Diários da peste | Como a literatura resistiu ao confinamento

Por: Beatriz Sertório a 2020-07-31 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

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A Peste
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Ensaio sobre a Cegueira
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The Stand
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Estação Onze
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Bode Inspiratório | Escape Goat
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Frente ao Contágio
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A Pandemia que Abalou o Mundo
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À Espera de Godot
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Últimos artigos publicados

Enfrentar o medo com elegância poética

Numa entrevista ao Correio Braziliense, em abril, Mia Couto, biólogo e poeta moçambicano, quando questionado sobre o espaço da poesia em tempos de incerteza e sobre se o medo poderia ser enfrentado com 'elegância poética', afirmou que a poesia poderia ser boa aliada em tempos de pandemia, acrescentando que, se esta ”constituir uma visão alternativa do mundo, e não apenas uma forma de arte, então ela terá poderes para enfrentar este mundo”. “Às vezes, tudo o que resta é a palavra”, concluiu. E foi com palavras e poesia que muitos quiseram vestir os dias em que, confinados, assistiam ao medo e à morte a fazerem manchetes nas televisões — a fazer lembrar os seres descritos por Platão, na sua alegoria da caverna, que vislumbravam apenas uma ténue sombra da realidade projetada nas suas paredes. Foi a alimentar os sonhos a poesia (“Ó subalimentados do sonho! A poesia é para comer.”, Natália Correia) que muitas esperas se tornaram suportáveis porque, acreditamos, tal como Juan Ramón Jimenez, que “Apoesia, como deus, como o amor, é só fé.”

"Wonderstruck - O Museu das Maravilhas" | Do lápis de carvão para o ecrã

Um livro para os leitores mais novos deu origem a um filme para todas as idades. "Wonderstruck — O Museu das Maravilhas", de Brian Selznick, foi adaptado ao cinema por Todd Haynes, e tem estreia marcada no canal TVCine Top, este sábado, dia 1 de agosto.

Lá fora, dentro de um livro | 8 livros para viajar sem sair do sítio

Nos últimos meses, quando o mundo se tornou do tamanho da nossa casa, foram os livros que nos permitiram continuar a viajar. A constatação de Jorge Luís Borges de que “[o] livro é uma extensão da memória e da imaginação” tornou-se ainda mais verdadeira quando todos os lugares que visitámos ou pensámos visitar deixaram de ser acessíveis por outra via para além da memória ou da imaginação. Embora não possamos saber o que o futuro vai trazer, sabemos que podemos sempre contar com os livros para viajar quando a realidade nos confi na. Às vezes, a viagem é atribulada e deixa em nós uma tempestade de emoções, outra vezes é como um cruzeiro em dia de sol e céu limpo, que desejávamos que nunca terminasse. Em ambas, a mesma certeza, compartilhada por Fernando Pessoa: “Para viajar, basta existir.”

Na impossibilidade de descrever os acontecimentos dos últimos meses, recorremos à poesia. Alexandre O’Neill disse que “o medo vai ter tudo/ pernas/ ambulâncias/ e o luxo blindado/ de alguns automóveis (...) o medo vai ter tudo/ quase tudo/ e cada um por seu caminho/ havemos todos de chegar/ quase todos/ a ratos”. Nos últimos tempos, ouvimos as palavras 'pandemia', 'vírus', 'quarentena', 'distanciamento social', …, tantas vezes que nos sabem agora às palavras que Carolino (personagem de Aparição, de Vergílio Ferreira) mastigava, explicando ao professor Alberto Soares: “É assim: a gente diz, por exemplo, pedra, madeira, estrelas ou qualquer coisa assim. E repete: pedra, pedra, pedra” muitas vezes e depois pedra já não quer dizer nada.”


Fomos engolidos por estas palavras mastigadas, por factos e estatísticas, boletins diários de percentagens e números — um único número por país, como notou Gonçalo M. Tavares (Diário da Peste, jornal Expresso, 24 de março) — como o placard de um jogo que já não conhece adversário. E, perante a precisão científica destas palavras, ansiamos por outras, menos transparentes, que falem das coisas que a ciência não pode explicar. Assim se escrevem os Diários da Peste.


