Sabias que não ter planos é a oportunidade perfeita para o teu cérebro criar ideias geniais? Neste artigo, vais conhecer a Liga dos Heróis do Tédio, descobrir livros fantásticos e aprender a treinar o teu Castor Engenheiro no poder de libertar a mente.
Se estás a ler isto, há uma grande probabilidade de te encontrares deitado no sofá, a olhar para o teto e a suspirar de tal forma que quase provocas um furacão à tua volta. Talvez até tenhas acabado de dizer a frase mais famosa desses dias em que não tens escola: “Não tenho nada para fazer!”.
A maioria dos adultos entra em pânico quando te ouve dizer isto. Começam logo a dar conselhos e sugestões sem graça nenhuma, do género: “vai arrumar o teu quarto”, “vai adiantar o TPC de matemática” ou “vai tirar a louça da máquina antes que ganhe cogumelos”. Cruel, nós sabemos… mas não te deixes contagiar por eles.
E se te dissermos que não teres nenhum plano é, na verdade, a melhor coisa que te podia acontecer? Só há uma condição: todos os ecrãs (televisão, consola, telemóvel…) ficam de fora. Combinado? Neste momento, os ecrãs são uma espécie de zombies que não entram neste filme. Porquê? Porque não te deixam criar nada, apenas devoram o teu tempo e a tua atenção até te deixarem sem forças. É isso que fazem os zombies, certo?
A batalha na tua cabeça: Macaco Stressado vs. Castor Engenheiro
Para perceberes o poder de não fazer nada, precisas de conhecer dois inquilinos que moram no teu cérebro sem pagar renda. O primeiro defende o que é urgente, o segundo defende o que é importante. Conheces as diferenças?
O Macaco Stressado:
Passa a vida a falar, a gritar e a saltar como se não houvesse amanhã. Pior: quer que tu sejas como ele. Um amigo que te chama para ver um vídeo de três segundos com um gato a cair de um frigorífico? Hum, parece urgente — mas será mesmo? Passar de nível num jogo antes que o tempo acabe? Minha nossa, urgente, urgente! O Macaco faz tanto barulho que tu passas o dia a correr atrás dele sem saber o porquê. Ninguém merece!
O Castor Engenheiro:
É o oposto do Macaco (e que bom que isso é). O Castor está na tua cabeça, a imaginar o teu próximo desenho, a inventar piadas novas quando ninguém espera que as digas, a magicar a cabana de cobertores que vais construir ou a processar aquele abraço bom que deste aos teus avós. E isso, sim, são as coisas verdadeiramente importantes! Repara: o Castor não tem luzes nem faz barulho, mas é ele que constrói as paredes da tua imaginação e do teu pensamento livre, raminho a raminho, até estares pronto para criar algo que mais ninguém conseguiu inventar.
Nota
A história do Macaco e do Castor baseia-se num conceito da psicologia chamado “Matriz de Eisenhower” (nome de um antigo presidente dos EUA que tinha de tomar decisões a toda a hora). Distinguir o que é urgente do que é importante serve para percebermos por que razão passamos a vida a correr de um lado para o outro atrás de coisas que julgamos urgentes (e que, às vezes, não são), enquanto deixamos para trás o que é realmente importante.
Apresentamos-te à Liga dos Heróis do Tédio
Acredita: as grandes histórias e aventuras não começam com “era uma vez uma miúda que estava a ver vídeos de 15 segundos no TikTok”. Começam com alguém profundamente aborrecido a olhar para uma parede ou para o céu. Repara no caso da Alice no País das Maravilhas. Estava sentada à beira do rio, junto da irmã, a apanhar uma valente seca. O que aconteceu a seguir? Um coelho de colete e relógio passou por ali a correr. Se ela estivesse a fazer scroll num ecrã, o coelho tinha ido e voltado ao País das Maravilhas e ela nem daria por isso.
Mais personagens? Olha a Pippi das Meias Altas. Quando não há nada para fazer, o chão transforma-se numa mina de ouro. Um prego ferrugento ou uma caixinha de fósforos vazia são, na sua cabeça, objetos raros com poderes secretos. É por isso que ela diz que tem a profissão de “Procuradora de Coisas”.
