Este ano, a 9 de dezembro, é assinalado pela décima vez o Dia Internacional em Memória e Dignidade das Vítimas do Crime de Genocídio e da Prevenção deste Crime, um dia que infelizmente permanece profundamente relevante não apenas como o momento de relembrar a pior parte do nosso passado coletivo, mas também de refletir sobre o presente que enfrentamos.
Esta preocupação é partilhada pela própria Organização das Nações Unidas (ONU) que implementou este dia em 2015, para dar continuidade aos compromissos feitos com a Convenção sobre o Genocídio redigida e adotada em 1948, e que este ano adota a Resolução A/RES/79/328, que expressa preocupação com o facto de muitos milhares de seres humanos inocentes continuarem a ser vítimas de genocídio.
Para compreender a dimensão histórica e contemporânea deste crime hediondo contra a humanidade, a realidade e o horror contados por quem os sobreviveu e a análise dos especialistas, preparámos um levantamento deste tema na literatura, um dos veículos mais importantes da preservação da nossa memória coletiva, reunindo algumas sugestões de leitura — para que nunca nos esqueçamos.
Podemos começar pelos livros que abordam a história deste conceito de forma mais ampla, como o livro Blood and Soil do investigador australiano Bem Kiernan (Yale University Press, 2008), que apresenta a história dos genocídios ao longa da história, desde Esparta até Darfur, ou «Exterminem Todas as Bestas» de Sven Lindqvist (Caminho, 2022), intitulado a partir de uma frase de O coração das trevas de Joseph Conrad, e que traça a ligação entre o fenómeno do das políticas de extermínio e a história de domínio colonial na América, Austrália, África e Ásia.
De facto, para compreender verdadeiramente a complexidade e o horror do genocídio humano há que aprofundar o nosso conhecimento sobre este fenómeno a nível global, e ao longo da História. Em O Genocídio Ocultado, Tidiane N'Diaye (Gradiva, 2019) analisa as origens deste crime contra a humanidade, encontrando-a no tráfego esclavagista árabe na África subsariana desde 652 d. C. Já Adam Hochschild analisa o período mais recente da colonização do Congo, para retratar o massacre perpetrado pelo império belga em entre 1885 e 1908, no livro King Leopold's Ghost (Pan Macmillan, 2024). É impossível não incluir também o livro Genocídio Indígena, de Jonas Eduardo Feliciano que reflete sobre o impacto da chegada dos colonos portugueses à região que viria a ser o Brasil, e que implicou o desaparecimento de 5 milhões de indígenas habitavam este território, segundo a estimativa de Darcy Ribeiro.
Chegando firmemente ao século XX, o autor e químico italiano Primo Levi é incontornável na história literária dos genocídios, com a sua obra que reflete a experiência pessoal de sobrevivência no campos de concentração de Auschwitz. No seu último livro Os que Sucumbem e os que se Salvam, escreve quarenta anos após o clássico Se isto é um homem (Dom Quixote), para refletir de novo sobre o colapso moral que causou o Holocausto e não deixar nunca cair por terra a sua memória. Eichmann em Jerusalém (Relógio D'Água, 2024), o testemunho de Hannah Arendt enquanto assistia ao julgamento de um dos principais dirigentes do regime nazi e central na arquitetura da denominada ‘solução final’, é também essencial para compreender o Holocausto, assim como Estrada Leste-Oeste, do advogado de direitos humanos Phillipe Sands (Vogais, 2019), que traça a sua história conceptual. Para uma perceção mais visual da escala industrial deste genocídio que definiu o século XX europeu, o livro de banda desenhada Maus, de Art Spiegelman, já se tornou um clássico contemporâneo.
Scholastique Mukasonga, define o genocídio como “a existência de uma solução final que tem lugar após uma longa preparação”. A autora oferece o seu relato autobiográfico sobre o genocídio do povo tútsi em Ruanda, em 1994, em Inyenzi ou as Baratas (Livros do Brasil, 2024). Philip Gourevitch escreve também sobre o genocídio nesta região no livro cruamente entitulado We Wish To Inform You That Tomorrow We Will Be Killed With Our Families (Pan Macmillan, 2024). Decorrida também nos anos 90, a novela gráfica O Espírito do Escorpião de Fernando Llor e Pablo Caballo conta-nos a história do criminoso de guerra Radovan Karadzic, e do seu envolvimento no massacre de Srebrenica de 1995, onde mais de 8 mil muçulmanos foram assassinados, no primeiro genocídio legalmente reconhecido na europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Aproximando-nos cada vez mais do panorama atual, para quem procura conhecer melhor a situação em Darfur e no Sudão de forma mais geral, Clémence Pinaud parte de mais de uma década de trabalho de campo nesta nação arrasada pela guerra civil para conceber War And Genocide In South Sudan (Cornell University Press, 2021). Já sobre o caso do povo Kurdo, e da sua luta central na trama geopolítica complexa em que se inserem as regiões onde se encontra, vale a pena ler o levantamento de Ibrahim Sadiq na obra Origins Of The Kurdish Genocide (Bloomsbury Publishing, 2023).
Pensando no presente, é impossível não nomear o genocídio na Palestina, reconhecido pela ONU num relatório publicado a 16 de setembro, e sobre esta região podemos começar pela análise de José Goulão no livro Genocídio na Terra Santa (Página a Página, 2025). Também Três Mundos, Memórias de um judeu árabe (Zigurate, 2025), as memórias de Avi Shlaim, israelita de origem iraquiana, é esclarecedor para quem procura esclarecer as suas dúvidas sobre este conflito e a sua realidade de limpeza étnica. Já o jornalista Omar El Akkad oferece-nos um relato cheio de urgência e que não nos permite olhar para o lado, em Um Dia, Sempre Teremos Sido Todos Contra Isto (Tinta da China, 2025).
Por fim, e olhando para o futuro, Alexander Laban Hinton reflete sobre a possibilidade arrepiante mas cada vez mais plausível de uma política de genocídio se tornar realidade no coração do império moderno dos EUA, no livro especulativo It Can Happen Here (New York University Press, 2021). É um livro fascinante sobre o retorno da ameaça da supremacia branca neste país (e no mundo), refletindo sobre a conclusão lógica desta ideologia: o genocídio.