A LEITURA EM TEMPOS DE PANDEMIA

Perante a tragédia, a literatura assume um papel fundamental em três frentes: em primeiro lugar, serve de registo dos eventos presentes para as gerações futuras; em segundo, mimetiza a realidade, oferecendo paralelismos que nos ajudem a compreender os eventos trágicos e a lidar com eles; e, por fim, serve de escape quando a vida real se torna demasiado dura. Lembremos, a propósito do segundo ponto, as palavras do poeta e romancista James Baldwin: “Pensamos que a nossa dor e o nosso desgosto não conhecem precedentes na História do mundo, mas depois lemos.” De alguma forma, sentimos
conforto em saber que alguém, noutro tempo e noutro espaço, sentiu o mesmo que nós, que sofreu com a mesma intensidade e se debateu com as mesmas questões. Como conclui Baldwin, através dos livros podemos compreender que "as coisas que mais nos atormentam, são as mesmas que nos fazem sentir ligados a todas as pessoas que já vivera" — a tristeza, a dor, o medo, o amor …, mesmo as emoções para as quais não temos nome, podemos, um dia, encontrar expressas por palavras que sentimos como nossas, num livro escrito por outra pessoa, há décadas.

Foi, possivelmente, este sentimento que esteve na origem do aumento de vendas de romances distópicos, como Ensaio sobre a Cegueira (1995), de José Saramago, ou A Peste (1947), de Albert Camus. Em Itália, o país europeu mais afetado por esta pandemia, que já foi designada como a maior do século XXI, ambos os livros se tornaram bestsellers, décadas após a sua publicação. Mas estes não foram casos isolados. Outras distopias, como Estação Onze, de Emily St. John Mandel, ou histórias de terror, como The Stand, de Stephen King, também foram comparadas com a situação de pandemia que vivemos, e ganharam novos leitores durante este período. Camus defendia que a ficção é a mentira que os escritores criam de forma a poderem dizer a verdade. Possivelmente, é também através da mentira perpetuada pela ficção que os leitores melhor conseguem interiorizar essa mesma verdade. Para além dos romances distópicos, as tendências de leitura durante a quarentena passaram, sobretudo, pela não ficção — livros sobre ecologia e sustentabilidade (questões que estão cada vez mais na ordem do dia) —, mas também livros sobre jardinagem, culinária ou atividade física, reflexo da necessidade de ocupar o tempo em casa. Também os livros infanto-juvenis, bem como os de apoio escolar, fizeram parte das preferências dos leitores, como resultado da interrupção do período escolar.

 

"Lemos para saber que não estamos sozinhos."  C.S. Lewis

 

CRÓNICAS DE UM TEMPO SUSPENSO


Se a leitura aumenta em alturas de crise, também os escritores procuram nos tempos mais obscuros uma fonte de inspiração (é oportuno lembrar que Shakespeare escreveu Rei Lear enquanto estava confinado, durante um surto da Peste Negra). Em Milão, em março, o mês em que Itália se tornou o país com mais mortes confirmadas por covid-19 no mundo, o escritor italiano Antonio Scurati olha pela janela da sua casa e escreve sobre aquilo que observa no exterior. Começa por colocar uma pergunta, feita por outro escritor um século antes: “Como posso convencer a minha mulher de que, enquanto olho pela janela, estou a trabalhar?”. A esta, segue-se outra questão; uma inquietação que permanece sem resposta: “Como posso explicar à minha filha que, quando olho pela janela, vejo o fim de uma era?”.

Embora Scurati esteja a viver uma situação sem precedentes, a sua inquietação não é única, tendo, certamente, sido partilhada por vários escritores antes de si. Entre eles, podemos supor, Ernest Hemingway, que assistiu a duas Guerras Mundiais e trabalhou como correspondente de guerra durante a Guerra Civil Espanhola; Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz, que escreveu algumas das mais importantes obras sobre o Holocausto; ou ainda Svetlana Alexievich, que deu voz às vítimas de Chernobyl, o pior desastre nuclear que a História já conheceu. Os escritores são os cronistas do tempo, e a literatura, o testemunho que é passado de geração em geração – testemunho esse que está constantemente a transformar-se e a adaptar-se aos tempos que correm. A situação crítica que vivemos obrigou a inúmeras adaptações nas diferentes áreas, e a da produção literária não foi diferente. A suspensão ou redução do número de publicações por parte das editoras levou os escritores a procurar novas formas de se aproximarem dos leitores. Para além disso, muitos deles são movidos pela mesma questão que inquieta Scurati: como explicar que vivemos o fim de uma era?

