Maria Alice Samara nasceu em Lisboa, em abril de 1974. É doutoranda e investigadora do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. O seu trabalho tem-se focado sobre diversos temas relacionados com a Primeira República, tendo publicado, entre outras obras, Sidónio Pais, Fotobiografias do Século XX (coordenação de Joaquim Vieira), Verdes e Vermelhos. Portugal e a Guerra no Ano de Sidónio Pais e Operárias e Burguesas. As Mulheres no Tempo da República.
Elísio Borges Maia: À entrada do século XX, publicavam-se, anualmente, cerca de 500 títulos periódicos e, só em Lisboa, tiravam-se cerca de 300 mil exemplares diários e muitos destes jornais eram lidos em voz alta e por várias pessoas. Qual foi o papel da imprensa na mobilização política destas primeiras décadas do século XX e, concretamente, na implantação da Primeira República?
Maria Alice Samara: Fernando Catroga fala do “projeto republicano” e já escreveu sobre isto: um projeto de revolução cultural; eu acho que esta é uma chave essencial para se compreender o republicanismo ou os republicanismos. É importante para estes homens e também mulheres, nas suas diferentes gerações — porque eles são diferentes, estes republicanos —, pensar a necessidade de instrução, de sentido crítico. Por isso, a sua abordagem à escola. Criam centros republicanos que são, simultaneamente, centros escolares e republicanos. O professor primário, o homem que dá acesso a estas primeiras letras, aparece como uma das figuras-chave do que é o republicanismo. A educação não era apenas para a elite (por isso é que, por exemplo, eles têm cursos noturnos em alguns destes centros republicanos), é pensada como condição essencial para a sociedade pro- gredir e também segundo uma ideia mais lata, que eu acho que tem um significado tanto cultural como político, que é a transformação do súbdito em cidadão. E, este cidadão é um cidadão ilustrado; há aqui esta ligação com os valores iluministas da Revolução Francesa — o progresso, a crítica, ser capaz de pensar por si próprio. Portanto, todo o republicanismo ou todos estes movimentos republicanos partilham este objetivo.
É algo que permeia todo o movimento, esta necessidade de pensar, também no entretenimento, no teatro, escrito de outra forma. Os centros republicanos tinham muitas vezes o seu palco para fazer peças de teatro; aqui há uma visão otimista do que a cultura e a educação podem trazer e é importante, obviamente, nesse aspeto, o que os jornais podem transmitir e aqueles jornais são muito… Eu gosto muito deles porque são jornais que têm um trabalho sério, mas, ao mesmo tempo, se anunciam. Sabemos de que lado é que eles estão, quem é que estão a defender; há os mais generalistas, os mais políticos ou político-partidários, há aqui um trabalho novo a começar, investigações, reportagens… Começa a aparecer a fotografia, a caricatura, e estas imagens permitem a leitura por quem sabe ler e pode partilhar com os outros, mas também por quem não sabe ler. Há uma grande diversidade editorial, uma outra forma de fazer folhetos, de fazer circular a informação. Portanto, eu acho que é curioso esse paradoxo, a nossa iliteracia na altura, a dificuldade em ler e, consequentemente, em escrever, e, ao mesmo tempo, este mundo muito vivo da produção escrita e cultural e, como referiu há pouco, o número de títulos de jornal… Nem todas as pessoas podiam ler, mas nós sabemos como se lia em conjunto. A sociabilidade da leitura, que é muito interessante, e esta produção muito diversa transformaram a forma como as pessoas sentiam que deviam pensar a cidade, as questões ao seu redor, tanto no sentido cultural como político.
E.B.M.: A utilização da ilustração e da caricatura política (Rafael Bordalo Pinheiro, por exemplo) permitia passar a mensagem mesmo quando o destinatário não conseguia ler…

Capa da revista A Paródia, n.º 1, 17 de janeiro de 1900, com ilustração de Rafael Bordalo Pinheiro, BLX-Hemeroteca Municipal de Lisboa
M.A.S.: Há caricaturas muito boas, sim. Tem que ver com o que nós falámos, o princípio deste processo de massificação, de chegar a mais gente e de ser compreensível. Eu acho que há aí um esforço de abertura, isto do espaço de discussão pública não é apenas uma coisa de elite. É uma rede essencialmente urbana, mas que vai para além do meio urbano, pelo menos aqui à volta de Lisboa. Há ali uma tentativa de espalhar a mensagem. Eles tinham esta ideia de espalhar a mensagem.