Vê ainda o Tom Sawyer, que ficou de castigo a pintar uma cerca gigante num dia de sol. Em vez de choramingar, usou a cabeça e fingiu que pintar a cerca era a atividade mais chique do mundo, convencendo os amigos a fazerem o trabalho por ele. Conclusão: o tédio dá-te uns óculos especiais para veres o que outros não veem, como a Pippi, e aguça-te o engenho e a esperteza, como o Tom.
3 livros que o Castor Engenheiro vai adorar
Agora que já conheces a Liga dos Heróis do Tédio, o que podes fazer enquanto o teu Castor Engenheiro trabalha em silêncio? A nossa sugestão é simples: deita-te confortavelmente e abre um livro. Mas não pode ser um livro qualquer, daqueles que se leem a correr. Têm de ser livros para saborear, porque são tão bons que nos obrigam a parar para pensar no que é realmente importante.
Se há coisa que o Macaco Stressado detesta é esperar numa fila. A menina de Odeio Esperar, uma história escrita e ilustrada por Einat Tsarfati, também odeia esperar — seja pelo autocarro, na fila do supermercado ou para adormecer. Mas, em vez de se irritar, ela descobre que cada minuto de tédio é um terreno fértil para a imaginação, como te mostram as ilustrações surreais e cheias de detalhes. É o livro perfeito para perceberes que esperar não é uma perda de tempo; é uma oportunidade para começares a criar histórias na tua cabeça.
Em Quem Souber o que é a Felicidade que o Diga, de Luca Tortolini e Marco Somà, faz-se aquela pergunta tão, mas tão importante: afinal, o que é a felicidade? Há quem passe a vida inteira a correr atrás dela sem a ver, e há quem a tente encontrar nas coisas que compra. Este livro é tão poético e delicado que vais dar por ti fechá-lo a meio de uma página só para olhar para o teto e tentar responder à pergunta do título.
Quem sabe muito bem o que é a felicidade é o Jorge, que vive numa casinha à beira-mar, com o seu jardim, a sua horta e o seu gato. Ao lado, numa mansão gigante e cheia de luxos, mora o casal Florimão. Eles querem comprar o terreno do Jorge e, para isso, oferecem-lhe presentes absurdamente caros. Mas o Jorge recusa sempre, porque diz que “já tem tudo”. O Tesouro do Jorge, de Anne-Sophie Plat e Barroux, faz-te pensar nos teus próprios tesouros: as pequenas alegrias, a família, os amigos, a paz. O que realmente importa não se compra nas lojas.
O guia do tédio extremo para profissionais
Como já percebeste, parar o corpo e a mente para dar tempo ao teu Castor Engenheiro é um poder que te permite ficar temporariamente indisponível para atenderes o Macaco Stressado. Para te ajudar a treinar esse músculo da atenção, deixamos-te quatro missões totalmente autónomas para praticares (sem zombies eletrónicos por perto).
1. Gravidade invertida
Deita-te no chão da sala de pernas para o ar, apoiadas no sofá ou na parede. Olha para o teto e finge que é o chão. Como seria caminhar por ali? Como passarias pelas portas? Como te desviarias dos candeeiros?
2. Campeonato de Câmara Lenta
Escolhe uma tarefa muito simples — como atravessar o quarto ou abrir uma gaveta para tirar uma meia — e tenta fazê-la à velocidade mais lenta que conseguires.
3. Viagem da Formiga
Escolhe um objeto lá de casa, como um comando de televisão ou candeeiro de mesa. Imagina que és uma formiga microscópica a tentar escalá-lo. Como seria a textura? Onde estariam as ravinas perigosas e as montanhas intransponíveis?
4. Planeta Areia
Quando fores à praia, deita-te de barriga para baixo e aproxima os olhos do chão. Esquece o mundo real: agora, és um astronauta minúsculo a explorar um planeta desconhecido. Aqueles grãos de areia são dunas intransponíveis. Aquela haste de junco é uma árvore colossal. Aquele bichinho que passa a correr é um monstro extraterrestre. O que vais fazer para sobreviver?