rescaldo da Segunda Guerra Mundial, os EUA eram a potência militar mais poderosa do mundo, e um dos países com a economia mais florescente. O boom da economia levou a um boom da natalidade (razão pela qual as pessoas nascidas nesta altura são apelidadas de baby boomers), e a imagem da família de valores tradicionais a viver nos subúrbios, tornou-se numa espécie de postal do “Sonho Americano”. Descrente no sistema capitalista que, cada vez mais, promovia o materialismo e o consumismo como indicadores de uma vida de sucesso e felicidade, a geração Beat surgiu como parte de um movimento de contracultura que procurou subverter os valores que imperavam na sociedade americana dos anos cinquenta.
Inspirados pelo improviso da música jazz, os Beats criaram uma literatura provocadora e livre de convenções, procurando destruir tabus com a abordagem de temas como as drogas e a sexualidade. Embora tenha começado como um movimento literário, este era a expressão de uma insatisfação mais generalizada entre os jovens, perante um sistema que consideravam destrutivo para o espírito humano, algo que influenciou fortemente o movimento hippie. No dia em que comemoramos 98 anos desde o nascimento de um dos seus fundadores, Jack Kerouac, recordamos alguns dos autores que fizeram parte deste movimento, e que viveram em busca de uma existência apaixonada, para além dos moldes que a sociedade lhes impunha.
Jack Kerouac (1922-1969)
[A]s únicas pessoas autênticas para mim são as loucas, as que estão loucas por viver, loucas por falar, loucas por ser salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo (...)
O membro mais conhecido da geração Beat, Jack Kerouac, é o autor do seminal Pela Estrada Fora (1957), considerado uma das obras literárias mais importantes de sempre e um dos melhores exemplos deste movimento literário. Influenciado pela fluidez do improviso que é característica da música jazz, Kerouac descreveu as aventuras que viveu em viagens de carro pelos EUA, num impulso contínuo de energia criativa que resultou num rolo de 36 metros, atualmente considerado um dos mais significativos documentos da literatura americana. Nele, faz menção a alguns dos seus amigos e co-fundadores deste movimento, tais como Neal Cassady, Allen Ginsberg e William S. Burroughs, imortalizando, assim, o espírito contagiante dos Beats.
Ouça-o a declamar alguns dos seus textos:
Neal Cassady (1926-1968)
Apesar de ser uma das principais figuras do movimento Beat, Neal Cassady nunca publicou um livro de sua autoria. No entanto, serviu de inspiração para autores como Allen Ginsberg e sobretudo para Jack Kerouac, que não só o incluiu como personagem na sua obra-prima Pela Estrada Fora, como o referencia pelo facto de este o ter ajudado a encontrar o seu estilo de prosa. A partir das cartas que Cassady lhe escrevia, numa espécie de êxtase louco sem um momento de hesitação da consciência, Kerouac descobriu o estilo corrido de escrita pelo qual é reconhecido - e que descrevia como “prosa espontânea”. Tendo morrido com apenas 42 anos (à semelhança de Kerouac, que morreu com 47), a autobiografia inacabada de Cassady, The First Third, foi publicada postumamente, em 1971.
Allen Ginsberg (1926-1997)
O peso do mundo é o amor.
Conhecido como o rei da poesia Beat, pelo seu estilo fluido e desinibido, Allen Ginsberg é o autor de Uivo (1956), um dos livros de poesia mais lidos, desde sempre, nos EUA. Dedicado a Carl Solomon, um dadaísta que escrevia poesia em prosa, o livro foi apreendido pelos serviços alfandegários dos Estados Unidos e pela polícia de São Francisco aquando da sua publicação, e Ginsberg sujeito a um longo julgamento devido à abordagem de temas como as drogas e a homossexualidade. Contudo, não foi só pelos temas descritos no livro que este foi considerado chocante, mas também pela total desconsideração pelas regras gramaticais e pelas ideias conservadoras que ditavam a tradição literária e a sociedade até então, algo que encapsula na perfeição o espírito disruptivo da geração Beat.
Ouça-o a declamar Uivo e outros poemas seus:
William S. Burroughs (1914-1997)
Não há intensidade de amor ou sentimento que não envolva o risco de uma dor incapacitante. É um dever assumir esse risco, para amar e sentir sem defesa ou reserva.
Apelidado de “padrinho do punk”, William S. Burroughs foi, além de escritor, um artista visual, infame pelo seu uso recreativo de drogas (sobretudo, a heroína sob a influência da qual se encontrava quando matou, acidentalmente, a mulher com um tiro na cabeça). A sua obra mais importante é Naked Lunch (1959), um romance surreal que apesar de, inicialmente, ter sido considerado obsceno, ganhou reconhecimento por parte da crítica literária, tendo sido incluído na lista dos 100 melhores livros em língua inglesa de 1923 a 2005 da revista Time. Em 1991, mereceu também uma adaptação cinematográfica pela mão do realizador americano David Cronenberg.
Ouça-o a declamar alguns dos seus textos:
Lawrence Ferllinghetti (1919-)
A poesia é um homem nu, uma mulher nua, e a distância entre eles.
Tendo completado 100 anos em 2019 (levando a sua cidade natal, São Francisco, a proclamar o seu dia de aniversário, 24 de março, como o Dia de Lawrence Ferllinghetti), é o último poeta vivo da geração Beat. Para além de ser um poeta consagrado, sendo que a sua coletânea de poesia, A Coney Island of the Mind, é considerada um dos livros de poesia mais populares dos EUA, foi também o fundador da livraria e editora City Lights em São Francisco (Califórnia). Ponto de encontro importante dos beats, foi a editora responsável por publicar a maior parte dos seus livros, tendo estado envolvida na controvérsia gerada em volta do livro de Allen Ginsberg, Uivo (razão pela qual Ferllinghetti chegou mesmo a ser preso). Por ocasião do seu centésimo aniversário, escreveu Rapazinho, publicado pela Quetzal, em novembro do ano passado, que se assume como um testemunho autobiográfico do autor.
Ouça o autor a declamar alguns dos poemas que fazem parte de A Coney Island of the Mind: