Fátima Sá e Melo Ferreira é doutorada em História pela Universidade de Paris I (Sorbonne), professora aposentada do Departamento de História do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa, investigadora do CIES-IUL e do Instituto de História Contemporânea (IHC) da FCSH da Universidade Nova de Lisboa. Membro do conselho de redação da revista Ler História, da qual foi cofundadora e Diretora, entre 2014 e 2016. É autora, entre outras, das seguintes obras: D. Miguel (com Maria Alexandre Lousada), Lisboa, Círculo de Leitores, 2006. Rebeldes e insubmissos. Resistências populares ao liberalismo, 1834-1844, Porto, Ed. Afrontamento, 2002. Organizou, entre outras, a obra Contra-revolução, espírito público e opinião no sul da Europa: séculos XVIII e XIX, Lisboa, CEHCP, 2009
Elísio Borges Maia: Na sua obra Rebeldes e insubmissos — Resistências populares ao liberalismo (1834-1844), salientou que a permanência da família real portuguesa no Brasil produziu uma “inversão de papéis entre cada uma das partes do império: Portugal estaria não só a ser relegado para uma posição periférica, mas também conduzido à situação humilhante de se tornar colónia da sua própria colónia” 1. Podendo compreender-se que a família real tenha permanecido no Brasil até ao fim da guerra peninsular, o que sabemos das razões que a fizeram permanecer após o termo do conflito e mesmo após o Congresso de Viena e a coroação de D. João VI?
Fátima Sá e Melo Ferreira: O que sabemos, bom, há gente que sabe muito mais do que eu, e há uma bibliografia muito relevante sobre esse tema, nomeadamente no Brasil. Para enquadrar a questão, é muito importante começar por dizer que aquilo que uns chamam “a fuga para o Brasil” e, outros, “a passagem da corte portuguesa para o Brasil”, é um processo único na grande crise que a expansão napoleónica desencadeou na Europa e, a seguir, nas Américas. Não houve nenhuma outra corte europeia, nenhum soberano europeu que se tivesse deslocado para uma colónia. Portanto, é um acontecimento único, que condiciona completamente o futuro político do Brasil. Ao contrário do que acontece com as antigas colónias espanholas, que se cindiram em vários territórios autónomos, que se vão tornar repúblicas independentes, o Brasil vai permanecer um império unido, com um imperador da casa de Bragança, o que importa ter bem presente. Relativamente à pergunta que me fez, desde a chegada do princípe regente ao Brasil tudo se começou a encaminhar para o Rio de Janeiro passar a ser a capital do império luso-brasileiro. De resto, já tinha havido planos no século XVIII — de D. Luís da Cunha, por exemplo — para mudar para o Brasil o centro de decisão política do império. Isso acaba por se concretizar nesta altura. A presença de D. João e da Corte no Brasil dá um impulso à economia brasileira, às instituições culturais, aos centros políticos, à administração, que é quase imparável. Assim, o facto de D. João e a família real terem permanecido no Brasil até ao limite do possível, significa, de facto, não propriamente o projeto, mas essa intenção de fazer realmente uma deslocalização do centro do império. No Brasil, há livros muito interessantes sobre este assunto, por exemplo, um livro de uma autora americana, Kirsten Schultz, que se chama Versalhes tropical2. É um livro muito bom, que ajuda a compreender como se instalou ali o centro, o centro simbólico, o centro político, o centro económico...
E.B.M.: E cultural, também. Criaram-se várias instituições novas (a Imprensa Régia, a Biblioteca Pública, o Teatro Nacional), o Rio de Janeiro começa a assemelhar-se a uma das grandes capi-tais europeias...
F.S.M.F.: Exatamente, a tal Versalhes tropical. Quem estudou isto, muito aprofundadamente, foi o meu colega Valentim Alexandre, num livro publicado há muitos anos na Afrontamento, chamado Os sentidos do império3. Em Portugal, é a obra mais importante que se escreveu sobre a transição do centro do império para o Brasil, a crise do império, é um livro que, realmente, fez história e ainda faz, tanto em Portugal como no Brasil. De realçar, no mesmo sentido, várias das obras da historiadora brasileira Lúcia Bastos Pereira das Neves.
E.B.M.: Aproximemo-nos agora da revolução liberal de 1820. Ainda que pudessem ser aliciantes as novas ideias liberais, que começavam a penetrar em Portugal, estas eram conotadas com os invasores (frequentemente, os liberais eram mesmo apodados de “traidores à pátria”), o que terá condicionado a primeira experiência liberal portuguesa (o Vintismo), marcadamente nacionalista e patriótica. Por outro lado, como salientou na obra que citei anteriormente, este “grande abalo nacionalista dos anos das invasões” terá contribuído para “identificar duradouramente a «nação» com a monarquia absoluta e a religião católica”.4 Apesar da enorme prudência e moderação que o movimento liberal demonstrou relativamente ao clero e à Igreja Católica, esse efeito produzido pelas Invasões Francesas ajuda a explicar o distanciamento das classes populares, em especial dos camponeses, ou foram os liberais do Vintismo, onde se incluía, de resto, a burguesia rural, que enjeitaram esse apoio?
F.S.M.F.: A resposta a essa questão tem de ser multifacetada. De facto — foi isso que defendi, quando era uma ideia não muito espalhada — eu acho que os liberais não quiseram apelar ao povo, não quiseram armar o povo, e a interpretação que comecei por dar a esse facto (e acho que é possível constatar na literatura da época) reside no fantasma da Revolução Francesa, mas também num outro, mais próximo, que é o fantasma dos comportamentos populares durante as invasões francesas. Muitos setores das classes populares — e Vasco Pulido Valente chamou a atenção para isso num artigo já muito antigo — aproveitaram esse momento para alargar a contestação às elites, em nome do Rei, a coberto dos movimentos de restauração da monarquia, de restauração da Casa de Bragança em Portugal. Há inúmeros movimentos no país, em diversas regiões, vilas e cidades, que se revoltam contra os franceses em nome do Rei e da monarquia absoluta e que depois são mais ou menos enquadrados pelas juntas governativas locais que se espalham pelo país. Há um escritor da época, muito importante, José Acúrsio das Neves, que escreve uma história das Invasões Francesas em Portugal 5 — e que é um contemporâneo, um magistrado, que depois veio a ser um miguelista — e defende uma posição muito diferente de outras então propostas, sustentando que quem fez a “revolução” anti- francesa foi o povo (é um livro espantoso, vale mesmo a pena ler). Claro que o povo, como é próprio dele, cometeu muitos “excessos”, diz Acúrsio das Neves. É do desejo de não querer ver repetidos esses “excessos” que vem, em parte, a moderação posterior, nomeadamente na Revolução de 1820. Há mesmo uma recusa, penso eu, embora não seja totalmente explícita, de mobilizar o povo. Garrett, no livro Portugal na balança da Europa — escrito muito mais tarde, quando já tinha caído a Constituição [de 1822] e estava no poder D. Miguel — vem dizer isso, que os liberais não quiseram chamar o povo. E sem chamar o povo, não era possível que a revolução vingasse. Garrett nem sempre teve esta opinião, isso é o que ele escreve em Portugal na balança da Europa. Em suma, eu penso que são dois fantasmas: a Revolução Francesa e a intervenção popular durante as invasões.
“Os liberais não quiseram apelar ao povo, não quiseram armar o povo, e a interpretação que comecei por dar a esse facto reside no fantasma da Revolução Francesa, mas também num outro, mais próximo, que é o fantasma dos comportamentos populares durante as Invasões Francesas.”

Retratos de José Ferreira de Moura, Agostinho José Freire e Manuel Borges Carneiro. Estudos para a tela Cortes Constituintes de 1821, de Veloso Salgado, 1920, Divisão Museológica e para a Cidadania da Assembleia da República (DMC-AR). Fonte: www.parlamento.pt
E.B.M.: Outra das razões que certamente explica a vida curta do Vintismo e o ardor contrarrevolucionário que este suscitou é o caráter progressista das mudanças operadas. Desde logo, nas Cortes Constituintes (eleitas por sufrágio indireto em três fases, no qual puderam participar todos os cidadãos do sexo masculino, maiores de 21 anos, que exercessem algum emprego, ofício ou ocupação útil), nas suas primeiras resoluções (consagração da liberdade de imprensa, abolição da inquisição), nas Bases da Constituição (1821) e, finalmente, na Constituição, votada a 23 de setembro de 1822 e jurada
por D. João VI a 1 de outubro. Esta vai consagrar: a igualdade dos cidadãos perante a lei, extinguindo todos os privilégios decorrentes do nascimento, os direitos à liberdade
F.S.M.F.: Eu acho que há aqui duas questões principais. Sim, a Constituição foi um legado fundamental da chamada revolução de 1820, não há dúvida nenhuma. Instaurou mesmo uma nova ordem política e jurídica que tinha muito pouco que ver com o Antigo Regime, o que, em si mesmo, já é uma revolução. Agora, em termos da experiência dos seus contemporâneos — a Constituição foi só reposta em vigor durante um escasso período do setembrismo, durante dois anos —, a guerra civil com os miguelistas não se fez em nome da Constituição, mas em nome da Carta Constitucional outorgada por D. Pedro, que todos aceitaram — o lema dos combatentes era mesmo “Rainha e Carta”. Dito isto, não há dúvida nenhuma que o modelo da Constituição permanece. Não foi pela Constituição que os liberais entraram numa guerra civil, mas esta vai ser uma espécie de modelo alternativo para a Carta Constitucional e isso tem a sua expressão na Constituição de 1838. Os liberais mais avançados (entre aspas) têm como referência a Constituição de 1822 e os mais conservadores a Carta Constitucional. Assim, ela esteve pouco tempo em vigor, mas foi uma inspiração para a ala mais à esquerda — tanto quanto isto se pode aplicar à época, que ainda não utilizava este conceito. Por isso é que a pacificação política em Portugal só se faz pelo Ato Adicional à Carta Constitucional em 1852, que foi o começo da Regeneração.
E.B.M.: Ato Adicional à Carta Constitucional, não à Constituição…
F.S.M.F.: Claro, a Carta Constitucional é que prevalece, mas estão contidas no Ato Adicional algumas das reivindicações dos setembristas.
E.B.M.: O regresso do sufrágio direto para os deputados, por exemplo. Na verdade, o legado da Constituição de 1822 vai mesmo para lá do século XIX, influencia a Constituição de 1911 e é possível encontrar um fio condutor até à própria Constituição de 1976...
F.S.M.F.: Sem dúvida, o princípio da divisão dos poderes, as liberdades fundamentais, a Constituição, o constitucionalismo, de uma maneira geral, em consonância com uma Europa que adere à forma liberal de governo.
E.B.M.: Aludi anteriormente à enorme prudência que o movimento liberal demonstrou relativamente ao clero e à Igreja Católica. Foi já sob a égide da Carta Constitucional de 1826, em plena guerra civil, que o regime liberal foi mais longe nas reformas do aparelho eclesiástico, através de sucessivos decretos do Ministro da Fazenda e da Justiça, Mouzinho da Silveira — onde avulta a abolição dos dízimos e a remuneração do clero pelo Tesouro Público. Para Mouzinho da Silveira, estas reformas eram uma condição essencial para a estabilidade do regime constitucional: “para estabelecer a Carta em Portugal é absolutamente indispensável quebrar a independência do clero. Enquanto ele for independente o despotismo poderá sempre julgar-se seguro” 6.
F.S.M.F.: A esse propósito, eu gostaria de realçar um aspeto que, desde há uns largos anos, foi posto em relevo pela Professora Miriam Halpern Pereira, nomeadamente no estudo que precede as obras de Mouzinho da Silveira7, que dirigiu e foram publicadas pela Fundação Gulbenkian. Há uma contradição interessante no liberalismo português no que respeita às suas reformas mais profundas: as reformas políticas que acontecem com a primeira revolução liberal não trazem consigo as reformas administrativas, económicas, sociais… Estas só vêm a ser postas em prática, como muito bem disse, a partir de 1833, com o governo dos Açores, com Mouzinho da Silveira. Portanto, aqui há duas revoluções, dois momentos revolucionários: o de 1820, que é um momento político da ascensão dos liberais, da rutura com o Antigo Regime; e, depois, o momento das reformas, das grandes reformas, que apenas vão acontecer sob a égide do documento mais moderado da Carta Constitucional. E isso é...
E.B.M.: É quase um paradoxo.
F.S.M.F.: Parece quase um paradoxo, de facto, e acho que deve ser assinalado.
E.B.M.: Depois, já no verão de 1833, foram publicados dois decretos que atingiram fortemente o “clero rebelde”, apoiante de D. Miguel, sobretudo ao nível da hierarquia da igreja, permitindo a substituição dos bispos que estavam à frente das várias dioceses por eclesiásticos mais confiáveis, o que abriu um conflito internacional com o Vaticano, com rutura de relações diplomáticas, só sanado em 1841. O clero foi, de facto, um apoiante incondicional e constante da contrarrevolução absolutista, como estava implícito no próprio discurso miguelista, ou não foi bem assim?
F.S.M.F.: Não foi bem assim. Nem todo o clero apoiou a contrarrevolução. A hierarquia eclesiástica, os bispos, apoiou-a, sim, com muito poucas exceções, mas de uma maneira mais geral — e aqui importa ter presente a divisão entre clero regular e clero secular —, sobretudo no clero secular, encontramos muita adesão ao liberalismo, também. A ideia que nós temos de que o clero apoiou todo o Miguelismo parte da atitude da hierarquia eclesiástica e não do conjunto dos eclesiásticos. A propósito, há uma outra obra da historiadora Ana Mouta Faria, também editada pela Gulbenkian, que é muito, muito importante para se perceber as relações da igreja com o regime liberal. Chama-se: Os Liberais na estrada de Damasco8.
“Há uma contradição interessante no liberalismo português no que respeita às suas reformas mais profundas [...]. Há dois momentos revolucionários: o de 1820, que é um momento político da ascensão dos liberais, da rutura com o Antigo Regime; e, depois, o momento das reformas, das grandes reformas, que apenas vão acontecer sob a égide do documento mais moderado da Carta Constitucional.”
E.B.M.: E sobre a importância das reformas de Mouzinho da Silveira nesse período, há também aquele texto do Alexandre Herculano, em francês, que referiu no podcast Convocar a História…9
F.S.M.F.: Mouzinho da Silveira ou la Révolution Portugaise10. Para o Alexandre Herculano, quem fez a revolução foram as reformas de Mouzinho da Silveira, isso é que foi revolucionário — eu acho o título magnífico.
E.B.M.: Retomemos o tema da mobilização popular, ao qual dedicou muitos anos de investigação. Se as classes populares estiveram relativamente distantes da revolução de 1820, o mesmo não se pode dizer das convulsões políticas e sociais que se lhe seguiram, que se alargam — e recorro às suas palavras — “como uma mancha de óleo por todo o território”, contribuindo significativamente para as dificuldades que o liberalismo teve para se implantar em Portugal. No seu livro Rebeldes e insubmissos, chama a atenção para que a revolta da Maria da Fonte (desencadeada em 1846 por um conjunto de aldeãs que impedem o enterro de uma mulher no cemitério, em protesto contra a nova lei da saúde pública) não foi um episódio isolado. Salienta, ainda, que: “a historiografia que desde o século passado permitiu entrever estes fenómenos tomando como referência grandes marcos da história política — as revoltas anticonstitucionais de 1823 e de 1826-27 em Trás-os-Montes, os tumultos populares que acompanharam a tomada do poder por D. Miguel em 1828 e, muitos anos depois, a revolta da Maria da Fonte (…) não fazia mais que deixar perceber as pontas emersas de um iceberg de que era necessário analisar mais nitidamente as dimensões e os contornos.”11 Que dimensões e contornos tinha esse iceberg? Foi homogéneo no perfil social dos resistentes, no seu grau de politização e também na forma como se distribuiu pelo território nacional?

Maria da Fonte (Roque Gameiro, Quadros da História de Portugal, 1917)
F.S.M.F.: Obrigada pela sua pergunta. Bom, o que eu acho hoje sobre isso — e foram, entretanto, produzidas várias outras obras sobre esse tema, como, por exemplo, um livro bastante posterior ao meu, do António Monteiro Cardoso, que se chama A revolução liberal em Trás-os-Montes (1820-1834). O povo e as elites12 — é o seguinte: há uma mobilização popular em favor da causa de D. Miguel que tem muitas origens. Uma é a própria mobilização do apoio popular por miguelistas política e socialmente destacados. Há um afrouxamento do controlo social, permite-se uma intervenção popular contra os liberais que é, por vezes, muito violenta, nomeadamente contra os estrangeiros — xenófoba, claramente —, e o Estado não põe baias a essa intervenção. Claro que o governo miguelista não é homogéneo, há divisões e diferenças, visões mais moderadas e mais exaltadas, como também demonstrou um outro autor mais recente, Daniel Protásio, que tem um artigo sobre essa divisão interna dos miguelistas, mesmo ao nível governamental13. Portanto, há uns que apoiam mais o chamamento do povo para a causa e outros menos. Depois e apesar de tudo isto, o miguelismo popular é um fenómeno que tem quanto a mim, como já disse, uma lógica própria, que é independente do papel que as elites lhe querem atribuir. Assim, a minha linha de investigação apontou sempre no sentido de que há uma política popular, há lógicas nos comportamentos populares, que não são exatamente as do miguelismo e, muito menos, as do liberalismo. Aliás, nós vemos isso no sul, na guerrilha do Remexido, que foi objeto de uma obra de 1981, de imensa importância, do António Canto Machado e do, já citado, António Monteiro Cardoso14. Hoje sabemos que esta guerrilha do Remexido — estamos já depois da guerra civil — foi fomentada pelas elites miguelistas, pelo próprio governo de D. Miguel, que estava exilado, mas, ao mesmo tempo, teve um apoio popular impressionante, sobretudo na serra algarvia, onde os camponeses apoiam e escondem o Remexido e os seus homens.
E.B.M.: Um movimento que sobrevive ao Remexido, vai para além da morte dele.
F.S.M.F.: Para além da morte dele, exatamente. Esse tipo de mobilização popular em favor do miguelismo, desde a revolta de Trás-os-Montes em 1826, passando pelo apoio ao D. Miguel em 1828 e, depois, pela guerra civil e pelo pós-guerra, acho que traduz também uma intervenção política popular nova que prolonga a que nasce com a reação às Invasões Francesas a partir das quais as camadas populares, “os de baixo”, se tornam um verdadeiro sujeito político. Esta é uma ideia que me é bastante cara, a de que há uma politização popular nestes anos no quadro dos confrontos entre liberais e miguelistas e da própria guerra, de onde emerge a tal política popular que se exprime já não apenas em termos locais, mas nacionais. Felizmente não estou sozinha nesta posição um pouco heterodoxa. Sobretudo em Espanha, há vários colegas, mesmo de uma geração muito mais jovem, que estudam a contrarrevolução e a política popular, sob vários aspetos. Mas aquilo que o livro do António Monteiro Cardoso vem demonstrar é que também havia liberalismo popular, e isso é muito interessante. Esse estudo mostra-nos como se formaram milícias e guerrilhas pró-liberais na região de Trás-os-Montes, provando que a adesão das classes populares ao miguelismo não era hegemónica.
E.B.M.: Além desta mobilização mais politizada, em torno do miguelismo ou da causa liberal, instigada, em maior ou menor medida, pelas respetivas elites, também houve uma mobilização popular mais ligada aos problemas concretos com que as pessoas se confrontavam. Como é que estes dife- rentes focos se distribuíram pelo território nacional?

Revista Ilustração Portuguesa, n.º 331- (1939), página 17. Fonte: Hemeroteca digital
“Esse tipo de mobilização popular em favor do miguelismo [...] traduz também uma intervenção política popular nova que prolonga a que nasce com a reação às Invasões Francesas a partir das quais as camadas populares, ‘os de baixo’, se tornam um verdadeiro sujeito político.”
F.S.M.F.: Essa distribuição pelo território nacional vai depender dos contextos, mesmo que isto pareça um período muito curto. Por exemplo, em 1826, as revoltas contra a Carta Constitucional em Trás-os-Montes, em particular a do Conde de Amarante, têm um apoio popular sobretudo camponês. Depois, com o regresso de D. Miguel, quando ele desembarca, o apoio mais turbulento, diria eu, à restauração da monarquia absoluta é bastante urbano. No pós-guerra, volta às províncias — curiosamente, não a Trás-os--Montes, onde, de resto, como já disse, o António Monteiro Cardoso vai encontrar as guerrilhas liberais constituídas para enfrentar as miguelistas. Depois, no período que eu estudei [1834-1844], aquilo que encontrei foram três pontos de irradiação principais, geograficamente falando: a serra algarvia e o Baixo Alentejo no sul; as Beiras, sobretudo a Beira Alta (em torno da Serra da Estrela); e o Alto Minho, na zona de Melgaço e Monção, três regiões com estruturas da propriedade muito diferentes, note-se. No entanto, há ainda um argumento muito importante em favor da tese de que a adesão popular ao miguelismo não era hegemónica: se o povo tivesse aderido em massa — como sugeriu Oliveira Martins — não haveria o número elevadíssimo de prisões e condenações políticas como as levadas a cabo durante o reinado de D. Miguel. Nunca houve uma perseguição política com tais proporções em Portugal como durante o miguelismo. Basta lembrar os milhares de pessoas que constam das listas de pronunciados nesse período e os que foram compelidos à emigração e ao exílio — esses, com toda a certeza, não aderiram à causa miguelista.
