Lisboa, maio de 1971. Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa escrevem Novas Cartas Portuguesas. Abordam temas proibidos e censurados durante o Estado Novo, como a guerra colonial, o adultério, a violação, o aborto e a subordinação da mulher. A obra é publicada em abril de 1972, pela Estúdios Cor, sob a direção literária de Natália Correia. Três dias depois, é proibido pelo regime, que o considerou “pornográfico e contrário à moral e aos bons costumes”, sendo grande parte dessa primeira edição recolhida e destruída. A obra rapidamente se torna num manifesto contra todas as formas de opressão e um símbolo da luta pela liberdade, igualdade e direitos da mulher. Partindo da história de Soror Mariana, as autoras abordam a clausura da mulher portuguesa no seu quotidiano, seja num convento ou na sociedade patriarcal do Estado Novo.
“Que desgraça o se nascer mulher! Frágeis, inaptas por obrigação, por casta, obedientes por lei a seus donos, senhores sôfregos até de nossos males”.
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“Que mulher não é freira, oferecida, abnegada, sem vida sua, afastada do mundo? Qual a mudança, na vida das mulheres, ao longo dos séculos?”
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“(…) as mulheres bordam, cozinham, sujeitam-se aos direitos de seus maridos, engravidam, têm abortos ou fazem-nos, têm filhos, nados-mortos, nados-vivos, tratam dos filhos, morrem de parto, às vezes, em suas casas, onde apenas mudou o feitio dos móveis, das cadeiras e dos cortinados.”
in Novas Cartas Portuguesas
As três autoras são acusadas e levadas a julgamento, num caso que ficará para a história como o das ‘Três Marias”, uma das primeiras grandes lutas pela causa feminista em Portugal. O caso indignou e mobilizou movimentos feministas e a opinião pública internacional. Na data originalmente marcada para o início do julgamento, 3 de julho de 1973, em vários pontos do mundo, realizaram-se manifestações de solidariedade.
O julgamento tem início apenas em 25 de outubro desse mesmo ano e, durante os dois anos que durou, organizaram-se manifestações de protesto juntos às embaixadas e consulados portugueses em Londres, Paris e Nova Iorque. Vários foram as personalidades que assumiram publicamente o seu apoio às autoras: Simone de Beauvoir, Margarite Duras, Doris Lessing, Íris Murdoch, Stephen Spence, entre outros. A sentença é conhecida em 7 de maio de 1974, apenas alguns dias depois da do 25 de Abril: “O livro Novas Cartas Portuguesas não é pornográfico nem imoral. Pelo contrário: é obra de arte, de elevado nível, na sequência de outras obras de arte que as autoras já produziram”.