Noite de livros
"A hospitalidade (…) consiste em oferecer proteção e abrigo a alguém que não tem nome."
— José Gil
Somos livros. Livros para serem escritos, falados, e, sobretudo, escutados. Lemos de dia e também à noite.
O tempo, a vida são uma contínua leitura de narrativas da vida. Quando unimos palavras e nos levamos por frases, ficamos sempre mais perto de alguém. De dia e, sobretudo, à noite.
São as noites grandes que nos tornam pequenos. Tudo de quanto fugimos se revela diante da sua chegada. São elas que nos deixam expostos a medos, desde os mais antigos e parecendo esquecidos, aos que invadem agora e paralisam, fazendo olhar para o teto enquanto a resposta não chega. São as noites que obrigam a falar de tudo o que não queremos. Desarrumam velhos armários fechados e teimam em visitar os instantes incómodos dos dias.
São as noites que nos tornam mais verdadeiros, obrigam a quebrar segredos invioláveis, num abraço inesperado a quem já não parecia estar perto. Nelas, se celebra a possibilidade de encontrarmos a paz, no diálogo mais profundo e sentido com o que existe dentro de nós. São elas que exigem mais companhia e, contra as trevas, pedem um coração absoluto, uma alegria plena, uma mão na nossa entrelaçada.
São as noites, como páginas de livros, que nos trazem mais sonhos. Com eles, os desejos mais fortes, gravados em certas palavras por onde tudo é possível acontecer. Nem todos os sonhos acabam bem. Alguns são incómodos, capazes de deixar o corpo frio e a respiração suspensa entre cada virar de página. Mas há outros de final feliz e que vale a pena perseguir pelo desejo intenso de os tornar verdade. É a força inexplicável dos livros, quer dizer, dos sonhos, que permite que as noites nos transportem até onde jamais os dias o fariam.
Há noites muito especiais, como a que celebra o Natal. São feitas de momentos que nunca se esquecem. Trazem sonhos irrepetíveis, e é talvez por isso que, felizmente, há dias que lhe sucedem onde a luz resplandece e nada mais será como dantes. Por elas se faz mais mundo, e o mundo é mais vasto que o próprio infinito.
E estrelas
"É à luz que te recorta que estou preso."
— José Gil
Tantos livros, tanta luz e, por vezes, nenhum escuro para que as estrelas possam brilhar. Há estrelas e livros que apontam caminhos, brilham mais alto que outras, são luzes que não nos deixam perder no escuro. Estrelas enquanto palavras certas, frases escritas no céu a revelarem-nos o futuro.
Há estrelas que iluminam as noites mais tristes. E, sobre a solidão ou a perda, trazem um brilho tão especial que parece que alguma delas nos toca e, de forma suave, ampara e guia uma vez mais. Outras, enfeitam noites alegres, surgem enquanto pontos distantes onde se fixa o olhar sempre que dois corações se juntam e iluminam melhor a vida.
Há estrelas que são sinais, surgem quando ninguém espera, surpreendem e, numa só noite, transformam de maneira irrepetível todos os dias que se lhes seguem. São esteios onde nos podemos deitar tranquilos, envolvidos em esperança, mesmo quando nos sentimos invadidos por mistérios e caminhamos plenos de dúvidas.
Há estrelas (ou também serão livros) que lembram certas pessoas. Têm uma presença tão especial que nunca se apagam e consolam diante da ausência de quem já partiu. Nenhuma repete outra e qualquer um a pode guardar como um tesouro. As noites, as estrelas e os livros. A tristeza e a alegria, a morte e a vida. O não estarmos sós.
A árvore
"Todas as árvores merecem um poema."
— Pedro Strecht
Sejamos humanos. Fiquemos de bem connosco e com todos os que nos rodeiam. Pessoas, animais, natureza. Há arvores que parecem gente e bichos. Pequenas árvores que nascem e crescem silenciosamente, escrevendo a sua vida ao longo dos dias, mudas, simples, no meio de outras e sem distinção aparente. Olha para a vulgaridade das coisas, é dela que surge a complexidade de outras. Árvores como flores, em tudo somente umas mais no mesmo local, imóveis, vivendo em paz a passagem das estações. Todas as árvores são precisas. São livros sobre o silêncio da vida e, como elas, cada pessoa é uma voz irrepetível escavando as suas raízes, local onde alguém assenta e de onde partem, subterrâneos, longos braços que incansavelmente nos amarram à base segura da vida.
