Mads the Bookworm: “Leiam como, quando e onde quiserem. Mas leiam.”

Por: Marisa Sousa a 2021-10-20

A Comunidade Bertrand une livrólicos e bloggers, movidos pela paixão comum: os livros. Nesta edição, fomos conhecer a Madalena Afonso: livreira incansável na Bertrand e leitora ávida, que vê nas redes sociais uma oportunidade para partilhar as suas leituras e contagiar outros com a sua paixão pelos livros.


Quem é a Mads The Bookworm e qual a sua missão nas redes sociais?

A Mads The Bookworm é uma rapariga de 28 anos com uma grande paixão por livros, leitura e escrita. A página no instagram surgiu durante os meus primeiros anos de faculdade, quando comecei a sentir uma enorme necessidade de falar com pessoas que partilhassem o meu amor pela leitura e que, infelizmente, só encontrei através das redes sociais internacionais. Depois surgiu o Youtube e (durante a pandemia) o TikTok.  Felizmente, nove anos depois da minha introdução à comunidade literária online, comunidade portuguesa, online e presencial, tem crescido a olhos vistos e enche-me o coração fazer parte da mesma, tê-la visto crescer e, de certa forma, ter contribuído para o seu crescimento. A minha missão nas redes sociais é muito simples: partilhar as minhas leituras, motivar outros a ler, ajudar a descobrir novos livros, autores e géneros e, eu própria, descobrir novos mundos literários. Não só o tenho conseguido fazer, como também tenho encontrado pessoas magnificas com quem posso partilhar esta experiência. 

 

 

“A minha missão nas redes sociais é muito simples: partilhar as minhas leituras, motivar outros a ler, ajudar a descobrir novos livros, autores e géneros e, eu própria, descobrir novos mundos literários.”

 

Nasceu para ler, mas é obrigada a trabalhar. Ser livreira é um desassossego para uma leitora ávida, como a Madalena?

Sim e não. Gostava de ter muito mais tempo para ler. As folgas não chegam para tudo, principalmente quando a minha única vontade é passar o dia inteiro na cama a dormir por estar tão cansada. Contudo, consigo sempre encontrar um momento ou outro para ler. Horas de refeição, dias de folga, quando todas tarefas estão feitas, audiolivros no carro a caminho do trabalho, e, claro, (o clássico) ler uns capítulos antes de dormir – mas, verdade seja dita, já perdi a conta da quantidade de vezes que adormeci enquanto lia à noite. Também ajuda o facto de ler rápido. 

 

Quantos livros lê, em média, por mês? Um livro de cada vez ou vários livros ao mesmo tempo?

Por mês, a minha média ronda os quatro a seis livros, mais um ou outro audiolivro pelo meio. Gosto de ler vários livros ao mesmo tempo. De saltar de uma história para a outra. Por norma tento ler dois ou três livros ao mesmo tempo, todos de géneros diferentes. Isso também ajuda a manter-me sempre interessada no que estou a ler. Também tenho tendência para escolher livros dependendo da minha rotina. Ou seja, livros mais curtos e/ou fáceis de ler para levar para o trabalho, livros mais pesados ou detalhados para ler em casa. 

 

Na hora de escolher o próximo livro a ler, qual o fator que pesa mais?

Humor, principalmente. E também o que é que me apetece ler naquele momento da minha vida. Às vezes, estou a ler coleções e paro para ler outro livro completamente diferente porque já me estou a cansar de estar sempre no mesmo universo e preciso de uma coisa diferente. O meu estilo de leitura é bastante caótico, sejamos sinceros. Não deixo livros pendurados, termino sempre os livros que começo a ler. Mas, com muita facilidade, hoje estou a ler fantasia e amanhã estou a ler um livro de desenvolvimento pessoal ou uma biografia. Outro fator que pesa é o "quão ansiosa estou eu para ler aquele livro?". Se for uma novidade, que estou em pulgas para começar, no dia em que o compro começo logo a ler. Mas também já aconteceu comprar um livro que estou super entusiasmada para começar, chegar a casa, ver outro que já está na estante há meses e dar-me uma súbita vontade de ler aquele livro em vez do livro que comprei. Os meus hábitos literários são uma aventura constante, nunca sei o que é que me vai apetecer ler a seguir!

 

 

“O meu estilo de leitura é bastante caótico, sejamos sinceros.”

 

Se só lhe fosse possível recomendar três livros, quais escolheria e porquê?

Em primeiro lugar, sugeriria A Ilha do Tempo Perdido, de Silvana Gandolfi. Este foi o livro que me despertou o amor pela leitura. Foi-me oferecido pela minha mãe quando eu tinha uns dez, onze anos, como prenda de ter tido 5 a quase todas as disciplinas no final do ano. Nem a minha mãe imaginava o impacto que esse livro viria a ter na minha vida enquanto leitora. Este livro conta a história de duas meninas que se perdem do grupo durante uma visita de estudo e que vão parar a uma ilha para onde vão todas as coisas perdidas: óculos, chaves, meias, monumentos históricos e até pessoas. Identifiquei-me bastante com a história. A ideia de que tudo o que está perdido nunca está realmente perdido, porque em algum lado terá de estar. Naquela altura, a mensagem que o livro me passou foi: tu podes sentir-te perdida agora, mas em algum lado a tua identidade há de estar.

