O primeiro livrólico e outras curiosidades sobre a História da Leitura

Por: Beatriz Sertório a 2021-01-12 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Alberto Manguel

Alberto Manguel

Alberto Manguel (1948, Buenos Aires) cresceu em Telavive e na Argentina. Aos 16 anos, trabalhava na livraria Pygmalion, em Buenos Aires, quando Jorge Luis Borges lhe pediu que lesse para ele em sua casa. Foi leitor de Borges entre 1964 e 1968. Em 1968, mudou ­se para a Europa. Viveu em Espanha, França, Itália e Inglaterra, ganhando a vida como leitor e tradutor para várias editoras. Editou cerca de uma dezena de antologias de contos sobre temas tão díspares como o fantástico ou a literatura erótica. É ensaísta, romancista premiado e autor de vários best-sellers internacionais, como Dicionário de Lugares Imaginários, Uma História da Curiosidade, A Biblioteca à Noite, Embalando a Minha Biblioteca e Com Borges (Tinta­da­china, 2013, 2015, 2016, 2018 e 2020, respetivamente). Foi diretor da Biblioteca Nacional da Argentina entre 2016 e 2018. Foi galardoado com o Prémio Formentor das Letras em 2017. Atualmente, vive em Lisboa, onde vai fundar a Biblioteca e um Centro de Estudos da História da Leitura.

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Se para alguns o ato da leitura não é mais do que uma forma de distração e de passar o tempo, um verdadeiro livrólico sabe este que pode ser muito mais do que isso. Fonte de conhecimento, de prazer, de consolo ou até objeto de subversão, o livro tem sido um dos meios mais valiosos para compreender a civilização e o mundo ao longo dos tempos. Alberto Manguel, autor, editor, tradutor e, em tempos, leitor pessoal de Jorge Luis Borges - quando a visão do autor argentino deixou de lhe permitir dedicar-se à atividade que mais prazer lhe dava -, tem dedicado a sua vida aos livros: a lê-los, a escrevê-los e a escrever sobre eles - recorde-se que, em setembro de 2020, Manguel anunciou a doação da sua magnânima biblioteca (composta por cerca de 40 mil volumes) à cidade de Lisboa.

Em Uma História da Leitura, livro originalmente publicado em 1996, que foi recentemente editado pela Tinta da China, traça a História da leitura, do livro e dos leitores, num relato apaixonado de alguém que, tendo devotado o seu amor aos livros, sabe que “não se lê apenas Crime e Castigo ou A Tree Grows in Brooklyn. Lê-se uma certa edição, um exemplar específico, reconhecível pelo grão do papel, rugoso ou suave, pelo seu odor, por um pedacinho rasgado na página 72 e uma mancha de café no canto direito da contracapa.”

Descubra algumas das curiosidades sobre a História da Leitura que pode encontrar neste livro.


1. Sócrates não era fã de livros

Mestre da retórica, o filósofo ateniense de quem Platão foi o mais notável discípulo, estava habituado a memorizar os seus discursos e a expressar oralmente as suas ideias de maneira persuasiva e eficaz. Por essa razão, quando o registo escrito começou a popularizar-se, Sócrates foi um dos seus mais ferozes críticos. Na sua opinião, um leitor devia ser “singularmente pobre de espírito para acreditar que as palavras escritas podem fazer mais do que recordar-nos aquilo que já sabemos.”

Perto do ano de 1250, Richard de Fournival, filósofo e trovador francês, mais conhecido pelo seu Bestiaire d’amour, discordou do ponto de vista de Sócrates, tendo escrito no prefácio deste mesmo livro uma apologia à leitura e ao livro enquanto forma de preservar e transmitir a memória. Escreve Alberto Manguel, sumarizando o pensamento de Fournival: “como toda a humanidade anseia pelo saber e a vida é curta, tem de depender da sabedoria recolhida por outros para aumentar a riqueza da sua. Para este efeito, Deus deu à alma humana o dom da memória, à qual temos acesso pelos sentidos da visão e da audição.”

 

"A morte de Sócrates" (1787), de Jacques-Louis David.

 

2. Aristóteles foi um dos primeiros livrólicos de que se tem conhecimento

Segundo Alberto Manguel, o filósofo grego aluno de Platão e professor de Alexandre, o Grande, foi um dos primeiros leitores a reunir uma importante coleção de manuscritos para seu uso pessoal. Sendo mencionada no livro Geografia de Estrabão, um tratado de 17 livros que descreve povos e locais de todo o mundo, a biblioteca pessoal de Aristóteles é a primeira biblioteca privada da História da qual existe registo escrito. Sobre este, escreve o historiador e geógrafo grego que "foi o primeiro homem, de que há conhecimento, a colecionar livros e a ensinar os reis do Egito a organizar uma biblioteca."

Depois da sua morte, Artistóteles deixou a sua biblioteca ao cuidado do seu sucessor, Teosfrato.

 

Busto de Aristóteles na biblioteca da Trinity College, em Dublin (Irlanda).

