José Mário Branco — "Não admito que a revolução se faça sem mim"

Por: Magda Cruz a 2025-08-07

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José Mário Branco
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Muitos conhecem José Mário Branco pela sua música, mas não é a única maneira de conhecer as posições do artista. A Tinta-da-China acaba de editar José Mário Branco - Entrevistas para a imprensa 1970 − 2019. Num trabalho dos etnomusicólogos Ricardo Andrade e Hugo Castro, e António Branco, curador do acervo de José Mário Branco (JMB), a obra reúne 119 entrevistas feitas a JMB para a imprensa nacional e estrangeira, publicadas entre os anos iniciais do seu percurso, exilado em França e antes do 25 de Abril, e o ano do seu falecimento, 2019. Como muda o seu pensamento ao longo dos anos? E, sobretudo, como o regime afeta as suas convicções?

Em 1970, ainda sem pretensões de voltar a Portugal, já era claro o papel da canção: "[C]anto sobre temas que são tabu no meu país. [...] Uma canção pode ser um estandarte revolucionário, mas para que haja estandartes revolucionários, tem de existir também uma revolução. A revolução não se faz só com canções". E depois, dá-se a Revolução. José Mário Branco volta a Portugal a 30 de abril de 74, no mesmo avião que Álvaro Cunhal e Luís Cília. Mero acaso. Em maio de 74, surge o primeiro registo sobre a importância do 25 de Abril na continuação do trabalho de JMB: "A libertação de uma série de forças de dispersão que existiam e estavam encurraladas há 50 anos. [...] [S]obretudo, a libertação no seio do povo, na medida em que a cultura popular autêntica tem estado amordaçada pelo fascismo". Aqui, aparece a peça-chave: o povo. 
 

Na canção, como no resto, quando se trata da luta das classes trabalhadoras, não existem posições neutras. A cantiga é uma arma, mas, se não é uma arma do povo, é porque é uma arma contra o povo.

Dias depois de voltar do exílio, já sabia que o caminho a seguir era o do coletivo. Assim, define objetivos: "[N]ão sou um cantor de uma organização, não sou um cantor de um partido com uma linha política estabelecida. Isso, quanto a mim, é mais um defeito do que uma qualidade. Aspiro poder vir a ser um militante a 100% num partido com uma orientação política em que esteja totalmente de acordo com ela, em que possa lutar a fundo e que sejamos muitas pessoas a fazer juntos aquilo que todos tentam fazer individualmente". E se José Mário Branco está do lado dos que emigraram, também quer estar com os que continuam em Portugal: "Quero continuar a lutar para auxiliar neste combate dos povos das colónias, dos desertores e do povo trabalhador português. Quero também dedicar-me a fazer um Portugal novo para os meus filhos".

É formado, então, o Colectivo de Acção Cultural, mais tarde Grupo de Acção Cultural — Vozes na Luta. Nele se integram, por exemplo, Zeca Afonso, José Jorge Letria, Francisco Fanhais e Luís Cília. Em entrevistas, JMB sublinha que não havia nenhuma utilidade no trabalho individual, já que um cantor popular devia estar ao serviço das massas populares "ou, então, serve aqueles que estão no poleiro e que pretendem travar a luta do povo". 

Para JMB, a prática artística não era politicamente neutra. Esta deve ser a ideia mais coerente ao longo dos anos. "[N]a canção, como no resto, quando se trata da luta das classes trabalhadoras, não existem posições neutrais. A cantiga é uma arma, mas, se não é uma arma do povo, é porque é uma arma contra o povo." Ao longo das entrevistas, fica um sentimento de desencanto, de que ainda há um caminho a fazer, mas a canção é, para JMB, o melhor instrumento para se exprimir. Confessa até que a mudança ia refletir-se nas canções. Em maio de 74, vaticinava: "Agora, há outras cantigas por fazer…" 

Numa busca da visão de JMB sobre o período que ficou conhecido como Verão Quente, julgamos encontrá-la nas entrevistas concedidas em 75, mas o discurso mais aprofundado sobre a vida dos Portugueses em liberdade só se encontra vários anos depois. Em março de 77, numa entrevista à Página Um, JMB refletia, numa conversa conjunta com Adriano Correia de Oliveira, José Afonso e Sérgio Godinho: "A questão entre nós resume-se ao problema de sabermos se a cantiga é aquela arma política, ao serviço de quem está, quando é que ela aparece e em que mãos ela repousa. E isto foi a coisa mais importante no meio disto tudo. Foi a política a entrar de roldão por dentro daquilo que eu tinha a dizer e a fazer em música". Depois de explicar que a canção deixou de poder ser o que Sérgio Godinho chamou "nacional-porreirismo", JMB continua: "Tudo isto, quando a luta de classes se intensificou, traduziu-se em coisas muito concretas: apoia-se ou não se apoia uma greve, defende-se ou não se defende uma posição de luta determinada, defende-se ou não se defende a luta da Rádio Renascença ou do República, defende-se as ocupações das herdades desde a primeira até à última, e, portanto, toda a consequência política posta em prática, no terreno da luta, com essa arma que nós temos nas unhas — e é essa a nossa grande responsabilidade, é termos essa arma na mão".

Cinco anos após Abril, este artista vê-se confrontado com a mudança. Trindade Santos, de Música & Som, pergunta se há condições para que a carreira de cantor de protesto prossiga. A resposta de JMB: "É evidente que, num País que sai dum regime policial para uma democracia parlamentar, mais ou menos ‘musculada’, mais à direita ou mais à esquerda, as coisas complicam-se um bocado. [...] Portanto, o cantor de protesto [...] tem de saber contra que é que ‘protesta’. [...] E isso é, evidentemente, mais difícil numa sociedade onde o inimigo não é tão cliché como antes, onde a diferença entre o amigo e o inimigo não é tão nítida, onde as noções de prisão, de repressão e de opressão não estão tão aparentes como no fascismo". O entrevistador contesta: "Falas como se estivesse em guerra…" JMB esclarece: "Claro que estou em guerra, na medida em que exprimo, em cantigas, a minha vontade de uma sociedade nova, de um Homem novo". E, aqui, surge um denominador comum revelante: "É esta a minha guerra como criador, individualmente ou em colectivo. É para isso que componho e canto, e é neste sentido que posso dizer: não admito que a revolução se faça sem mim". 

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