Segundo Eduardo Madeira, o seu O Infame Dicionário Cómico de Língua Portuguesa é uma obra hedonista, sensual e descomprometida, que contém definições - lúdicas, imprecisas, pouco rigorosas, mordazes, maldosas, mesquinhas e torpes - de palavras do nosso léxico. Pretende divertir, provocar, estimular o pensamento, bulir com os nervos, ofender e, no fundo, provocar uma reação mais ou menos forte em quem, inconsequentemente, decidir lê-la.
Fique com 20 entradas infames deste dicionário, e um alerta do autor: "não houve qualquer cuidado na organização. Antes pelo contrário: houve displicência, preguiça e até descaramento."
Abdominais: Algo que os mais discretos escondem debaixo de uma elegante camada adiposa e os mais exibicionistas insistem em mostrar ao mundo;
Ácaro: Ser vivo microscópico que possui muitas parecenças com certos seres humanos: é quase invisível, não tem qualquer utilidade e, mesmo assim, provoca danos;
Aflito: Português a dia 15 de cada mês;
Aquecimento Global: Subida da temperatura do planeta com consequências graves para a vida, negada por pessoas cuja atividade cerebral nem aquece nem arrefece;
Bedelho: Parte do corpo que metemos onde não somos chamados;
Bullying: Estrangeirismo moderno que designa a ancestral violência física ou psicológica exercida pelos cobardes sobre os mais fracos;
Dicionário: Sítio onde se encontram as definições oficiais das palavras;
Dicionário cómico: Sítio onde se encontram as reais definições das palavras;
Escritor: Pessoa que insiste em nos dar a conhecer os seus problemas em livro;
Epidemia: Doença contagiosa que se espalha rapidamente. Uma espécie de praga com turbo;
Estúpido: Aquele que faz coisas desprovidas de sentido e que eleva a autoestima das restantes, além de proporcionar momentos divertidos que são comentados nas suas costas. Está na hora de reconhecer o papel do estupido na sociedade;
Globalização: Tornar o mundo igualmente desinteressante;
Génio: Pessoa com capacidades especiais que sai de uma lâmpada ou de uma vagina, como os outros;
Humor: Atividade humana que provoca o riso e, por vezes, ainda provoca uma reflexão sobre os comportamentos e os vícios do mundo;
Liberdade: O direito fundamental e inalienável do ser humano a ser dono do seu próprio destino em todas as facetas da sua vida, exceto com o fisco;
Livro: Conjunto de folhas de papel encapadas com um conteúdo por vezes não despiciendo. Entre tudo o que é editado em livro, há coisas verdadeiramente notáveis e outras que são um desperdício de árvores derrubadas;
Morte: Para os ateus, é o fim do filme; para os crentes, é o genérico inicial;
Namoro: É um test-drive pré-nupcial;
Racismo: Mal que só acaba no dia em que os ovnis invadirem a Terra para dar cabo disto. Aí, a raça humana, com o cu apertado, terá de lutar unida contra os extraterrestres;
Religião: A tentativa do Homem de procurar uma resposta para o sentido da vida. Existem várias religiões. Todas falam de paz e amor. Depois é o que se vê.