 

3. Ler em silêncio era considerado uma heresia

Uma vez que a literacia foi um privilégio reservado a uma elite durante milhares de anos, a leitura começou por ser uma atividade oral e coletiva. Desde a Roma Antiga até ao século XIX, as sessões de leituras públicas eram uma forma de entretenimento tão popular como os malabaristas ou os bobos na corte. Para além disso, esta era uma forma de continuar a preservar a transmissão de obras banidas pelas autoridades, das quais foram exemplo as obras de Jean-Jacques Rousseau.

Até a leitura em silêncio se tornar norma no mundo cristão, alguns dogmáticos suspeitavam desta nova tendência, considerando que um livro que pode ser lido em privado, “não é susceptível de clarificação imediata ou de leitura guiada, condenação ou censura por um ouvinte". Desde sempre, os leitores foram temidos pois, como acredita veemente Alberto Manguel, "ler é um ato de poder."

 

Uma multidão compra bilhetes para uma sessão de leitura pública de Charles Dickens em Nova Iorque, em 1867.

 

4. A leitura era um privilégio reservado aos homens

Escreve Alberto Manguel que "na iconografia cristã, o livro ou o rolo de pergaminho pertenciam por tradição à divindade masculina, a Deus Pai ou ao Cristo Triunfante, o novo Adão, no qual a palavra de Deus encarnara". Por sua vez, "à mulher pertencia a Criança, afirmando assim o seu papel de mãe." Foi esta a mentalidade que reinou durante a maior parte da Idade Média, período durante o qual as mulheres recebiam apenas a educação julgada útil para o governo do lar, e que adquiriu diferentes ramificações ao longo dos tempos até, por fim, se tornar uma prática aceitável pela sociedade. 

Tal como aconteceu com a maior parte dos grupos de leitores que foram marginalizados, a partir do momento em tiverem permissão para aprender a ler, as mulheres começaram a criar deliberadamente o seu próprio material de leitura. Foi, aliás, a partir de um fenómeno deste tipo, criado pelas mulheres da Corte japonesa, durante o século XI, que nasceu aquele que é considerado o primeiro romance do Mundo - A História de Genji -, cuja autoria é atribuída à fidalga Murasaki Shikibu.

 

"Fruto proibido" (1865), de Auguste Toulmouche.

 

5. Diderot foi um dos primeiros biblioterapeutas

Se acompanha as nossas bulas literárias, integradas na categoria Farmácia Literária deste blogue, sabe que existem diversos estudos científicos que demonstram que ler melhora a nossa saúde. Foi a partir dessa ideia que nasceu a biblioterapia, um tipo de terapia que defende que a cura passa pela leitura de livros. Embora o filósofo francês Denis Diderot, nascido em 1713, ainda não conhecesse este conceito, acreditava no poder terapêutico da leitura em voz alta. Conta Alberto Manguel que "em 1781, Diderot escreveu sobre a «cura» de sua mulher, Nanette, que dizia que nunca tocaria num livro a não ser que o seu conteúdo fosse espiritualmente edificante, submetendo-a ao longo de várias semanas a uma dieta de literatura ousada".

Relata Diderot: "Tornei-me o seu leitor. Administro-lhe três pitadas de Gil Blas todos os dias; uma de manhã, uma após o almoço e a outra ao serão. Quando acabarmos, avançaremos para O Diabo em Duas Varas, O Bacharel de Salamanca e outras obras animadoras da mesma natureza. Alguns anos e umas centenas destas leituras completarão a cura. Se eu tivesse a certeza de ser bem-sucedido, não me queixaria do trabalho. O que me diverte é que ela repete a quem nos visita o que acabei de lhe ler, de forma que a conversa duplica o efeito do remédio. Sempre considerei os romances como produtos frívolos, mas descobri finalmente que são bons para a hipocondria. Darei a fórmula ao Dr. Tronchin da próxima vez que o vir. Receita: oito a dez páginas do Roman comique, de Scarro; quatro capítulos de Dom Quixote; um parágrafo bem escolhido de Rabelais; deixar de infusão numa quantidade razoável de Jacques, o Fatalista ou de Manon Lescaut e variar estes fármacos como se variam as plantas medicinais, substituindo-os por outros com as mesmas propriedades, se necessário."

 

Pintura de Denis Diderot.

 

6. A utilização de estantes de livros (mesmo que falsas) como símbolo de estatuto já é uma tradição antiga

Não foi só a crescente realização de videochamadas que tornou popular a ideia de ter como cenário uma estante bem apetrechada de livros. Na Rússia do século XVIII, durante o reinado de Catarina, a Grande, um tal Sr. Klosterman fez fortuna com a venda de encadernações recheadas de papel velho, que permitiam aos cortesãos criar a ilusão de uma biblioteca e assim cair nas boas graças da sua imperatriz bibliófila. Ainda assim, partilhamos a convicção de Alberto Manguel de que nada substitui uma verdadeira biblioteca - esse espaço que era para o seu velho amigo, Borges, uma espécie de paraíso.

Cenário ilustrado com uma prateleiro de livros, à venda na Amazon.

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