E.B.M.: E que importância tiveram as Invasões Francesas nesses anos posteriores à Revolução Liberal? Estas invasões, em três vagas sucessivas (de 1807 a 1811), saldaram-se numa efetiva ocupação militar, em inúmeros abusos cometidos pelos soldados franceses e espanhóis, que se espalharam pelo país, confiscando e pilhando, numa grande destruição do país, do seu comércio e indústria, na paralisação do próprio aparelho administrativo (em algumas regiões, faltou inclusive a administração da justiça), na fome de grande parte da população e numa grande perda de vidas humanas civis e militares. Esta guerra prolongada em pleno território nacional, esses anos de extrema violência e miséria, que deixaram marcas na popu- lação portuguesa, tiveram uma influência nos acontecimentos das décadas seguintes?
F.S.M.F.: Sim, aliás, no discurso miguelista há essa comparação. Comparam os liberais aos franceses invasores, chamando-lhes traidores e maçónicos. Se vieram de países estrangeiros para Portugal e desembarcaram no Porto para trazer a guerra, são estrangeiros, não é verdade? Não há dúvida nenhuma que esse é outro espectro que ficou a pairar até bastante tarde: as consequências das Invasões Francesas e, ao mesmo tempo, essa estimulada aversão aos liberais que, segundo os propagandistas contrarrevolucio- nários, eram herdeiros da Revolução Francesa e de Napoleão. Os liberais portugueses, ao contrário do que aconteceu em Espanha, não eram “afrancesados" — eles combateram em favor da monarquia portuguesa contra os franceses — mas esse espectro da destruição dos invasores, dos invasores que tinham aquelas ideias, terá continuado a pairar, e não só em Portugal, também em Espanha. Isto permite-me acrescentar que a ação e o pensamento contrarrevolucionários não são apenas uma resposta à Revolução Liberal de 1820, mas precedem-na, vêm desde o tempo da expansão napoleónica e mesmo de antes: da condenação da Revolução Francesa. Este pensamento contrarrevolucionário tem, assim, um grande lastro, que é muito anterior à Revolução Liberal portuguesa e foi divulgado em escritos antiliberais desde muito cedo.
1Maria de Fátima SÁ E MELO FERREIRA, Rebeldes e insubmissos. Resistências populares ao liberalismo (1834-1844), Edições Afrontamento, 2002, págs. 50-51.
2 Kirsten SCHULTZ, Versalhes tropical, Civilização Brasileira, 2008.
3 Valentim ALEXANDRE, Os sentidos do império. Questão nacional e questão colonial na crise do Antigo Regime Português, Edições Afrontamento, 1993.
4 Maria de Fátima SÁ E MELO FERREIRA, Rebeldes e insubmissos, ob. cit., p. 47.
5 José ACÚRSIO DAS NEVES, História geral da invasão dos franceses em Portugal e da restauração deste reino, Edições Afrontamento, 2008.
6 Citado por Maria de Fátima SÁ E MELO FERREIRA, Rebeldes e insubmissos, ob. cit., p. 71.
7 Mouzinho DA SILVEIRA, Obras. Volume I — Estudos e Manuscritos (1780-1849). Volume II — Manuscritos e Impressos (1780-1849). Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1989. Edição crítica de Miriam Halpern Pereira.
8 Ana Mouta FARIA, Os liberais na estrada de Damasco: clero, igreja e religião numa conjuntura revolucionária (1820-1823), Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2006.
9 Podcast “Convocar a História”, coordenado por Fernando Rosas — Bicentenário da Revolução Liberal, episódio de 23/09/2020, no qual participam os historiadores Fernando ROSAS, Luís FARINHA e Fátima SÁ.
10 Alexandre HERCULANO, Mouzinho da Silveira ou La Révolution Portugaise, in Opúsculos, Tomo II, 5.ª ed., s. d., Lisboa, Livraria Bertrand.
11 Maria de Fátima SÁ E MELO FERREIRA, Rebeldes e insubmissos, ob. cit., páginas 511 e 27, respetivamente.
12 António Monteiro CARDOSO, A revolução liberal em Trás-os-Montes (1820-1834). O povo e as elites. Edições Afrontamento, 2015 (reedição).
13 Daniel Estudante PROTÁSIO, "Moderados e ultras na regência e no reinado de D. Miguel (1828-1834)", in Historiografia, Cultura e Política na Época do Visconde de Santarém (1791-1856), Centro de História da Universidade de Lisboa, 2019, págs. 183-232.
14 António Canto MACHADO e António Monteiro CARDOSO, A Guerrilha do Remexido, Publicações Europa-América,Mem Martins, 1981.
Leia a versão integral da Revista Somos Livros Edição Comemorativa aqui (página 14).