E.B.M.: No seu ensaio "O republicanismo"2, descreve o papel social e cultural dos centros republicanos, como eles esta- vam presentes “na vida e na morte” das suas comunidades, como antecederam e sobreviveram à República. O legado da Primeira República começa antes do 5 de outubro de 1910?
M.A.S.: Eu acho que sim. Começa nesse trabalho, por exemplo na forma como se organizam os comícios… as pessoas vêm para a rua. Eles têm um conjunto de instrumentos, de propaganda, de difusão, e uma ideia que para mim é muito importante: a política é feita pelo cidadão, ainda que essencialmente masculino. Esta ideia de que todos nós temos direito a pensar a cidade política e o que queremos, a falar de política, eu acho que ela é muito vincada no republicanismo e que é muito importante, independentemente das vicissitudes do regime. Não tivemos o sufrágio universal, é certo, mas, apesar de tudo e das suas limitações, há aqui uma ideia de emancipação.
“Esta ideia de que todos nós temos direito a pensar a cidade política e o que queremos, de falar de política, é muito vincada no republicanismo.”
E.B.M.: O republicanismo não era apenas um fenómeno político-partidário. A Alice fala numa “galáxia republicana” e, de facto, era uma organização muito complexa e que penetrava em setores muito diferentes da sociedade. Ao mesmo tempo, quando olhamos para o que aconteceu após a implantação da República, parece que a união estava sobretudo no que não queriam. Era muito claro que não queriam a Monarquia, esse era um dos consensos, e o outro era a recusa do peso da igreja, da sua influência; mas quanto ao que queriam, essa pluralidade acabou por ser difícil de gerir, está de acordo?
M.A.S.: Eles tinham aquela expressão da nova aurora. Esta ideia da nova aurora, da regeneração do país, de transformação, da entrada na modernidade — e aí o projeto cultural é mesmo muito importante —, da igualdade social entre todos estes cidadãos... Eu acho que há algumas coisas que uniam estes republicanos. Depois, a aplicação da ideia… Por exemplo, todos concordam que a religião é uma questão do foro privado, que o Estado não deve ter religião, deve ser neutro em matéria religiosa, mas a aplicação da lei de separação [do Estado das Igrejas, de 20 de abril de 1911] cria algumas fissuras entre estes republicanos. Eles têm posicionamentos diferentes. Eles falam muito de curar a sociedade, regenerar, extirpar a doença, às vezes falam mesmo no cancro. Portanto, eles têm este projeto, e eu acho que é muito eficaz terem esta ideia de futuro. Claro que depois há diferentes sensibilidades, sobre como é que se faz e, sobretudo, sobre a forma e o tempo. Talvez daqui a uns tempos, possamos dar o voto a…, mas as pessoas querem já, não é? Não querem esperar. Mas há algumas ideias unificadoras e é isso que também explica a sobrevivência da República. A propósito do momento em que cai a Primeira República, Fernando Rosas diz uma coisa curiosa: que tudo aquilo é contra o governo de António Maria da Silva, contra aquela república, aquela política. Há ali uma conspiração muito multiforme, mas é contra aquela república. Porque a ideia de República sobrevive, eles depois vão bater-se em armas por ela, como a investigação de Luís Farinha sobre o período do reviralho veio realçar — vão bater-se em armas contra a ditadura.
E.B.M.: E a literatura também foi importante neste processo de tomada de consciência das condições sociais, no despertar para uma participação na vida política?
“A literatura é um sinal, um indício, às vezes um presságio… A literatura tem um peso muito importante na nossa mentalidade, na nossa mundividência.”
M.A.S.: Sim, eu acho que sim. Pelo menos nesta época que tenho estudado, a literatura é um sinal, um indício, às vezes um presságio… a literatura tem um peso muito importante na nossa mentalidade, na nossa mundividência. Neste período, há uma literatura de denúncia das condições sociais, do que se vê. Ainda hoje algumas destas obras ajudam a caracterizar esta época, a perceber o espírito daquele tempo. Por exemplo, como é que esses autores olhavam para o operariado, para as suas condições, ajuda-nos a perceber como era a vida daquelas pessoas, que a questão social era relevante, como era, muito prosaicamente, o bacalhau a pataco. Esse bacalhau barato também era importante neste projeto. É um projeto dos valores, mas também da melhoria das condições de vida. Mais do que os livros, é através de outras publicações como os almanaques — que tinham o estado do tempo, os conselhos, as crónicas, os poemas — que estas ideias vão passando. Até mesmo nos fados. Esta ideia de que é possível recomeçar. É possível recomeçar.
