No dia 26 de julho assinala-se o Dia Mundial do Esperanto, uma data que celebra a criação da língua construída mais disseminada e bem-sucedida da história. Desenvolvido em 1887 pelo médico polaco L. L. Zamenhof, o esperanto nasceu de um ideal simples, mas profundamente ambicioso: criar uma “língua oficial e universal”, neutra e fácil de aprender, que permitisse a comunicação entre pessoas de diferentes países sem privilegiar nenhuma cultura ou nação.
Quando publicou a primeira gramática da língua, Zamenhof não assinou com o seu nome verdadeiro, mas com o pseudónimo “Doktoro Esperanto”, uma expressão que significa aproximadamente “doutor que espera” ou “aquele que espera”. O idioma era inicialmente apresentado como "la lingvo internacia" (“a língua internacional”), mas os primeiros utilizadores começaram a referir-se a ela como “a língua do Doutor Esperanto”. Com o tempo, o nome acabou por identificar a própria língua.
Embora nunca tenha substituído as línguas nacionais, o esperanto continua vivo, com centenas de milhares de falantes em todo o mundo, literatura original, traduções de clássicos, encontros internacionais e até famílias que o utilizam como língua materna.
Mas o esperanto não é caso único. Faz parte de um grupo conhecido como línguas construídas, ou conlangs (do inglês constructed languages): idiomas criados deliberadamente, em vez de surgirem de forma espontânea ao longo da história.
Algumas conlangs, como o esperanto, nasceram com objetivos práticos, procurando facilitar a comunicação entre pessoas de diferentes culturas. Outras foram criadas para explorar ideias filosóficas ou científicas. E há ainda aquelas que conquistaram milhões de leitores e espectadores ao dar voz a povos inteiros da ficção.
Ao longo da história da literatura, muitos autores inventaram idiomas completos para dar mais profundidade aos seus universos fictícios. Alguns tornaram-se tão populares que ganharam gramáticas, dicionários e até comunidades de pessoas que os aprendem.
Poucos autores levaram a arte e construção de novas línguas tão longe como J. R. R. Tolkien. Professor universitário e especialista em filologia — a ciência que estuda a história, a evolução e a estrutura das línguas — Tolkien acreditava que uma língua transporta consigo a cultura, a história e a identidade de um povo. Mesmo antes de escrever O Senhor dos Anéis, o autor já desenvolvia idiomas inspirados em línguas antigas, criando regras gramaticais, vocabulário e até diferentes variantes.
Há algo profundamente curioso acerca da filologia de Tolkien. O autor não criou as línguas para servir os livros; escreveu os livros para dar um lar às línguas que inventava. Chegou mesmo a afirmar, numa das suas cartas, que “a invenção de línguas é a base. As 'histórias' foram feitas para fornecer um mundo para as línguas, e não o contrário. Para mim, um nome vem primeiro e a história o segue. Eu teria preferido escrever em 'Élfico'.”
O Quenya, inspirado no finlandês e utilizado em contextos mais formais ou cerimoniais, e o Sindarin, influenciado pelo galês e falado no dia a dia, são as duas principais línguas élficas da Terra Média — o universo onde decorre a saga. Estas línguas não servem apenas para tornar a história mais credível: ajudam a contar a própria história dos povos que habitam aquele mundo.
Estes dois idiomas são tão completos que possuem a sua própria fonologia, morfologia, sintaxe, evolução histórica e até "dialetos". Por isso, muitos linguistas consideram que continuam a ser o exemplo mais sofisticado de conlangs alguma vez criadas para uma obra de ficção.
Até a famosa saudação Quenya "Elen síla lúmenn' omentielvo" ("Uma estrela brilha sobre a hora do nosso encontro") segue regras gramaticais cuidadosamente elaboradas. Já a palavra “mellon” ("amigo") desempenha um papel memorável em A Irmandade do Anel: é precisamente a palavra que abre as Portas de Durin, permitindo a Irmandade atravessar as Montanhas Sombrias sem ser detido pelos espiões de Sauron.
Não é por acaso que existem hoje dicionários, gramáticas e até cursos dedicados às línguas élficas.
Passagem de A Irmandade do Anel em Élfico
Novilíngua (1984)
Enquanto Tolkien utilizou a linguagem para enriquecer um mundo imaginário, em 1984, George Orwell fez precisamente o oposto: criou uma língua para mostrar como ela pode ser usada como instrumento de opressão.
A Novilíngua (ou Newspeak no inglês original) foi criada pelo regime totalitário da Oceânia para reduzir gradual e grosseiramente o vocabulário, tornando certos conceitos praticamente impossíveis de expressar, e, por conseguinte, impedindo os indivíduos que tão desejam controlar de formular novas ideias. Afinal, se determinados conceitos deixam de ter palavras para os descrever, tornam-se cada vez mais difíceis de formular e de transmitir aos outros.
Um dos exemplos mais conhecidos é a substituição de palavras por formas simplificadas. Assim, good significa "bom", ungood ("nãobom") substitui "mau", e doubleplusgood ("duplibom") ocupa o lugar de palavras como "excelente", "ótimo" ou "magnífico".
Quanto menor for o vocabulário, menor será também o espaço para interpretações, dúvidas ou pensamento crítico.