Somos troncos, traves que fixam a liberdade de ir mais longe, e ramos que se expandem assimétricos querendo tocar o céu quando há outros que pendem, balouçando ao sabor do vento, capazes de dar um abraço que protege, não em terra distante, mas aqui bem perto da multidão que nos cerca e isola. E as árvores têm ramos e folhas, tal como nos livros se sucedem as páginas e nas pessoas se expandem os braços e os dedos que tocam, embalam e são sorrisos que esperam em silêncio que outra árvore, ou melhor, que outra pessoa os compreenda e ame, ame tão profundamente que o desejo único seja o de simplesmente assim ficar para sempre (que livros guardamos para sempre?).
Há árvores que parecem pessoas. Algumas delas, nem que seja uma vez por ano, apetece trazer para casa e cuidar, tratar com cuidado, vestir com alegria e brilho e vivê-las junto a nós, num sítio central das nossas vidas. Há pessoas que são como árvores, confortam. E, por isso, merecem um especial cuidado durante todos os dias do ano. Valem mais que todos os presentes que depositamos aos seus pés… tão raramente, tão raramente.
O menino
"Só sei que tinha o poder de uma criança
Entre as coisas e mim, havia vizinhança."
— Ruy Belo
Que é ainda ser criança, hoje? Quem é o menino que nos habita?
Há uma voz dentro de cada pessoa que não morre nunca. Vem de longe, celebra a passagem dos anos com passos seguros, todos os dias, um após outro, falando connosco em surdina sobre a mais profunda recordação, o instante irrepetível e longínquo que parecia apagado, até que, subitamente, se iluminou de novo, e é já madrugada.
Uma voz que incomoda quando, ninguém sabe ao certo porquê, não se engana sobre o que diz, torna claro, lógico e inteligível o que até então teimava em não sair do escuro, um contorno omisso e, por isso, incompreensível. Essa voz é a voz da criança que somos. É um som que ecoa profundamente em cada um, a incerteza de não saber o que fazer, o medo de ficar sozinho, o desejo da vida, a necessidade de proteção, o prazer do sonho e, mais do que tudo, a vizinhança da luz.
A criança que amamos, celebramos e festejamos em cada dia é a parte mais profunda de nós próprios, renascida e visitada pela infância dos outros. Sem ela, nenhuma noite, nenhuma estrela, nenhuma árvore faz sentido. Nenhum livro.
Por isso, o Natal é a festa de todas as crianças, a contínua celebração de uma infância agora vivida através daqueles que temos por perto e que, pela sua força de existir, recordam em pleno a criança que cada um já foi. Assim se escreva a palavra esperança e sobre ela ainda muitos mais livros.
"Tu és a esperança, a madrugada Tu és a esperança onde deponho
Meus versos que não podem ser mais nada"
— Eugénio de Andrade
Feliz Natal para todos. Bons livros.
Pedro Strecht
Nasceu em 1966. Terminou o curso de Medicina em 1989, é especialista em Psiquiatria da Infância e Adolescência (Pedopsiquiatria) desde 1995 e autor de mais de cinquenta livros. Foi professor do ensino secundário e do ensino superior, médico no Hospital de Dona Estefânia, no Chapitô, nos Centros Educativos da Bela Vista e Padre António de Oliveira, no Centro Dr. João dos Santos — Casa da Praia, que dirigiu enquanto IPSS, e na Cooperativa A Torre. Foi supervisor do Projeto de Apoio à Família e à Criança Maltratada, coordenou a Equipa de Intervenção Psicossocial do Gabinete de Reconversão do Casal Ventoso e também a Equipa de Intervenção em Crise da Casa Pia de Lisboa. Presidiu à Comissão de Investigação de Abusos Sexuais de Crianças por Membros da Igreja Católica Portuguesa.