E.B.M.: Bela ideia: “é possível recomeçar”.
M.A.S.: Eu se calhar sou demasiado otimista em relação à República porque gosto de ver isto.
E.B.M.: Falemos agora do legado da Primeira República. Antes de abordarmos outros aspetos de alguma contro- vérsia — por exemplo, no plano social ou da situação da mulher — quais são, do seu ponto de vista, os ganhos inequívocos, incontroversos, que esta nos deixou?
M.A.S.: Um que me parece fundamental é a separação entre a esfera do que é religioso e do que é político. Isso a República vai fazê-lo. Eu acho que isto é um sinal de modernidade do campo político. Esta separação, que eles herdaram da República Francesa, este processo de laicização da sociedade, é muito importante. Depois, a modernização do Estado, do seu aparelho, nomeadamente com a lei do registo civil. É o Estado que passa a realizar e guardar o registo da sua população e não o padre. Finalmente, o projeto educativo é outro aspeto que nós podemos subscrever, com as devidas diferenças, mas realçando a importância do que é ter uma sociedade com um claro objetivo de educação, de progresso, neste sentido educacional, de instrução, cultural, que é muito importante. Portanto, a separação e a educação são dois legados importantes da República. O terceiro é o político. Apesar das promessas não cumpridas, de a legislação não acompanhar algumas aspirações e reivindicações de uma abertura muito maior do sistema político, [a República] criou uma estrutura mental nova: as pessoas comuns passam a discutir política, a pensar a política, o que se podia fazer tanto no Café Gelo onde estavam os regicidas, como num outro sítio frequentado por outro segmento social. Esta ideia de participação não é totalmente cumprida na República, não há sufrágio [universal], não é uma verdadeira democratização, isso só vamos ter após o 25 de Abril. Socialmente, há uma aliança entre a república e as classes trabalhadoras, o movimento operário organizado; tomaram-se algumas medidas sociais, mas o conflito entre a república e as classes trabalhadoras abre-se muito depressa. A lei da greve é um bom exemplo: é possível a greve, mas também o lockout patronal… Quem sonhava com a república social, não a viu acontecer.
E.B.M.: Por isso, de resto, ficou conhecido como o “Decreto Burla”…
M.A.S.: Exatamente.
E.B.M.: Nas condições de efetivação do direito à greve havia ali uma série de matizes que o coartavam. E isso foi logo em 1910… é começar com uma desilusão.
M.A.S.: Mas há outras medidas nesta legislação social, por exemplo quanto aos acidentes de trabalho. Depois em 1919, sobretudo com a lei das 8 horas de trabalho, há uma espécie de compensação. Obviamente já com medo da Revolução Russa, que estava ali. As classes populares e o movimento operário organizado ainda vão defen- der a República do perigo monárquico, em Monsanto, em 1919, mas há alguma desilusão, sobretudo quando percebem que esta república institucional, afinal, não vai chegar. Esta relação vai-se deteriorar no pós-guerra, numa mundividência muito diferente. Neste primeiro pós-guerra, o que parece atraente, sobretudo depois de Mussolini, são soluções de outro tipo. Eu acho que os republicanos têm mais hegemonia cultural, se é que assim se pode dizer, até à guerra; e que neste período de 1914-18, alguns destes republicanos…
E.B.M.: Deixam-se seduzir por outras ideias…
M.A.S.: Mesmo que eles não se deixem seduzir, há uma outra geração. Eu acho que é uma época muito confusa. Espero que não vivamos agora uma época de grande confusão nos atuais anos 20…
E.B.M.: Ainda no plano da reforma social — da falta dela ou da sua insuficiência —, fica a ideia de que faltou vontade ou, pelo menos, de que houve uma subalternização da questão social relativamente à questão política. No ensaio que dedicou a este tema3, percebemos que a elite republicana tinha esta ideia de falar pelo povo e de que — falando pelo povo — sabia melhor o caminho a tomar, acabando a reprimir violentamente as reivindicações que apenas reclamavam o cumprimento das promessas que haviam sido feitas… O historiador Fernando Rosas é muito crítico da Primeira República neste ponto, afirmando que esta não quis ir contra os interesses estabelecidos. Pelo contrário: procurou demonstrar-lhes que poderia governar sem os beliscar, buscando a sua aprovação, mas esbanjando qualquer possibilidade de ter um apoio mais alargado da sociedade. Está de acordo?
