Atriz, criadora, encenadora, professora, assistente de encenação e dramaturga. Dirigente da Plateia – Associação de Profissionais das Artes Cénicas. Sara Barros Leitão, 30 anos, assume-se “feminista, ativista por todas as desigualdades ou injustiças, incoerente e a tentar ser melhor, revolucionária quanto baste, artista difícil de domesticar.” No seu site pode ler-se: “Usa o espaço de cena, o papel e a caneta como se fosse uma caixa de fósforos e um bidão de gasolina, ou um megafone para contar a história dos esquecidos.”
O seu trabalho retira da invisibilidade e do esquecimento as personagens secundárias de que não reza a história – fazendo lembrar a frase de Lídia Jorge “a arte é uma revolta contra a história”, mote para uma conversa de mais de duas horas com uma mulher e artista que traz na voz uma força imensa e não quer menos do que mudar o mundo: este mundo de crescente desigualdade, este país profundamente assimétrico, em que despontam novas formas de censura e se explora a situação precária dos trabalhadores da cultura, esta sociedade em que as mulheres mantêm uma dupla jornada. A sua determinação e uma desarmante simpatia fazem-nos acreditar que tudo isso é possível.
Fique a conhecer algumas das leituras que mais a marcaram e o clube do livro feminista que iniciou em 2021.
”Quando rejeitamos a história única, quando nos apercebemos de que nunca há uma história única sobre nenhum lugar, reconquistamos uma espécie de paraíso.”
— Chimamanda Ngozi Adichie
Acreditas que é a partir dos livros que se começa a transformar o mundo e assumes a tua obsessão pelos livros, essa relação física, quase uma doença. Quais as tuas primeiras memórias relacionadas com livros e quando é que te apercebeste desse poder transformador?
Tenho uma relação física com os livros que não foi passada; nunca vivi numa casa em que os livros habitassem também. Apesar de ter uma família muito grande, sempre tive uma essência muito solitária e introvertida, e os livros sempre foram grandes companheiros. Fui-me encontrando nos livros que fui lendo. Sophia de Mello Breyner foi uma autora muito importante para mim; talvez tenha mesmo contribuído para que, na 4.ª classe, quando tivemos de escrever um texto sobre o que queríamos ser quando crescêssemos, eu tenha dito que queria ser escritora. Já nem me lembrava disso; só descobri há pouco tempo. Os livros tornaram-se mais transformadores na minha vida com a Biblioteca da Maia — sou da Maia, onde não há, até hoje, qualquer livraria. Um dia, tinha eu doze anos, resolvi deixar de ir à área da biblioteca que tinha literatura para jovens e resolvi entrar na que tinha livros para os grandes (risos). Perguntaram-me de que estava à procura. Eu não estava à espera de que a bibliotecária falasse comigo e respondi: “Quero ler Os Maias”, porque achei que era um livro sobre a Maia e toda a gente falava n’Os Maias (risos). Tinha doze anos, estava a passar por uma transformação, com a entrada na adolescência, e aquele foi um livro muito marcante. Quando requisitei O Primo Basílio, a minha avó acabou por me tirar o livro e pôs-me de castigo, justificando: “Isto é um livro proibido”. Foi nessa altura que percebi que os livros poderiam ser realmente poderosos. Comecei a criar um fascínio por livros proibidos, censurados, queimados. Como é que os livros podem ser tão poderosos, ao ponto de provocarem problemas familiares e, mesmo, problemas mundiais? Estes momentos foram gatilhos para perceber o que queria. Os livros são transformadores nas fases da vida em que os vamos encontrando. As nossas descobertas com os livros são também um caminho,
Tive uma fase de descoberta na adolescência e daí passei para outra fase de descoberta dos grandes autores mundiais, em que descobri Steinbeck, Hemingway, Tolstói, Dostoiévski e desenvolvi uma grande paixão por todos eles. Mais recentemente, apesar de sentir que andava a ler muitas coisas, cheguei à conclusão de que talvez estivesse sempre a ler a mesma história. Há um ditado, julgo que guineense, que diz: “Enquanto o leão não falar, só saberemos a versão do caçador”. Eu andava a ler muitas versões de caçadores. Comecei a descobrir uma série de autoras, como a Chimamanda Ngozi Adichie, e outras, que me andaram a passar ao lado. Às vezes é preciso algum esforço para nos encontrarmos.
