A escrita do Dicionário de Lugares Imaginários

Por: Alberto Manguel a 2023-07-28 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Algures em meados dos anos 70, conheci o Gianni Guadalupi. Eu tinha começado a trabalhar para o Franco Maria Ricci, em Milão, onde o Gianni trabalhava como diretor editorial, e tornámo-nos amigos rapidamente. A enorme generosidade intelectual do Gianni, aliada ao seu sentido de humor inteligente e à sua erudição discreta, agradavam-me, e em breve pusemo-nos a encontrar formas de subverter o nosso trabalho editorial. O Gianni era apaixonado por obras históricas estranhas (sobretudo pelo género de crónicas hipotéticas que imaginavam o que teria acontecido se Napoleão tivesse vencido a batalha de Waterloo ou se Aníbal não tivesse sido derrotado) e por atlas. Embora não apreciasse viajar fisicamente, deliciava-se em percorrer as rotas e os trilhos delineados em mapas antigos e nos guias Baedeker, dos quais possuía uma esplêndida coleção que chegou a ser alojada num galinheiro renovado em Arona, e em cujo teto pintou frescos naïf das Sete Maravilhas do Mundo.
 

Adorávamos trabalhar juntos nos escritórios do Ricci. Encomendámos (e por vezes inventámos nós) textos para várias antologias, traduzimos com grande liberdade poética todo o tipo de histórias e ensaios (eu, do inglês para o espanhol, e o Gianni, do espanhol para o italiano), produzimos uma série de números para o boletim do Ricci, e aquilo que nos dava mais prazer era passarmos longas horas a conversar sobre livros e leitura.
 

Descobrimos rapidamente que a geografia da imaginação é infinitamente mais vasta do que a do mundo material. 


Certo dia, o Gianni falou-me de um romance que tinha descoberto, La ville vampire, de Paul Féval, e disse que podia ser divertido escrevermos uma espécie de guia turístico da Cidade Vampira, com informações sobre como lá chegar, onde ficar, o que comer, que locais visitar — todos factos retirados do próprio livro. Não inventaríamos nada. Começámos a trabalhar imediatamente, e em pouco tempo tínhamos composto um guia de viagem de quatro ou cinco páginas sobre a cidade de Féval. Mas porquê ficar por aqui?, perguntava o Gianni. Porque não alargar o nosso guia a outras cidades imaginárias? Porque não incluir também países, ou até continentes? Começámos a compilar uma lista de lugares imaginários de que nos lembrámos. Em breve, a nossa lista continha várias centenas de entradas. Foi assim que teve início o Dicionário de Lugares Imaginários.
 

Descobrimos rapidamente que a geografia da imaginação é infinitamente mais vasta do que a do mundo material. Esta afirmação, ainda que banal, permitiu-nos ter noção da enorme generosidade implícita na nossa função vital, a de dar vida a paisagens e a criaturas que não podem afirmar a sua presença no mundo do peso e do volume. Tal como os habitantes angélicos cujas hierarquias eram debatidas pelos nossos antepassados, tal como o unicórnio e a manticora, tal como o indescritível éter e o misterioso flogisto, tal como os conceitos de democracia perfeita e de boa vontade para todos os homens, os lugares imaginários da nossa mente não necessitam de materialidade para existir na nossa consciência. A Utopia e o País das Maravilhas, Atlantis e Eldorado estão sempre presentes, embora nenhum mapa oficial revele a sua verdadeira localização.
 

Tivemos necessidade de limitar a nossa pesquisa. Por uma questão de economia literária, eliminámos céus e infernos, bem como lugares fora do planeta Terra. Optámos por não incluir lugares imaginários que eram meros pseudónimos de sítios verdadeiros, tais como o Condado de Yoknapatawpha, de Faulkner, e Balbec, de Proust. Decidimos não explorar mundos paralelos nem lugares do futuro, uma vez que (de acordo com a lógica do nosso Dicionário) estes contradiriam ou sobrepor-se-iam aos nossos lugares imaginários “presentes”. Mesmo assim, acabámos por reunir milhares de entradas.
 

Apesar disso, muitos lugares ficaram de fora. O diretor-adjunto da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, A. E. Maia do Amaral, teve a ideia genial de realizar na biblioteca da Universidade uma exposição dos lugares imaginários da literatura portuguesa que nós, por ignorância, não incluíramos no nosso guia, como a Ilha dos Amores de Camões, o Bairro dos Escritores de Gonçalo M. Tavares, a Torre de Barbela de Ruben A., entre muitos outros. Com este gesto, Amaral provou que, ao contrário da geografia limitada do nosso planeta verdadeiro, existem sempre mais regiões a explorar na geografia da imaginação. Expressamos o nosso sincero agradecimento ao nosso companheiro de explorações.
 

O Gianni morreu em 2005, mas a sua wanderlust literária continua a deambular pelas páginas do nosso Dicionário. Quando o escrevemos, há já tantos anos, com uma energia e persistência só possíveis na juventude, seguimos rigorosamente as regras que nos tínhamos imposto — escrever as entradas como se os lugares existissem realmente e não acrescentar quaisquer factos que não estivessem presentes nas obras originais — com duas exceções. Decidimos permitir-nos inventar um lugar cada um, incluindo um autor e uma bibliografia apócrifos. A entrada de Gianni era formidável: espirituosa, original e absolutamente convincente. Não revelarei quais são esses lugares “falsos”, mas direi que, quando o New York Times publicou a crítica ao livro, o crítico selecionou uma das nossas entradas para elogiar, acrescentando que ele (o crítico) tinha ficado particularmente satisfeito com aquela inclusão, porque lera o livro em questão quando era novo e adorara-o, e nunca tinha deparado com nenhuma referência a ele.
 

É esse o poder da ficção, no qual o Gianni acreditava de forma tão inteligente.

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