M.A.S.: Eu acho que há um setor do republicanismo, que é minoritário, que estaria disponível e aberto — que faz pontes com o movimento operário — a dar mais e mais depressa. E há outro setor do republicanismo que é radical no sentido político (por exemplo, na aplicação da lei de separação ou na eliminação dos feriados reli- giosos), mas que socialmente é um bocadinho mais con- servador. E quando nós vemos o Afonso Costa, que é a grande figura da primeira fase da Primeira República, ele quer equilibrar o orçamento e tem uma postura clássica conservadora. Acha que “isto é com tempo”, vai reprimir os grevistas com a recém-criada GNR, e quando Sidónio Pais toma o poder, é já longa a lista de presos por questões sociais. Aí o Fernando Rosas tem razão: eles receiam essa transformação, para se apresentarem como ordeiros e terem o apoio do que se chamava na altura “as forças vivas”. Aliás, o António Maria da Silva era muito claro e dizia que queria gerir o país com as forças vivas — ora, acho que foi o Fernando [Rosas] que fez este comentá- rio, se era para governar com as forças vivas, então elas podiam governar sozinhas.
E.B.M.: E foi o que fizeram.
M.A.S.: E foi o que fizeram. Socialmente, eu acho que sim, podiam ter feito mais, é um pouco como as reivindicações das mulheres, eventualmente vocês vão ter este direito. Há um namoro muito bonito, mas assim que chega a República, e apesar de a Ana Castro Osório ter uma forte ligação com Afonso Costa e as Leis da Família e do Divórcio…
E.B.M.: Ana Castro Osório colaborou mesmo com Afonso Costa nesse processo legislativo.
M.A.S.: Mas depois aquela transformação que elas querem mesmo, onde é que está? O grande sinal é a Carolina Bea- triz Ângelo votar, mas tem de recorrer a tudo o que pode e ir a tribunal. E, depois, muda-se a lei eleitoral para [chefes de família do] sexo masculino, não é? É o grande sinal: “ainda não, vocês vão ter de esperar”. Há ali um namoro muito bonito, mas o casamento foi muito menos romântico. É extremamente difícil o acesso a determinadas profissões, foi uma evolução muito lenta o que as mulheres...
E.B.M.: Uma parte dessas mudanças ocorre já com Sidónio Pais, não é verdade?

Ilustração Portuguesa, n.º 690, 12 de maio de 1919, p. 374, © BLX-Hemeroteca Municipal de Lisboa
“O António Maria da Silva dizia que queria gerir o país com as forças vivas — ora, se era para governar com as forças vivas, elas podiam governar sozinhas.”
M.A.S.: Sim, sim, exatamente.
E.B.M.: Há um decreto que vai alargar o sufrágio, mas mantém as mulheres de fora, e como compensação, pouco tempo depois, são alargadas as funções que as mulheres podem exercer.
M.A.S.: Exatamente. Esse foi um caminho muito, muito longo. A organização das mulheres é interessante e é permitida... são elas que fazem a bandeira para a revolução, mas fica muito aquém do que era possível. Não há uma democratização republicana. O verdadeiro ciclo democrático só começa após o 25 de abril [de 1974].
E.B.M.: Ainda assim temos o divórcio por mútuo consentimento e no divórcio litigioso também há uma equiparação das situações em que homem e mulher o podem pedir — o que não acontecia até estas leis do Divórcio e da Família de 1910 —, e põe-se termo à discrepância das penas a aplicar ao homem e à mulher adúlteros...
M.A.S.: Julgo que a grande transformação que a República permite é a possibilidade de as mulheres se organizarem...
E.B.M.: E isso perdura...
