Duas verdades e um mito da língua portuguesa — adivinha qual?

Por: Beatriz Sertório a 2024-10-28

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Queria? Já Não Quer?
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"Queria? Já não quer?". Com certeza já ouviu esta piada, repetida até à exaustão por funcionários de café de todo o país, mas será realmente um erro dizer “queria um café” em vez de “quero”, ou “quereria”? No novo livro de Marco Neves, que vai buscar o título a esta expressão — Queria? Já Não Quer? Mitos e disparates da língua portuguesa (Guerra & Paz) — são desmascarados alguns mitos e enganos sobre palavras e expressões quotidianas da línguas portuguesa, tais como esta.

Escrito no tom descontraído e linguagem acessível que fizeram com que o professor e investigador na área das línguas e tradução ganhasse quase 50 mil seguidores no TikTok, (@marcofranconeves), este é um livro que enriquece a nossa compreensão sobre a complexidade e beleza do português, provando que a realidade, por vezes, pode ser mais fascinante que as lendas. Inspirados pelo jogo "Duas Verdades e uma Mentira", trazemos-lhe três dos temas abordados neste livro e desafiamo-lo a descobrir qual destas afirmações, afinal, não passa apenas de um mito.

 

Mito ou Verdade 1: Os nomes dos dias úteis têm origem no latim litúrgico.

Mito ou Verdade 2:Queria um café” deveria ser sempre “quero um café”.

Mito ou Verdade 3: A expressão “no tempo da Maria Cachucha” é uma referência a uma canção do século XIX.

 

Conseguiu identificar o mito? Se está na dúvida, damos uma ajuda. Ao contrário do que talvez possa pensar, o termo “feira” nas denominações dos dias úteis em português nada tem a ver com as feiras e mercados medievais, mas sim com a sua origem no latim litúrgico. E caso não saiba, há mesmo uma canção intitulada “Maria Cachucha” e ainda um género musical espanhol chamado “cachucha”, que ficaram conhecidos em Portugal no século XIX dando origem a esta expressão. Como tal, o mito está relacionado com a expressão que dá título ao livro de Marco Neves e que nasceu de uma piada corrente frequentemente contada pelos funcionários de cafés e restaurantes em resposta à frase “queria um café, por favor”.

A ideia de que esta expressão está errada por parecer sugerir que a pessoa em causa já não quer o café é, afinal, incorreta. Embora exista quem defenda que para fazer um pedido ou expressar um desejo não devemos usar o pretérito imperfeito (“queria”, “gostava”), mas sim o condicional (“quereria”, “gostaria”…), Marco Neves explica que o uso do imperfeito com este intuito foi uma solução encontrada pelos falantes para expressar a obliquidade do pedido, de forma a que este não seja tão direto. Assim sendo, o pretérito imperfeito do indicativo ganhou o sentido (entre outros) de cortesia ou de desejo. Tal como dizemos “gostava de ir passear” para expressar um desejo, utilizamos a forma verbal “queria” para expressar um pedido. E está totalmente correto. 

Da próxima vez que lhe fizerem esta pergunta num café já saberá o que responder!

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