 


Em Portugal, um dos projetos que nasceu desta inquietação foi o Bode Inspiratório — um grupo de mais de 40 escritores e artistas plásticos que se propôs lançar, todos os dias, um capítulo daquilo que apelidam de "folhetim à antiga". Em cada dia, um escritor tinha 24 horas para escrever um texto que outro teria de complementar no dia seguinte, e assim sucessivamente. Do grupo, fazem parte autores como Mário de Carvalho, Afonso Cruz, Afonso Reis Cabral, Luísa Costa Gomes ou Ana Margarida de Carvalho. Segundo esta última: "Este projeto surgiu desta situação em que nos encontramos, de isolamento social, e de nós pensarmos: 'Se os médicos fazem a sua parte e muita gente pode fazer qualquer coisa pelo outro, o que nós, escritores, podemos fazer coletivamente, estando fechados em casa?'". Recentemente, os textos produzidos por este projeto foram compilados e publicados numa edição bilingue intitulada Bode Inspiratório | Escape Goat, pela editora Relógio d'Água.


Foi também deste pensamento que nasceu a página de Facebook de Frederico Lourenço (Latim do zero) na qual o autor e tradutor deu lições de latim; ou a crónica que Gonçalo M. Tavares escreveu no jornal Expresso desde março e cujo título (Diário da Peste) inspirou o do presente artigo. Desde então, todos os dias, este que é um dos mais importantes autores da literatura portuguesa contemporânea tem refletido e feito refletir sobre a pandemia, numa mistura de ensaio e ficção, tão característica da sua prosa. Por vezes, comentando as notícias, transcrevendo cabeçalhos, obrigando-nos a pensar neles para além do seu sentido imediato. Numa escrita caótica e fragmentada, retrata o antes e o depois de um século “partido em dois por um vírus”, imortalizando-o como nenhum cientista ou historiador pode fazer: com os laivos próprios da filosofia e da prosa poética. “No Brasil, uma artista diz que descobriu sombras na sua casa que nunca tinha visto./ Porque nunca tinha estado àquela hora em casa (…)/ Uma pergunta: conheces todas as sombras da tua casa?”

 

"O século XXI partido em dois por um vírus. Dois séculos tem este século." — Gonçalo M. Tavares

 

 

A LITERATURA PÓS-PANDEMIA


Os desafios que a pandemia nos trouxe e as respostas que os escritores encontraram para os combater levam-nos a pensar qual o impacto que estes terão na literatura do futuro. Historicamente, cada acontecimento catastrófico tende a ser seguido de uma revolução ao nível da literatura e das artes — lembremos, a título de exemplo, a corrente modernista que se seguiu à Primeira Guerra Mundial e que nos deu obras disruptivas como The Waste Land, de T. S. Elliot, e Ulisses, de James Joyce; ou, no panorama nacional, a poesia da geração de Orpheu. Poucos meses depois do início do surto que tomou o mundo de assalto, começaram a surgir os primeiros livros sobre o assunto. Entre eles, Frente ao Contágio, do italiano Paolo Giordano, A Pandemia que Abalou o Mundo, de Slavoj Žižek, ou, para as crianças, O Nuno escapa ao vírus, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Serão estes indicativos de uma nova corrente literária?


Embora seja cedo demais para saber se estes temas distópicos transitarão da realidade para a ficção com frequência daqui para a frente, podemos apontar as consequências económicas como primeiro impacto da pandemia na literatura. Os constrangimentos provocados pela necessidade de redução de custos, perante a crise que se avizinha, irão dar continuidade aos esforços — já postos em prática por vários escritores e artistas, face às medidas de restrição impostas pela quarentena — para encontrar novos meios de contacto com o seu público. No geral, os escritores (como os artistas) têm vindo a apostar mais nos meios digitais, tendo havido inúmeros exemplos de autores que, nos últimos meses, partilharam vídeos nas redes sociais a ler excertos de livros seus ou de outros autores. Para além de esta ser uma forma de dar a conhecer os livros a potenciais leitores, é também um meio de disseminação do poder terapêutico da literatura para um maior número de pessoas.