M.A.S.: Isso perdura, o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas vai até muito mais à frente. Na Primeira Grande Guerra, as mulheres começam a fazer algumas coisas diferentes, a ocupar outros lugares, a estarem presentes na sociedade, mas depois os regimes fas- cistas e autoritários da Europa remetem-nas outra vez para o lar, para a casa, para o papel de mãe... O período da República permitiu este desenvolvimento: as mulheres acharam que era da sua responsabilidade a sua própria libertação e emancipação e vão trabalhar para criar estas redes.
E.B.M.: Passemos agora às razões do fracasso da República. Fernando Rosas entende que a decisão de participar na Grande Guerra é um fator decisivo para o fracasso da República, nomeadamente por causa da crise económica que aí se abre e que nunca mais se resolveu. Do seu ponto de vista, qual foi a relevância dessa decisão e que outros fatores devemos ter em conta?
M.A.S.: A República nunca teve uma vida fácil... ela é implantada num cenário internacional em que está muito isolada, naquela Europa de impérios e cabeças coroadas. Portanto, internacionalmente, não era fácil a afirmação da República, mas não era impossível, claro. Logo em 1911-12, há incursões monárquicas, portanto a República está sempre à defesa nestes primeiros anos. De facto, correu muito mal a participação de Portugal na Grande Guerra e teve efeitos nocivos, mas pretendia-se unir forças...
E.B.M.: Contra o inimigo externo…
M.A.S.: Em torno das novas cores, da nova bandeira, mas corre mal, o resultado é muito pesado. Há também um discurso do Afonso Costa em que ele assume que a par- ticipação na Guerra podia estimular as nossas indústrias, portanto esta entrada na guerra não era totalmente irra- cional. Outro fator que não favorece a República, pelo contrário, é a erosão da ideia de política. Começa-se a pensar que a política e os políticos — e o Sidónio Pais vai utilizar muito estes argumentos — não são uma coisa nobre, há uma associação da política à desordem. Um dos governos da República diz mesmo “o meu programa é ordem, ordem, ordem”. Há o medo da ameaça vermelha e a Europa naqueles primeiros anos vai senti-lo e esta ideia de ordem nas ruas, no parlamento, nas contas vai ser defendida como se fosse em si um valor. Esta nova forma de pensar não é favorável a uma República que, após a Noite Sangrenta [de 19 para 20 de outubro de 1921], é confrontada com o trauma de matar os seus próprios filhos, devorar os seus próprios heróis fundadores, o que irá servir, depois, obviamente, a leitura que o Estado Novo vai fazer desta República.
“Julgo que a grande transformação que a República permite é a possibilidade de as mulheres se organizarem.”
E.B.M.: Já vimos que do ponto de vista social, a República não foi muito progressista, mas do ponto de vista religioso parece ter ido longe demais, não pela decisão da laicização do Estado ou da própria escola, mas por ter havido uma intromissão na vida da igreja, nas suas deci- sões internas. Naquele Portugal das primeiras décadas do século XX, em que medida isso contribuiu para o isolamento do novo regime?
M.A.S.: A Lei da Separação [do Estado das Igrejas] tem aspetos claramente acintosos, como a proibição de usar vestes talares em público. Há quem lhe chame uma espécie de “neorregalismo”, o Estado passa a ter um poder sobre a Igreja Católica. Existe algum conflito logo naqueles primeiros anos; obviamente, há um inimigo claro, um inimigo monárquico, mas também um inimigo dos púlpitos, esta hierarquia da Igreja Católica. O Sidónio Pais vai amenizar esta questão na segunda fase da República, e depois mesmo com António José de Almeida presidente, há uma normalização das relações com a Igreja Católica.
E.B.M.: Mas aí já estamos num outro período. Nos primeiros anos, o conflito aberto com a Igreja Católica acabou por empurrar o mundo rural para os braços dos que queriam a contrarrevolução...