Em segundo lugar, recomendo o romance gráfico V de Vingança, de Alan Moore. Apesar do filme ser um pouco mais popular do que a obra, penso que toda a gente deveria ler este livro, independentemente de gostar de romances gráficos ou não. A frase "As pessoas não deveriam temer os seus governos. Os governos é que deveriam temer as suas pessoas" foi a frase que mais me marcou enquanto lia o livro e penso que resume muito bem quem somos, quem fomos e quem poderemos ser enquanto sociedade. Apesar do livro falar de uma revolta popular, sinto que também fala de esperança, e de lutar e trabalhar para querer mais, mas principalmente querer melhor. 

Por último, e porque não poderia deixar de incluir um romance, A Vida Invisível de Addie LaRue, de VE Schwab, foi outro livro com o qual me identifiquei bastante. Addie é uma personagem que só quer algo melhor para si, mas que é enganada pelo diabo, num acordo faustiano que a torna praticamente invisível aos olhos de todos, obrigando-a a viver eternamente sem ser recordada por ninguém. Até ao dia em que conhece alguém que se recorda dela. Apesar de absolutamente dramático, achei este livro inspirador. A mensagem "aproveita todos os pequenos momentos porque nunca sabes quando é que os vais perder" é transmitida das mais variadas formas e ao longo de todo o livro. A relação que Addie tem com o diabo, carregada de sarcasmo e amor-ódio, é um bónus soberbo a uma história já de si extraordinária. 

 

Quer sugerir-nos três pessoas/marcas, do universo livrólico, que valha mesmo a pena seguir?

Em primeiro lugar, o canal Literacidades. O Álvaro Curia e o Ludgero Cardoso são membros indispensáveis da comunidade literária portuguesa e os seus contributos para o crescimento e desenvolvimento da comunidade são preciosos. Para além das constantes sugestões literárias, o Ludgero e o Álvaro entrevistam um/a autor/a português diferente todas as semanas, o que facilita e aproxima a comunidade dos autores e vice-versa, havendo assim uma partilha de opiniões e experiências muito mais frequente.

Em segundo lugar, o canal Quem Me Lera. A Elga Fontes e o seu projecto #LerADiferença trouxeram diversidade e temáticas importantíssimas de serem abordadas no mundo literário e que, felizmente e graças à sua perseverança, têm sido discutidas. Desde sugestões literárias relacionadas com o racismo, representação de pessoas com deficiência, positividade corporal, entre outros, a Elga apresenta livros para todos os gostos.

Por último, o podcast Geekices do Demo (Instagram: @geekicesdodemo). Organizado pela booktuber Nights (@wordsalacarte_nights) e pela Corina (omeureinodanoite), este podcast semanal aborda temáticas dentro do género fantástico, nas mais diferentes áreas, seja literária, cinéfila, gaming, entre outras.

 

Acredita que a comunidade constituída por booktubers bookstagrammers pode fazer a diferença no que diz respeito ao incentivo à leitura?

Sem margem de dúvida. O mundo está cada vez mais dependente das redes sociais e do que elas nos sugerem no dia a dia. Se através das redes sociais uma pessoa é incentivada a vestir uma certa peça de roupa porque está na moda, fazer uma viagem a certo local, perder peso, pensar politicamente de certa forma, entre outros, porque não encontrar incentivo para ler também através dos números infinitos de livros que são apresentados todos os dias nas mais variadas plataformas de redes sociais?

Para além disso, o incentivo à leitura está diretamente ligado à juventude. Todos os dias ouvimos afirmações como esta:"os jovens não leem e passam a vida agarrados às redes sociais". Se formos analisar as iniciativas de incentivo à leitura em Portugal, a maioria é dirigida aos jovens. Por que não fazê-lo através daquele que todos consideram ser o verdadeiro vírus causador da insuficiência de leitores no nosso país? Se os jovens se identificam com as redes sociais, então vamos utilizá-las para promover a leitura. É neste ponto que os booktagrammers e booktubers são essenciais, no que diz respeito ao incentivo à leitura. Os criadores de conteúdo online, da comunidade literária, podem ser vistos como o ponto de ligação entre a literatura em Portugal e os futuros leitores. E quanto mais populares são os bookstagrammers e booktubers, nacionais e internacionais, maior impacto têm na comunidade que o segue. Enquanto livreira, vejo esse impacto todos os dias, quando sou abordada por jovens que vêm à procura do livro X ou Y que foi sugerido pela pessoa N na rede social H. Enquanto leitora e blogger, eu própria já fui alvo desse impacto. Através das sugestões de bloggers que sigo, descobri livros que nunca sonharia descobrir sozinha. 

A comunidade literária online pode fazer toda a diferença no que diz respeito ao incentivo à leitura, porque, atualmente, a sociedade vive ligada às redes sociais e, como tal, a comunidade literária pegou nos instrumentos e ferramentas que tinha para continuar a partilhar a mensagem que passa a toda a hora e todos os dias, desde a sua existência: Leiam. Leiam o que quiserem. Leiam quando quiserem. Leiam à velocidade que quiserem. Leiam mais romances, ou mais livros de física. Leiam poesia, ou leiam ensaios. Se não encontrarem nada para ler que vos satisfaça, escrevam a história que querem ler. Leiam como, quando e onde quiserem. Mas leiam. 

 

“Os criadores de conteúdo online, da comunidade literária, podem ser vistos como o ponto de ligação entre a literatura em Portugal e os futuros leitores.”

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Para que lhe sobre mais tempo para as suas leituras.