Amigos improváveis

Por: Marta Martins Silva a 2024-07-30

O escritor Mia Couto escreveu que “quem não tem um amigo viaja sem bagagem” e o cantor e compositor Sérgio Godinho que “coisa mais preciosa na vida não há”. Menos lírico, como é apanágio dos dicionários, o Priberam descreve a amizade como um “sentimento de afeição e simpatia recíprocas” e poucas vozes se levantarão contra a necessidade de partilhar com outros este afeto que não compete com o amor romântico porque lhe falta a paixão e o que esta atrela, mas pode ser colo e ombro para toda a vida. As crianças elegem desde pequenas os seus pares, os adolescentes constroem-se junto deles e, aos adultos, a amizade traz um suporte essencial para lidar com os desafios e responsabilidades que o crescimento acarreta. E se há amizades que se conseguem entender facilmente, outras há absolutamente improváveis, por terem sido capazes de desafiar barreiras (sejam elas culturais, políticas, geográficas) e dar sentido às palavras do poeta Vinícius de Morais, que fala do amigo como “um ser que a vida não explica”. 
 

Victoria de Inglaterra e Abdul Karim 

Um mergulho na História leva-nos a um destes casos e ao reinado de Victoria de Inglaterra (usou a coroa entre 20 de junho de 1837 e 22 de janeiro de 1901), que, no cinquentenário da sua subida ao trono, conhece Abdul Karim, de 24 anos, nascido na Índia britânica. 

O jovem era escriturário na prisão de Agra, mas, como tinha sido útil na escolha de tapetes para uma exposição sobre a Índia, o superintendente da prisão onde trabalhava escolheu-o para servir no jubileu de ouro da rainha, num banquete que juntou os nomes grandes da realeza europeia. Abdul estaria longe de imaginar que se tornaria, apesar da diferença de idades (44 anos), de cultura, de geografia e de classes, o confidente da rainha, viúva e isolada do mundo desde a morte do marido, o príncipe Alberto. Entre os dois, nasceu um entendimento inesperado que se transformou numa amizade que a corte não só não entendeu como quis apagar da História quando a rainha morreu, em 1901. O filho Edward queimou as cartas trocadas entre os dois durante os mais de dez anos de amizade e a filha Beatrice apagou todas as referências a Karim nos diários da rainha, num esforço tão meticuloso que foram precisos cem anos para um jornalista reparar numa estranha pista deixada na casa de verão de Victoria — um retrato do criado pintado como um nobre, em tons de ouro, vermelho e creme, a segurar um livro nas mãos — que levou à descoberta desta amizade improvável entre duas pessoas que não podiam ter nascido em berços mais distintos, mas se entenderam para lá de tudo o que os separava (e de todos os que os queriam separar).

Os alarmes da família real começaram a soar quando se soube que a rainha atribuíra ao jovem criado o título de munshi, uma palavra em urdu que significa professor, e mais tarde o nomeou seu secretário oficial. O indiano foi então acusado de ser um espião da Liga Patriótica Muçulmana e a amizade entre os dois questionada, numa época em que as barreiras eram muito mais intransponíveis do que são hoje. Victoria não cedeu às críticas durante o tempo em que viveu, e fez tudo pelo seu novo amigo: arranjou-lhe um professor particular de inglês, fez com que a mulher de Abdul fosse viver para Inglaterra (onde lhe oferecia conselhos à hora do chá, que frequentemente partilhavam) e ofereceu ao casal uma casa, da qual foram expulsos pela família real quando Victoria morreu. 

Consta que Abdul foi a última pessoa a ver a rainha antes de o caixão ser fechado e, logo em seguida, deportado para a Índia, onde viria a morrer oito anos depois. “Ah, meu maior amigo, nunca mais / Na paisagem sepulta desta vida / Encontrarei uma alma tão querida / Às coisas que em meu ser são as reais”, escreveu Fernando Pessoa em Autobiografia. Depois de descoberta, a história da amizade entre Karim e Victoria foi eternizada num livro e num filme sobre o tanto que os uniu, apesar do tanto que os separava.

 

Mary Todd Lincoln e Elizabeth Keckley 

Nesta história de amizade, a primeira-dama americana Mary Todd Lincoln e a antiga escrava Elizabeth Keckley conheceram-se no primeiro dia de mandato do 16.º Presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln, a 4 de março de 1861, e não demoraram a tornar-se amigas e confidentes, apesar dos mundos aparentemente intocáveis de onde vinham. 

Elizabeth tinha nascido negra e escrava na Virgínia quarenta anos antes e passado por uma sequência de dramas durante a infância e a adolescência, vítima de violência física e abusos sexuais que resultaram numa gravidez. Mary, por seu lado, oriunda de uma família branca, rica e influente, era sofisticada, culta e entendida em política. Tinha herdado da mãe, que morrera quando tinha sete anos, os olhos azul-claros, as pestanas compridas e o cabelo castanho-claro com reflexos de bronze. Ambas tinham a mesma idade (nasceram em 1820) e o gosto por moda. As vidas das duas podiam nunca se ter cruzado, mas, quando Elizabeth conseguiu comprar a sua liberdade, em 1855, abriu um negócio de costura, habilidade que tinha aprendido com a mãe. No início da década de 1860, mudou-se Washington e começou a dar aulas de confeção de vestidos. Ali, não demorou a conseguir angariar clientes influentes que a recomendaram à Casa Branca, onde se tornou costureira pessoal de Mary Todd Lincoln — além de conselheira de estilo do Presidente — e a sua relação com a primeira-dama não demorou a ser mais próxima do que seria expectável na época, tendo em conta as diferenças sociais que as separavam. Mary Lincoln chegou a descrever a costureira como a sua “amiga mais íntima” e era com ela, ao invés das mulheres ricas e influentes que a rodeavam, que partilhava as suas confidências mais privadas, ela, que viveu muitos momentos infelizes durante aquele período. A primeira-dama já havia perdido dois filhos pequenos quando, aos 46 anos, presenciou o assassinato do marido, na noite de 14 de abril de 1865. Quando o casal assistia a uma peça no Teatro Ford, em Washington, o presidente Lincoln, com quem estava casada há 23 anos, foi baleado na nuca e não resistiu aos ferimentos.