M.A.S.: Exatamente. Era a cidade ateia jacobina radical republicana e eu acho que as mobilizações em torno de Fátima, independentemente da crença de cada um — a rapidez do fenómeno e a quantidade de pessoas —, é uma resposta à cidade ateia radical jacobina que nos levou para a Guerra e mostra muito o desconforto, que não é apenas das elites da Igreja. É uma mobilização muito curiosa, que é interessante estudar, com muitos episódios, como a prisão dos pastorinhos pelo administrador do concelho... Concordo totalmente que este conflito, na primeira fase da República, é muito difícil. Se eles podiam ter feito de outra maneira... Talvez, mas, ao mesmo tempo, era preciso marcar uma diferença, deixar claro que, de facto, se estava a separar o trono do altar. Algumas das coisas foram um pouco acintosas demais, depois revistas. Poderiam ter tido mais cuidado, mas eu também percebo, há muito tempo que se vinha pensando nesta necessidade de laicização da sociedade e eles achavam mesmo que isto era a forma de passar para uma sociedade mais evoluída — e até utilizavam estes termos.
E.B.M.: No programa do Partido Republicano Português de 1891 estava prometido o sufrágio universal, mas não incluía as mulheres. Após a implantação da República, o direito de voto para a Assembleia Nacional Constituinte foi atribuído aos homens com mais de vinte e um anos que soubessem ler e escrever e aos «chefes de família», sem especificar o sexo, o que permitiu a Carolina Beatriz Ângelo, já depois de uma decisão judicial, votar nesse primeiro ato eleitoral de 28 de maio de 1911. A questão é esta: se a República tivesse cum- prido a promessa do sufrágio universal para os homens e atribuído o direito de voto, ainda que mitigado, às mulheres (isso era discutido entre as próprias mulheres, na verdade era minoritária a corrente que defendia o direito de voto para todas as mulheres), poderia ter feito a diferença? Essa democratização mais arrojada poderia ter contribuído para o alargamento da base social de apoio e ditado um outro desfecho para a Primeira República?
M.A.S.: Eu acho que se fizessem eleições, vamos supor, em 1911 com sufrágio universal, poderíamos ter ali uma surpresa no sentido de voto. Se eu tivesse que pensar no que poderia ser o resultado daquela votação, pode- ria sair dali uma República conservadora. Imagino que a maior parte das pessoas que não votavam, que estavam impedidas de votar, teriam um certo sentido de voto, mas também me pergunto se seria igual no Norte e no Sul do país. Eu não me sinto totalmente segura a dizer o que parece mais lógico, que os republicanos não ganhariam. Dependeria de como o fizessem, se existiria uma campanha (campanha com muitas aspas)… o que é que aconteceria, por exemplo no Alentejo, que não era tão despovoado como é hoje, nas zonas de concentração operária… votariam no partido socialista se ele pudesse concorrer? Eu diria que tenho de estudar mais para poder dar uma resposta segura.
E.B.M.: Sabemos que esse Portugal é conservador, mas não conseguimos prever que efeito teria poderem participar efetivamente na vida política por meio do voto...
M.A.S.: Há aqui uma parte desta população, mesmo que seja analfabeta e não tenha acesso à mesma cultura, que aprende na sociabilidade, debate, discute e tem uma noção do que é que quer para a sua vida, do que é que poderia ser melhor. E nós conhecemos pouco. No fundo, as fontes para chegar a estas pessoas são escassas, mas encontram-se algumas coisas que mostram que há aqui uma divergência que eu gostaria de conhecer melhor... olho para isto como um campo bastante interessante e se encontrássemos mais manuscritos ou outro tipo de fontes, isso iria enriquecer as nossas análises. Era uma coisa que eu gostaria de fazer e ainda não está feita. Às vezes, tenho a sensação de que nós olhamos da cidade para estes locais…
E.B.M.: Como se fosse tudo igual…
M.A.S.: Ir lá e perceber o que existe, o que faziam, como é que eles discutiam, aquilo é efervescente e interessante.
E.B.M.: Avancemos para o curto e interessante período do Sidonismo. Sidónio Pais tenta alargar a sua base de apoio, viajar pelo País, aproximar-se das pessoas, do mundo rural.
Num ensaio que dedicou ao Sidonismo4, a Alice identifica uma espécie de personalização da política. E depois todo aquele simbolismo da farda… Nas suas palavras, há uma «estetização da política». Com a decisão de acumular a Presidência da República logo a seguir ao golpe, o apagamento de outras figuras, começa-se a perceber que só há ali lugar para um. O Sidonismo é um sintoma de uma crise mais profunda do sistema liberal? É ele próprio uma causa do destino que vai ter a Primeira República por ter fornecido às direitas (com o seu fracasso) uma série de ensinamentos sobre os erros que não deveriam repetir? Estamos a falar de um ensaio para o Estado Novo?