George R. R. Martin criou diversas palavras e expressões para os povos do seu universo, mas nunca desenvolveu completamente as respetivas línguas. Foi apenas com a adaptação televisiva de A Guerra dos Tronos que o linguista David J. Peterson recebeu a missão de transformar esses fragmentos em idiomas completos, com gramática, sintaxe e milhares de palavras.
O Dothraki, falado pelo povo nómada das estepes, reflete uma cultura profundamente ligada aos cavalos e à guerra. Já o Alto Valiriano desempenha um papel semelhante ao do latim na Europa medieval: é uma língua antiga, prestigiada e associada ao conhecimento e à nobreza.
O exemplo mais conhecido destas línguas será, sem dúvida, a palavra “khaleesi” — o título Dothraki dado à esposa do “khal”, o senhor supremo do povo; nome esse pelo qual conhecemos, indissociavelmente, a emblemática personagem Daenerys Targaryen, a Mãe dos Dragões.
Expressões do Alto Valiriano como "Valar Morghulis" ("Todos os homens devem morrer") e "Valar Dohaeris" ("Todos os homens devem servir") tornaram-se também conhecidas muito para além dos livros.
Sabe-se, hoje, que Dothraki possui, pelo menos, 3,163 palavras, mas nem todas são conhecidas pelos leitores e espectadores. De acordo com Peterson, Martin pediu-lhe ajuda para traduzir algumas passagens para The Winds of Winter, a muito aguardada continuação da série que está ainda para vir.
Hoje existem dicionários, cursos e milhares de fãs que aprendem estas línguas por diversão.
Curiosidade
David J. Peterson conta que o primeiro contacto sério com as línguas construídas aconteceu, justamente, numa aula universitária de Esperanto, e usou elementos dessa língua para criar a sua primeira conlang Mag Davy.
Depois de criar o Dothraki e o Alto Valiriano para A Guerra dos Tronos, Peterson desenvolveu ainda línguas para séries como Defiance, The 100 e The Witcher, bem como para filmes como Doctor Strange e Dune.
Cofundador da Language Creation Society, reuniu também a sua experiência e o processo de construir línguas no seu livro The Art Of Language Invention.
Anthony Burgess optou por uma estratégia completamente diferente. Em vez de explicar a língua ao leitor, obrigou-o a aprendê-la.
O Nadsat é uma mistura de inglês, russo, gíria adolescente e palavras inventadas. Nas primeiras páginas, a leitura pode parecer confusa, mas, à medida que a história avança, começamos naturalmente a compreender o significado das palavras através do contexto — exatamente como uma criança aprende a sua língua materna.
Alguns exemplos incluem:
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droog (amigo), derivado da palavra russa drug;
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devotchka (rapariga), inspirado em devochka;
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horrorshow (excelente) do russo khorosho, apesar de se assemelhar a horror show em inglês.
Este estranhamento aproxima-nos da forma como o protagonista vê o mundo e reforça a identidade daquele grupo de jovens delinquentes.
Nas primeiras edições de Laranja Mecânica, Burgess recusou incluir um glossário, acreditando que os leitores deveriam desvendar o significado das palavras através do contexto, como acontece na aprendizagem de qualquer língua. A edição comemorativa organizada por Andrew Biswell, seu biógrafo, recupera essa experiência de leitura, mas acrescenta um vocabulário de Nadsat, permitindo aos leitores explorar com maior profundidade esta linguagem, além de reunir materiais inéditos, como entrevistas, artigos, notas e ilustrações do manuscrito original.
Na série Ciclo da Herança, cabeçeado pelo clássico Eragon, de Christopher Paolini, a linguagem deixa de ser apenas uma forma de comunicação e torna-se magia.
Na chamada Linguagem Antiga, as palavras representam a verdadeira essência das coisas. Quem a utiliza para lançar feitiços não consegue mentir deliberadamente, porque a própria língua impede que se diga algo contrário à verdade.
Isto faz com que conhecer o verdadeiro nome de uma pessoa ou de um objeto tenha um enorme poder. As palavras deixam de ser apenas uma forma de comunicação e tornam-se uma força capaz de alterar a realidade.
Uma das palavras mais conhecidas é brisingr (sendo também o título do terceiro livro na saga), que significa "fogo". Quando pronunciada por um Cavaleiro dos Dragões, a palavra não descreve apenas o fogo: ela cria-o.
É um sistema fascinante, onde conhecer o verdadeiro nome de uma pessoa ou de um objeto significa compreender a sua natureza mais profunda — e, por isso mesmo, exercer poder sobre ela.
Porque é que os autores inventam línguas?
Uma língua construída faz muito mais do que soar diferente. Ela ajuda a construir culturas, revela a história de um povo, reforça a identidade das personagens e torna os universos ficcionais mais ricos e credíveis. Em muitos casos, acaba também por despertar a curiosidade dos leitores, que começam a estudar essas línguas por diversão ou paixão pelas histórias.
No fundo, estas línguas lembram-nos de algo que o próprio Esperanto procurava demonstrar: as palavras têm o poder de aproximar pessoas, criar comunidades e dar vida a mundos inteiros — sejam eles reais ou imaginários.