Fernando Pessoa e muitos dos seu heterónimos chegaram ao grande ecrã no passado dia 26, pelo olhar de Edgar Pêra. Eu Não Sou Nada – The Nothingness Club junta extensões do mais reconhecido poeta português com o próprio. Juntos preparam um número avançado da Revista Orpheu porque no universo imaginado pelo realizador tudo isso é possível. Miguel Borges interpreta Fernando Pessoa, que interage com heterónimos que vão desde os mais aos menos estudados.
Albano Jerónimo e Miguel Nunes interpretam Álvaro de Campos e Alberto Caeiro, respetivamente, mas há um universo para além das figuras centrais. Será que o conhece?
Barão de Teive
Foi um dos últimos – talvez o último – alter-ego criado por Fernando Pessoa, já na segunda metade de 1928. Sobre ele, Pessoa escreveu: “Transferi para Teive a especulação sobre a certeza, que os loucos têm mais que nós”. Está condenado a morrer por mão própria por ser demasiado racional. No livro A Educação do Estoico escreve que a "conduta racional da vida é impossível". Mais à frente: “Atingi, creio, a plenitude do emprego da razão. E é por isso que me vou matar”.
Faustino Antunes
A este heterónimo foi lhe atribuída a autoria de algumas cartas. Em 1907, Pessoa escreve num diário que se sente possuído por uma “vertigem moral” e pelo medo da loucura. Pede, por isso, a Faustino Antunes que recolha informações junto dos seus antigo professores de Durban, Belcher e Haggar. Esta extensão de Pessoa parece circunstancial, mas também assina um texto intitulado Essay on Intuition, no qual se interroga sobre a impossibilidade de se conhecer realmente alguma coisa.
Raphael Baldaya
É astrólogo e apresenta, em vários textos, formas inovadoras de interepretar a tradição astrológica. Numa troca de correspondência com Fernando Pessoa, em 1915, Mário de Sá-Carneiro escreveu, a propósito deste heterónimo: “A sua incarnação em Raphael Baldaya, astrólogo de longas barbas é puramente de morrer a rir”.
Abílio Quaresma
Surge no conjunto de 13 novelas Quaresma, Decifrador. É um médico que decifra charadas: é profundamente analítico e minucioso. No prefácio das novelas, o personagem é apresentado por Pessoa como um amigo de longa data, recentemente falecido.
Alexander Search
Este é um heterónimo que se cola particularmente ao seu criador. Nasceram na mesma data, no mesmo sítio e Search representa praticamente toda a poesia de Pessoa entre os 16 e os 20 anos. Pode ser considerado uma espécie de “pré-heterónimo” porque foi anterior a todos, desvendou as temátucas futuras e acabou por ser uma peça importante na sua formação.
Jean Seul
O que se conhece de Jean Seul são três textos inacabados. Em 1908, o seu nome aparecia em The Transformation Book, or Book of Tasks, que continha também textos assinados por Alexander Serach, Pantaleão e Charles James Search, irmão de Alexander. Os textos de Jean Seul refletiam obre exibicionismo, o futuro da civilização ocidental e a literatura portuguesa que, considrava, estava a passar uma fase particularmente fraca.
Charles Robert Anon
Pessoa foi criando personagens desde a infância com quem dialogava e por quem escrevia. É o caso de Charles Robert Anon, edificado ainda na África do Sul. Anon não é considerado heterónimo, mas personalidade literária. Fernando Pessoa dava-lhe muita importância e chegou a arranjar um sinete próprio para carimbar os textos desta personalidade.
Joaquim Moura Costa
É outras das personalidades literárias criadas por Pessoa e chegou a colaborar com O Phosphoro e O Iconoclasta. Era um acérrimo defensor da República e era comum usar a obscenidade e a sátira para criticar a Monarquia e a Igreja Católica. Refere-se à Igreja Católica como uma “cilada” que Deus e o Diabo montaram para mortificar o ser humano.
Fonte: Modernismo – Arquivo Virtual da Geração de Orpheu