Esta iniciativa ganhou partícular expressão junto do público infantil, com várias editoras de livros infantis que, pela mão dos seus autores e de figuras públicas, organizaram horas do conto virtuais como forma de proporcionar um momento lúdico às crianças em confinamento. J. K. Rowling, autora da saga de Harry Potter, anunciou a publicação digital de um novo livro infanto-juvenil para que as crianças em casa tivessem algo novo para ler (The Ickabog). Os festivais literários, como o Festival Literatura em Viagem, também seguiram esta tendência, e houve ainda espaço para novos projetos, como o Conversas confinadas, um conjunto de sessões de conversas com escritores disponibilizadas online pelo jornalista e tradutor Carlos Vaz Marques.

Embora ainda só possamos tentar adivinhar o impacto que estes novos meios de fazer e partilhar a literatura terão no futuro, podemos, desde já, assinalar um aspeto positivo, que é o de a fazer chegar a um maior número de pessoas. Como o vírus que assolou o mundo, expondo quão superficial é o nosso conceito de “fronteiras”, também a literatura as destrói, tornando-se numa forma particularmente importante de aproximar as pessoas numa altura em que não o podem fazer fisicamente.

 

"Mas que quer dizer isso, a peste? É a vida, nada mais." — Albert Camus, A Peste


A VIDA NOS INTERVALOS DO TEMPO


Os meses em confinamento mostraram-nos quão subjetiva é a nossa noção de tempo. Antes, falávamos sobretudo da sua escassez. Todas as manhãs, ele parecia escapar-nos por entre os dedos — nos beijos apressados dados segundos antes de sair de casa a correr, na correria para apanhar o autocarro, o metro ou o comboio, que só chega a horas nos dias em que estamos mais atrasados, na impaciência daqueles que a buzinar contra o trânsito parecem dizer: tenho pressa de chegar. Adiámos encontros com pessoas, países, filmes e livros. Repetimos vezes sem conta: não tenho tempo. E, de
repente, um inimigo invisível obriga-nos a parar.


Após o choque inicial, provocado por um trauma cuja extensão ainda não é possível medir, o excesso de tempo, para alguns, deu lugar à monotonia e ao tédio. Em A Montanha Mágica, a obra de Thomas Mann que é uma verdadeira dissertação sobre a passagem do tempo, o Nobel da Literatura escreveu: “Quando um dia se assemelha a todos os outros, todos os outros se assemelham a esse dia”. Quem esteve fechado em casa durante os últimos meses possivelmente poderá confirmá-lo. Para o filósofo José Gil, existe uma duplicidade no tempo passado em confinamento — por um lado, é um tempo suspenso da vida social, “em que tudo está reduzido à família, a pequenos gestos, ao trabalho, ao estrito tempo de trabalho”; por outro, é um tempo de espera. “Estamos sempre à espera do desconfinamento, de voltar à normalidade: o confinamento é um fechamento que leva a uma passividade, fundamentalmente é uma vida de passividade.”

Como Vladimir e Estragon, personagens da obra de Samuel Beckett, À espera de Godot, esperámos, sem saber por quanto tempo, ou o que o fim da espera nos iria trazer. Aprendemos a “esperar como se esperar fosse fazer uma coisa”, como escreve Gonçalo M. Tavares no seu Diário da Peste. E, nos intervalos do tédio, da monotonia dos dias, do medo do presente e do futuro, preenchemos as horas da melhor maneira que conseguimos: trabalhámos, lemos, ouvimos música, vimos filmes, partilhámos conversas ao telefone ou de uma varanda para outra, dançámos à janela ou mesmo sem ninguém a ver. Convencemo-nos de que no fim, esse fim que ninguém sabia quando ou como iria chegar, tudo iria ficar bem.


No nosso isolamento, aprendemos que a espera não é um tempo suspenso, mas aquilo de que é feita a própria vida; que a maior parte dos dias são banais mas que essa banalidade é importante e necessária, tal como as pausas num diálogo ou o silêncio. Recordando outra citação do Diário de M. Tavares, aprendemos ainda que é preciso preencher esses intervalos de beleza e “infiltrar nas fissuras a alegria./ Como se a alegria fosse um material médico.” Justifica o autor: “A alegria não basta, mas é necessária.” Também a literatura não basta, mas é necessária. Também a música. Também a poesia. Também o amor.

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