M.A.S.: Agora acho que queria responder como nos inquéritos: todas as acima mencionadas [risos]. Porque eu concordo com isso, é um sintoma dessa crise do liberalismo, essa crise do sistema liberal agónico, no caso monárquico. A República ainda apanha esta crise. O Sidónio Pais é um homem que nasce politicamente em tempos muito complicados, do regime em Portugal do seu tempo, mas também de um contexto maior, a Guerra. Tudo isto ajuda a explicar [o Sidonismo] e também fornece esse ensinamento à direita. Ele geriu muito bem a divisão que existia entre República e Monarquia: a questão do regime talvez seja secundária se este tiver certas características…

Ana de Castro Osório e Carolina Beatriz Ângelo, Ilustração Portuguesa, 1911,
© BLX-Hemeroteca Municipal de Lisboa
E.B.M.: Se houver ordem, tanto faz ser um Rei ou um Presidente.
M.A.S.: Exatamente, isto é uma aprendizagem importante para as direitas e ele vai ensaiando. Sidónio Pais é um homem que traz coisas que parecem vir do período de propaganda republicana, onde tínhamos não um, mas vários líderes, pois os republicanos investiam na sua multiplicidade de figuras fortes. Bernardino Machado aparece a cumprimentar Jesus Cristo, naquele quadro, ou talvez seja ao contrário, Jesus Cristo a cumprimentar o Bernardino Machado… Temos este homem que aparece como um homem gentil e conciliador muito à frente do seu tempo. Numa altura em que foi filmado durante a guerra, olhou diretamente para a câmara; aquilo podia parecer estranho, mas há ali uma empatia grande, como havia noutros, em António José de Almeida, Afonso Costa. Parece que Sidónio Pais quer juntar esta mobilização dos tempos de propaganda com este elemento novo, como há pouco referiu e eu concordo, que é a farda. Ele vestiu a farda e os outros eram chefes, líderes, enfim, eram políticos civis…
E.B.M.: Eram políticos e ele queria mostrar-se como não político…
M.A.S.: Exatamente, não político, com aquela farda que ele inventa, muda ali umas coisas, as estrelas, e depois vai mudando, mas aquilo é eficaz. E o Sidónio percebe no pro- cesso — não estou convencida de que ele tivesse esta ideia — que é preciso este contacto com as populações e que isso tem uma espécie de efeito multiplicador; ele percebe o efeito que têm as fotografias de multidões à espera dele… Ele percebe isto e joga — não creio que o pusesse da forma como vou pôr agora —, ele joga com o seu carisma. Ele constrói o seu carisma. Por isso é que, na chamada Constituição de 1918, ele decide abrir ali um pouco o sistema eleitoral. No fundo está a dizer “Eu estou a fazer aquilo que a República prometeu”, fazendo, na verdade, uma coisa diferente, porque o regime é diferente, ele acumula as funções, ele queria presidencialismo, é preciso uma nova Constituição e ele só muda algumas coisas. Ele também fala no partido, ainda lhe chama partido único… Há ali uma experiência, uma intuição, novos modos de fazer política, de gerir uma imagem, que são muito eficazes. O Sidónio Pais, no fundo, é o sintoma da crise do sistema liberal, o sintoma dos problemas da República. Muito de acordo com a crise da guerra, ele vai buscar esse messianismo e há até um romance, cujo autor não me consigo recordar, em que o Sidónio Pais casaria com uma descendente de Dom Sebastião… Ele conjuga tudo, coisas do passado e do futuro, é um presságio do que vai acontecer a seguir. O que fazem dele publicamente, a sua imagem pública... Num curto período de tempo encontramos ali sinais, coisas anteriores, coisas futuras, como se fosse uma cápsula do tempo entre o passado e o futuro. Eu acho muito interessante a experiência do Sidonismo.
