A ilha dos amores e outros lugares imaginários das literaturas portuguesa e brasileira

Por: Marisa Sousa a 2023-07-31 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Quando leu, no início da década de 90, o Dicionário de Lugares Imaginários, de Gianni Guadalupi e Alberto Manguel, A. E. Maia do Amaral, diretor-adjunto da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC), sentiu-se deslumbrado com a obra, mas ficou com a sensação de que as literaturas portuguesa e brasileira não estavam bem representadas. Decidiu, ele próprio, fazer uma recolha de alguns dos mais importantes lugares imaginários luso-brasileiros. O resultado foi uma exposição (que esteve patente na Sala de Leitura da BGUC nos dias 26, 27 e 28 de dezembro de 2022) e um livro feito manualmente, com o objetivo de ser oferecido a Alberto Manguel. Foi assim que nasceu A Ilha dos Amores e Outros Lugares Imaginários das Literaturas Portuguesa e Brasileira.
 

“Com a exclusão de céus e infernos, de lugares extraterrestres, sonhados, futuros ou bidimensionais (ou nomes ficcionados para lugares reais, como Tormes), fizeram-se entradas geográficas para, 'lugares visitáveis' literariamente. São 32 países, cidades ou apenas casas descritas nas literaturas portuguesa e brasileira, em obras publicadas entre 1572, ('Os Lusíadas' de Camões) e 2021, ('Hífen' de Patrícia Portela).”


Qual foi o principal desafio que enfrentou para conseguir dar vida a esta exposição?

O desafio maior foi encontrar tempo: eu tinha acabado de montar uma exposição sobre a Universidade de Coimbra e a Independência do Brasil, e preparávamos um Colóquio de Bibliotecas Icónicas e as comemorações dos 250 anos da Imprensa da Universidade. Nesse ano, a Biblioteca Geral levou a efeito mais de 60 sessões ou eventos públicos, o que mostra bem o ritmo em que trabalhávamos. Por isso, tive a ideia e comecei as leituras durante as minhas férias, no mês de setembro, o meu único tempo disponível.


Por que razão foi decidido utilizar as coberturas das mesas da Biblioteca, colocando a informação diretamente sob os olhos dos utilizadores da Sala de Leitura?

Isso foi uma racionalização posterior porque, no momento, fomos empurrados para isso por já estarem ocupados ou comprometidos todos os espaços habituais de exposição na BGUC. Como o guião era essencialmente uma série de textos sobre os lugares, que dispensava mostrar os livros físicos, pensámos nuns pósteres na parede e só depois nos lembrámos das coberturas das mesas, ocupando metade da Sala de Leitura geral. A versão inglesa que ocuparia a outra metade ficou por fazer. 


Como foram as reações a esta exposição?

A primeira reação, naturalmente, foi de surpresa, de curiosidade; nunca se tinha feito aquilo, alguns alunos até procuraram variar a escolha dos lugares de leitura para conseguirem ler mais do que uma “entrada” da exposição. Depois da novidade, a convivência foi pacífica, e se alguns utilizadores, ao sentar, colocavam a cobertura na mesa ao lado, ninguém se mostrou incomodado com a “distração”. Depois de nove semanas, eu esperava encontrar alguns grafitos, o que não aconteceu. Diria que a reação foi melhor do que esperava, até porque eu nunca espero muito mais do que indiferença…


Desde a realização da exposição, já descobriu outros lugares que mereçam ser acrescentados às 32 iniciais?

Sim, claro, estou sempre a descobrir. Foi difícil parar e fiz com muito entusiasmo mais sete entradas já depois da exposição montada. São neste momento 38 lugares imaginários porque, graças a alguém mais culto e mais atento do que eu (o Luís Miguel Queirós, do Público), acabei por tirar do guião a Ilha do Amor descrita pelo Cavaleiro de Oliveira, em 1744. Afinal, trata-se de uma tradução livre para português de um relato anónimo francês de 1664. Isso era conhecido da maioria dos especialistas, mas até ele me apontar o facto, não me tinha apercebido. Um bibliotecário não consegue saber tudo…


Se pudesse escolher, qual dos lugares imaginários retratados gostaria de visitar?

Boa pergunta. Talvez escolhesse mesmo a Ilha dos Amores de Camões, por ser o oposto exato do que eu sempre escolho para visitar: uma pura artificialidade, um Club Med ao gosto dos marinheiros portugueses do século quinze, um resort de turismo de massas. E com o bónus de a deusa Vénus o ter enchido de ninfas amorosas. A não ser a Ilha dos Amores, talvez me atraísse aquele Espaço-Tempo totalmente subjetivo de wasteband, porque gostava muito de poder reviver as minhas memórias de Macau.


Houve, entretanto, desenvolvimentos no que diz respeito à publicação do catálogo da exposição?

No nosso Boletim publicamos todos os catálogos e guiões das exposições que fazemos durante o ano, para criar memória, que me parece importante. Naturalmente, poderíamos publicar este num volume autónomo e até recebi uma proposta de uma editora do Porto para o incluir numa coleção sobre Utopias. Contudo, a vontade que A. Manguel nos tinha logo mostrado de usar/promover esses conteúdos (de que gostou muito) impedia-nos de alguma forma de lhes dar outro destino que não fosse desafiar a Tinta-da-China para tratar da publicação em livro. Veremos…


Há planos para levar esta exposição a outros pontos do país?

Não, porque não seria fácil. Ela não foi pensada para ser itinerante, os suportes foram impressos à medida das mesas da nossa Sala de Leitura, difíceis de adaptar a outros locais. Mas, os textos podem eventualmente ser paginados noutro suporte, porque eu trabalho de uma maneira muito “formatada”, muito disciplinada, todas as entradas têm 1600-1900 carateres, portanto estamos em condições de considerar quaisquer propostas que nos queiram fazer, sobretudo depois da difusão que a Bertrand aqui lhe está a fazer!
 

Não consigo evitar fazer-lhe uma pergunta-cliché: que três livros escolheria levar para uma ilha deserta (real ou imaginária)?

Se corresse riscos de ficar muito tempo na ilha deserta, escolheria um livro muito grande, um livro de que gostasse muito e um que permitisse alinhamentos e leituras sempre diferentes, que é afinal o caso da maior parte dos livros. Levaria, então, a Bíblia, o Memorial do Convento e o Livro do Desassossego, este de preferência num formato digital tipo Arquivo LdoD (https://ldod.uc.pt) com o seu quê de aleatoriedade e com possibilidades de reescritas virtuais.
 

“Encheu-se-lhe a imaginação de tudo o que lia nos livros”, lemos em Dom Quixote. Numa era em que a Inteligência Artificial parece dominar todas as conversas, qual é, na sua opinião, a importância do exercício de ler e imaginar?

No plano do discurso socialmente aceite, é quase consensual que a imaginação é cada vez mais importante, até para tecnocratas. Mas, sem entrar em teorias conspirativas de que existiria um qualquer propósito oculto de “normalização” das consciências, tudo me parece estar contra o livro: o tempo, a solidão e o silêncio necessários à leitura de prazer são ocupados quase obsessivamente por atividades, por pessoas e por solicitações incessantes. É pena!
 

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