Três anos antes, em 1862, os Lincoln tinham ajudado a costureira a fundar uma associação que tinha por missão fornecer alimentos, abrigo, vestuário e apoio emocional a escravos recentemente libertados e a soldados doentes e feridos. As duas mulheres viajaram e trabalharam juntas para angariar fundos para o projeto comum, mas a amizade terminou quando Elizabeth Keckley, que se tinha tornado uma figura proeminente na comunidade negra, publicou as suas memórias em 1868. A primeira-dama sentiu-se traída por a amiga ter revelado pormenores privados sobre a vida no interior da Casa Branca e, embora esta tenha justificado que escreveu o livro para ajudar a neutralizar as críticas à antiga primeira-dama, Nos Bastidores: Trinta anos como escrava e quatro na Casa Branca, ao qual anexou a correspondência pessoal de Mary Todd Lincoln, foi o ponto final numa amizade que anos antes significara tanto para ambas.

O livro também foi mal aceite pela comunidade branca de Washington, que deixou de encomendar trabalhos de costura a Elizabeth em solidariedade com a viúva de Lincoln, que nunca recuperou da morte do marido e dos filhos. Mary viria a morrer em 1882, na casa da irmã, em Springfield, a mesma de onde saíra como noiva de Abraham Lincoln quarenta anos antes, e Elizabeth, em maio de 1907, no National Home for Destitute Colored Women and Children, em Washington, onde vivia. Como escreveu Carlos Drummond de Andrade, “Certas amizades comprometem a ideia de amizade. O amigo que se torna inimigo fica incompreensível”, mas não deixa de haver uma história comum entre quem, pouco ou muito tempo, partilhou este sentimento: não será à toa que a ciência compara a perda de um grande amigo à perda de um grande amor.

 

Philippe Pozzo di Borgo e Abdel Yasmin Sellou 

Mas, felizmente, muitas amizades não se perdem, por improváveis que sejam — como a do empresário aristocrata tetraplégico Philippe Pozzo di Borgo com Abdel Yasmin Sellou, um auxiliar contratado para cuidar dele numa altura em que lidava não só com as consequências do acidente que o deixara sem movimento do pescoço para baixo três anos antes, como com a morte recente da mulher, Beatrice, que perdeu para o cancro. 

Qual a esperança para uma alma solitária num mundo vazio? Não tenho mais passado, não tenho futuro, sou uma dor presente”, disse, sobre esse período da vida no relato autobiográfico publicado em 2001. Se a história lhe soa familiar, saiba que é possível que a tenha visto também no grande ecrã precisamente com o nome Amigos Improváveis, em 2011, um filme que atraiu quase 20 milhões de espetadores ao cinema. 

Nascido em 1951 na Tunísia, e descendente de uma antiga família nobre da Córsega, Philippe geria a casa de champanhe Pommery, numa vida que tinha tudo para ser perfeita, junto com o amor da sua vida e os dois filhos que adotaram, quando, em 1993, sofreu um acidente de parapente que o deixou tetraplégico. Foi também na autobiografia que escreveu em 2001 que o empresário partilhou que saiu da depressão graças ao seu assistente, Abdel Yasmin Sellou. Ao jornal francês Le Figaro, um amigo de Philippe resumiu a improvável, mas encantadora, amizade entre dois homens que não podiam vir de mundos mais distintos, e que não fizeram das barreiras um impedimento. “Enquanto estava numa situação de total vulnerabilidade, Philippe contratou um homem que o poderia ter intimidado, mas confiou nele. É exatamente isso que o filme diz: a alegria pode brotar de uma relação entre dois seres frágeis porque confiam um no outro e aprendem a ajudar-se”, resumiu Laurent de Chérisey. Abdel Yasmin Sellou nascera na Argélia, onde viveu uma infância marcada por dificuldades económicas que moldaram o seu temperamento impulsivo. Quando conheceu Pozzo di Borgo, já tinha todo um historial de furtos e outros problemas com as autoridades.

Como alguém tão refinado contrataria uma pessoa como Abdel, que, em pequeno, até roubava os colegas de escola?”, perguntava-se, sem que a resposta demorasse. “Ele era rápido, inteligente e estava disponível 24 horas por dia, sete dias por semana. Era capaz de agir sem hesitar, de tomar iniciativa e estava sempre pronto para conduzir rápido e sem carta de condução”, resumiu o empresário numa entrevista à revista Veja, em 2012. Com Abdel, Philippe tornou lema de vida a frase “é preciso saber tirar proveito de uma desgraça e não se deixar vencer por ela” e, com Philippe, Abdel percebeu que valia muito mais do que um começo de vida atribulado. Os dois protagonistas desta amizade mantiveram contacto até ao fim da vida do empresário, que morreu em 2023, mas que, antes disso, tinha voltado a casar. O antigo assistente, e para sempre amigo, também constituiu família. “Amigo é o erro corrigido / Não o erro perseguido, explorado / É a verdade partilhada, praticada” (Alexandre O'Neill). Contra todas as improbabilidades.

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