“Enquanto o leão não falar, só saberemos a versão do caçador”
Disseste, em entrevista recente ao podcast Teatra, que os anos de trabalho na televisão, além de te despertarem para a luta de classes, te deram uma notoriedade pública que agora usas em benefício das tuas criações ou tomadas de posição. Obtiveste o reconhecimento dos teus pares — o Prémio Revelação AGEAS do TNDM II é disso testemunho — e do público. Quando falas, as pessoas, independentemente da idade, param para ouvir. Como estás a lidar com o princípio Peter Parker (que citaste na referida entrevista): “Com grande poder, vem uma grande responsabilidade”?
Essa é a pergunta da minha vida e do meu dia a dia. Este fim de semana tivemos uma sessão do clube do livro [Heróides], sobre o livro Carta à Minha Filha, da Maya Angelou, e descobri que ela sofria da Síndrome do Impostor. Pensei: se a Maya Angelou acha que é uma impostora, está tudo bem, isto é transversal a várias pessoas (risos). Na verdade, as minhas ações são muito ponderadas. Por trás de cada texto que escrevo, estão, talvez, uma ou duas semanas de pensamento. Meço cada palavra e cada intervenção. Tenho aprendido recentemente que, por vezes, dizer não a certas coisas não é dar um passo atrás, mas dar dois em frente. Para que as pessoas continuem a parar para me ouvir, tenho de escolher o que vou dizer, caso contrário, vou esgotar-me, vou esgotá-las, vou falar de uma posição desinformada — e eu não quero isso. Por isso, essa responsabilidade acaba por tomar grande parte dos meus dias e da minha vida.
"Meço cada palavra e cada intervenção. Tenho aprendido recentemente que, por vezes, dizer não a certas coisas não é dar um passo atrás, mas dar dois em frente."
Investiste todo o valor do referido Prémio na criação do Heróides, ”um clube do livro feminista — porque os livros salvam vidas e o feminismo salva o mundo”. Como explicarias a importância de olhar as obras — e o mundo — de um ponto de vista feminista?
O feminismo não é necessariamente falar sobre as lutas das mulheres e também não é partir de um ponto de vista reivindicativo, panfletário, chateado ou histérico. Pelo contrário, o feminismo é uma luta transversal a todas e todos, que se reflete em muitas vertentes. Este clube do livro é feminista a partir do momento em que tenta ser inclusivo — por exemplo, todas as sessões têm tradução em língua gestual portuguesa.
Os livros são um privilégio e eu luto para que este possa ser cada vez mais democratizado. Muitos dos dispositivos criados para falar sobre livros são muito opressores. Normalmente, há um palco e um público: no palco estão as pessoas que sabem — como se fosse preciso saber muito para falar sobre um livro —, e se estamos no público, à partida, ficamos calados. Isto afasta as pessoas dos livros porque as coloca numa posição em que sentem que nada têm a acrescentar. Isso é muito opressivo e é tudo aquilo que o feminismo não é. Por isso, quis criar um clube em que todas as pessoas se sintam confortáveis para falar publicamente, partindo do seu sítio de fala. Este é o ponto forte deste clube e a razão de termos sempre trezentos participantes por sessão, que falam de forma muito despojada sobre os livros. Além disso, todas as pessoas que convido para estarem presentes — a produtora que trabalha comigo, as convidadas, a intérprete — são remuneradas. Isto também é feminismo. O Heróides é um espaço em que as pessoas sentem que podem falar e ser ouvidas sem serem julgadas. Isto dá muita liberdade. Nos dias de hoje, não me parece que seja uma coisa de somenos importância.
"Os livros são um privilégio e eu luto para que este possa ser cada vez mais democratizado."
Por: Marisa Sousa & Elísio Borges Maia
A entrevista integral pode ser lida na edição de verão da revista Somos Livros, disponível online ou em qualquer uma das nossas 58 livrarias.