“Falareis de nós como de um sonho. / Crepúsculo dourado. Frases calmas.”
Foi com estes versos que
Joana Pontes
deu início à sua relação com Jorge de Sena. Realizadora e professora universitária, produziu, em 2005,
O Escritor Prodigioso
,
um documentário sobre o autor português. Uma noite, no Algarve, ao ouvir um programa de rádio, escutou aquele poema da boca do locutor, seu amigo, que se recusou a indicar o nome o autor, rematando:
“Não, tu um dia vais descobrir isso.”
Passados 13 anos, na data do seu 30.º aniversário, uma outra amiga ofereceu-lhe uma colectânea de poemas onde, na primeira página, se encontravam as palavras que tanto procurara em jovem. Um amor que nunca mais acabou e pelo qual lutou durante 12 anos, tempo que demorou a arranjar financiamento para o filme que revelaria Sena enquanto poeta, crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor e professor universitário, um dos
grandes
da literatura portuguesa.
Margarida Braga
Neves
, professora na Faculdade de Letras, admite que é essa grandeza que define a obra deste homem que, em grande parte, continua desconhecido no mundo literário português.
“É uma obra muito grande para um país pequeno que, até larga medida, não foi capaz de a ver, compreender e acolher.”
Esta falta de reconhecimento marcaria Jorge de Sena para a sua vida inteira, uma mágoa denotada na sua poesia ao referir-se a Portugal como
“pátria minha, porque eu não mereço / a pouca sorte de nascido nela.”
(in
40 Anos de Servidão
, 1982).
Mesmo perante esta tristeza, e estando ele exilado entre o Brasil e os Estados Unidos da América, manteve-se sempre a par de tudo o que se passava em Portugal, tanto a nível político como cultural. Mantinha uma extensa correspondência com inúmeras figuras do meio literário e cultural, como
José Régio
,
Vergílio Ferreira
,
Sophia de Mello Breyner
,
Eugénio de Andrade
,
Eduardo Lourenço
, entre outros. Paralelamente, elaborou antologias, estudou a literatura brasileira, inglesa, norte-americana e espanhola e traduziu poesia e ficção.
Foi, em todos os sentidos,
um poeta de múltiplas facetas
.
Da esquerda para a direita: Mariana Viana, Margarida Braga Neves e Joana Pontes