E.B.M.: Há também uma ligação entre o golpe que conduziu Sidónio Pais ao poder e a Noite Sangrenta (de 19 para 20 de outubro de 1921). Esta, por sua vez, também foi importante na criação das condições para o golpe militar do 28 de maio de 1926…
M.A.S.: A Noite Sangrenta é muito traumática para a República, porque é a violência da República sobre si própria, e uma das coisas que é para mim muito óbvia é que os homens que estão envolvidos — Abel Olímpio e outros — parecem estar a ajustar contas com o Sidonismo, como se este representasse a ordem e aqueles homens a desordem. Apesar de existirem várias interpretações, o certo é que eles libertam José Júlio da Costa e são cerca de duzentas pessoas, pelo que eu vi nos jornais, que vão libertar o assassino de Sidónio Pais, que vai andar solto mais ou menos à vontade. Estes grupos que durante a Noite Sangrenta libertam o homem que matou Sidónio Pais e matam dois fundadores da República que estiveram com Sidónio Pais…

Sidónio Pais aquando da proclamação como Presidente da República, 1918-05-09, Lisboa / Secção Fotográfica e Cinematográfica do Exército / © Museu da Presidência da República
E.B.M.: Machado Santos e…
M.A.S.: E o Carlos da Maia. Independentemente do que aconteceu, de quem são os mandantes, para quem leu o que aconteceu no jornal, quem pôde pensar acerca do que aconteceu, libertar o homem que matou o Sidónio, que era o homem da ordem… A Noite Sangrenta foi a desordem radical, o que não acontecera com o regicídio uns anos antes. O que é muito claro ali é a existência de um conjunto de alvos e de algumas inimizades profundas que um certo republicanismo muito radical teria em relação àqueles que poderiam fazer fracassar a Repú- blica, trazer o passado de volta. Mas, no fundo, a Noite Sangrenta, o que aconteceu, funcionou…
E.B.M.: Ao contrário.
M.A.S.: Ao contrário, sim, manchou muito a imagem da República. Ainda assim, este republicanismo popular vai continuar a existir. Não são só aquelas grandes figuras da elite que aparecem nas comemorações do Cinco de Outubro, que se vão fazendo já na ditadura, que vestem o seu fato, que vão ao Alto de São João e a outros cemi- térios. Apesar de tudo, este republicanismo popular não violento permaneceu muito vivo. Para alguns republica- nos, a Noite Sangrenta não era a verdadeira República, portanto, vão continuar a defendê-la.
E.B.M.: O reviralhismo acaba por demonstrar isso mesmo, a República não caiu sem luta. Apesar das ambiguidades no 28 de maio, há, depois, uma defesa clara que vai ser fortemente reprimida...
M.A.S.: Há imagens de um 5 de outubro, de uma comemoração com Humberto Delgado que é particularmente violenta em Lisboa. Percebemos que com as comemorações da República, a ida ao cemitério, sobretudo naquele contexto, se pedia a República, a democracia, a libertação dos presos políticos. Há já outras ideologias, outras formas de pensar o futuro, outras linhas políticas, mas os republicanos ainda estão lá. Eu gosto muito dos republicanos e, se calhar, defendo-os um bocadinho demais… Eu percebo que eles não são… eles não fazem a democratização, não fazem tudo o que é possível, mas esta efervescência, este acreditar, esta ideia de uma nova aurora que vai aparecer ali, é muito interessante. Gosto muito deles por causa disto.
“Sidónio percebe que é preciso o contacto com as populações e que isso tem uma espécie de efeito multiplicador; percebe o efeito que têm as fotografias de multidões à espera dele. Percebe isso e joga com o seu carisma.”
E.B.M.: E contagia…
M.A.S.: Eu agora estava aqui a pensar se serei republicana a mais… [risos]
E.B.M.: Acho que é uma bela maneira de terminarmos, muito obrigado.

Ilustração Portuguesa, 29 de outubro de 1921, p. 318, © Hemeroteca Municipal de Lisboa
1 TRINDADE, Luís, Dar Espetáculo: a cultura em Portugal no século XX, in AA.VV., O Século XX Português, Tinta-da-china, 2020, págs. 293-355.
2 SAMARA, Maria Alice, O Republicanismo, in AA.VV., História da Primeira República Portuguesa, Tinta-da-china, 2021, págs. 61-77.
3 SAMARA, Maria Alice, A questão social: à espera da «Nova Aurora», in AA.VV., História da Primeira República Portuguesa, Tinta-da-china, 2021, págs. 149-168.
4 SAMARA, Maria Alice, Sidonismo e restauração da República. Uma «encruzilhada de paixões contraditórias», in AA.VV., História da Primeira República Portuguesa, Tinta-da-china, 2021, págs. 371-396.
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